quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

BEN DAY 2 DE JANEIRO DE 1985 10h18


De bicicleta, a quinta ficava a uma hora de Kinnakee propriamente dita. No mínimo,
uma hora, a uma boa velocidade, mas sem o frio a deixar os pulmões como metal em
brasa, nem com sangue a escorrer pela cara. Ben programava o seu trabalho na escola em
função dos períodos em que estava mais vazia: nunca lá ia ao sábado, por exemplo,
porque a equipa de luta livre tinha treino ao sábado. Era muito mau estar de esfregona na
mão, enquanto aqueles tipos maciços, musculosos, ruidosos gingavam de um lado para o
outro, a cuspir bocados de tabaco para o chão que ele tinha acabado de lavar e depois a
olhar para ele, com ar meio culpado, meio a desafiá-lo a abrir a boca.
Era uma quarta-feira, mas ainda estavam nas férias do Natal, por isso a escola devia
estar sossegada. A sala de musculação tinha sempre gente, sempre a fazer aquele barulho
que parecia um coração de aço a bater, mas era cedo. Cedo era sempre a melhor altura.
Geralmente ia das oito ao meio-dia, passava a esfregona e arrumava e polia tudo, como o
autêntico paspalho que era, e punha-se a andar antes que alguém o visse. Às vezes, Ben
sentia-se uma espécie de gnomo dos contos de fadas, que entrava à socapa na escola e
deixava tudo a brilhar, sem que ninguém reparasse. Os putos estavam-se a cagar para a
limpeza: atiravam um pacote na direção de um caixote do lixo, viam o leite derramar-se
pelo chão todo e limitavam-se a encolher os ombros. Despejavam carne à bolonhesa numa
das cadeiras da cantina e deixavam-na lá ficar, a endurecer, e outro qualquer que
limpasse. Ben fazia o mesmo, só porque era o que toda a gente fazia. Deixava cair um
bocado de sandes de atum no chão e revirava os olhos como se nem valesse a pena olhar
duas vezes para aquela merda, quando era precisamente ele que ia ter de limpar a merda
daí a uns dias. Era uma estupidez pegada, na verdade ele estava a fazer mal a si próprio.
Portanto, era uma seca ter de lidar com aquela porra fosse quando fosse e era ainda
pior quando os outros putos andavam pela escola a fingir que não o viam. Mas, nesse dia,
ele ia arriscar e fazer o seu turno. De manhã, Diondra ia às compras a Salina, de carro. A
miúda tinha pelo menos uns vinte pares de jeans, todos eles iguais aos olhos de Ben, mas
precisava de mais, de uma marca qualquer especial. Usava-os largueirões e enrolava as
bainhas nos tornozelos várias vezes, deixando as meias grossas à mostra. Ele fazia
sempre questão de elogiar os jeans novos e Diondra perguntava logo: e as meeeeias? Era
uma piada, mas no fundo não era. Diondra só usava meias Ralph Lauren, que custavam
tipo uns vinte dólares o par, o que dava a volta ao estômago de Ben. Ela tinha uma
cómoda inteira cheia de meias — aos losangos e às pintas e às riscas, todas com o
cavaleiro em cima, a meio de uma tacada. Ben fizera as contas: deviam estar uns
quatrocentos dólares de meias naquela gaveta, ali expostos como um cesto de fruta da
Florida, valendo provavelmente metade do que a mãe dele ganhava num mês. Bom, os
ricos precisam de comprar coisas e provavelmente as meias cumprem tão bem essa
função como outra coisa qualquer. Diondra era uma miúda estranha, não era propriamente
betinha — era demasiado espalhafatosa e louca para encaixar na categoria dos betinhos —,
mas também não pertencia à malta metaleira, embora ouvisse Iron Maiden aos berros e
adorasse cabedal e fumasse toneladas de erva. Diondra não pertencia a nenhum grupo, era
simplesmente a Rapariga Nova. Toda a gente a conhecia e, ao mesmo tempo, não. Já tinha
vivido em montes de sítios, a maioria deles no Texas, e a resposta dela sempre que fazia
qualquer coisa que os outros provavelmente iam criticar, era: «É assim que se faz no
Texas.» Tudo o que ela fizesse estava bem, porque era assim que se fazia no Texas.
Antes de conhecer Diondra, Ben deixara-se simplesmente andar pela vida: era um
miúdo pobre e sossegado, criado numa quinta, que se juntava a outros filhos de
agricultores num canto discreto da escola. Não eram suficientemente totós para que os
outros putos os insultassem; nunca ninguém se metia com eles. Eram o ruído de fundo do
liceu. Para ele, isso era pior do que ser humilhado. Bom, talvez não, havia um tipo com
uns grandes óculos de lentes progressivas, um puto que Ben conhecia desde o jardimescola
e que sempre fora esquisito. Na primeira semana de aulas no liceu, o puto borrouse
nas calças. Havia várias versões sobre o como: numa, viram-lhe cair cagadelas dos
calções enquanto ele trepava a uma corda no ginásio, noutra, viram-no largar um cagalhão
em plena sala de aula, e por aí fora, variantes era o que não faltava. A questão era que ele
tinha ficado com a alcunha de Calções Cagados para o resto da vida. Nos intervalos,
mantinha a cabeça baixa, com aqueles óculos do tamanho da lua apontados para o chão e,
mesmo assim, havia sempre um gajo qualquer que lhe dava um caldo na cabeça: Então,
Calções Cagados! O coitado continuava a andar, com um sorriso sinistro na cara, como se
estivesse a fingir que aquilo também era uma piada para ele. Portanto, sim, havia coisas
piores do que passar despercebido, mas Ben não gostava disso, não queria continuar a ser
o Puto Ruivo Simpático e Calado que era desde o primeiro ano. Um chato sem tomates.
Portanto, devia um obrigado do caraças a Diondra por o ter reivindicado para ela, pelo
menos em privado. Diondra atropelara-o com o carro, foi assim que se conheceram.
Estavam no verão e ele tivera uma sessão de orientação para caloiros e alunos novos.
Foram três horas de seca e, no fim, quando ia a atravessar o parque de estacionamento
da escola, ela ceifou-o com o carro. Atirou-o em cheio para cima do capô. Ela saiu do
carro aos gritos com ele: És parvo ou quê, cabrão?, o hálito a cheirar a sangria, as
garrafas a tilintarem no chão do CRX. Quando Ben pediu desculpa — ele é que lhe pediu
desculpa a ela — e Diondra percebeu que ele não se ia irritar, ficou toda doce, ofereceu-lhe
boleia até casa e, em vez disso, acabaram por ir para os arredores da povoação, onde
estacionaram e beberam mais sangria. Diondra disse que se chamava Alexis, mas daí a
nada confessou-lhe que era mentira. Chamava-se Diondra. Ben disse-lhe que nunca devia
mentir sobre um nome tão fixe como aquele e ela ficou contente e, passado mais um
pouco, Diondra disse: «Sabes que mais? Tens uma cara muito gira» e, segundos depois,
acrescentou: «Então, queres curtir ou não?» e desataram a curtir à grande, o que não foi
uma primeira para ele, mas foi só a segunda. Ao fim de uma hora, Diondra anunciou que
tinha de ir embora, mas disse que ele era muito bom ouvinte, que era muito fixe a
maneira como ele sabia ouvir uma pessoa. Acabou por já não o levar a casa. Deixou-o
exatamente no mesmo sítio onde o atropelara.
Foi assim que começaram a namorar. Ben não conhecia os amigos dela e nunca andava
com ela na escola. Diondra entrava e saía dos dias de escola como um rouxinol, às vezes
aparecia, outras vezes não. Era suficiente vê-la ao fim de semana, num espaço que era só
deles, onde a escola não tinha importância nenhuma. Estar com ela mudara-o, ele sentiase
mais presente.
Quando Ben chegou a Kinnakee de bicicleta, um grupo de carrinhas e carros
desportivos maltratados estava parado no parque de estacionamento. Portanto, jogadores
de basquetebol além dos tipos da luta livre. Ele sabia quem conduzia que carro. Pensou em
fugir, mas Diondra só chegava a casa daí a várias horas e ele não tinha dinheiro para se
sentar na tasca dos hambúrgueres; o dono ficava passado dos carretos quando via putos a
fazerem horas no restaurante dele sem comprarem nada. Além disso, sentar-se sozinho
num restaurante nas férias do Natal era pior do que estar a trabalhar. Foda-se para a mãe
dele por ser tão stressada. Os pais de Diondra estavam-se nas tintas para o que ela fazia;
estavam fora a maior parte do tempo, numa casa que tinham no Texas. Mesmo quando
Diondra fora apanhada por ter faltado às aulas durante duas semanas, no mês passado, a
mãe limitara-se a rir. Patrão fora, dia santo na loja, não é, querida? Pelo menos tenta
fazer os trabalhos de casa.
A entrada das traseiras da escola estava fechada a cadeado, por isso ele teve de
entrar pelos balneários. O cheiro a carne e a desodorizante para os pés atingiu-lhe as
narinas assim que entrou. As pancadas secas que lhe chegavam do campo de basquetebol
e os ruídos metálicos da sala de musculação sossegaram-no: pelo menos, os balneários
estariam vazios. No corredor, ouviu um grito longo — Coooooper! Espeeeera! — ecoar no
chão de mármore como um grito de batalha. Sapatos de ténis patinharam ao fundo do
corredor, uma porta de metal abriu-se com estrondo e depois ficou tudo relativamente em
sossego. Só o ruído do campo de treinos e da sala de musculação: pam, pam, clanque,
pum.
Os atletas da escola tinham uma espécie de pacto de confiança, um sinal de espírito
de equipa, e nunca trancavam os cacifos. Em vez disso, amarravam uns atacadores
grossos nos ganchos onde devia passar o cadeado. Pelo menos doze atacadores brancos
estavam pendurados nos cacifos e Ben hesitou, como sempre, em espreitar para dentro de
um deles. De que é que aqueles tipos precisavam, de qualquer maneira? Se havia cacifos
para os livros, o que é que eles meteriam naqueles cacifos do ginásio? Seriam
desodorizantes e cremes, uma espécie qualquer de roupa interior que ele não tinha?
Usariam todos o mesmo tipo de proteção para os genitais? Pam, pam, clanque, pum. Um
atacador estava pendurado sem nó, bastava um puxão rápido e o cacifo abria-se. Antes
que conseguisse convencer-se a não o fazer, puxou pelo atacador e, devagar, sem fazer
barulho, levantou o fecho. Dentro do cacifo não havia nada de interessante: uns calções de
ginástica amarrotados no fundo, uma revista de desporto enrolada, um saco de desporto
pendurado num gancho. O saco parecia ter qualquer coisa lá dentro, por isso Ben
debruçou-se e abriu-o.
— Ei!
Virou-se, enquanto o saco balouçava à doida no gancho e caía para o fundo do cacifo.
Mr. Gruger, o treinador da luta livre, estava parado com um jornal na mão, com o rosto
grosseiro e às manchas crispado.
— O que é que tu pensas que estás a fazer, a mexer nesse cacifo?
— Eu, ah, estava aberto.
— O quê?
— Estava aberto, eu vi que estava aberto — disse Ben. Fechou-o o mais
silenciosamente que conseguiu. Por favor, foda-sefoda-sefoda-se, não deixes que ninguém
da equipa venha para aqui, pensou Ben. Conseguia imaginar as caras furiosas a olharem
para ele, as alcunhas que inventariam.
— Estava aberto? E porque é que estavas a mexer nele? — Gruger deixou a pergunta
ficar em suspenso no ar, sem se mexer, sem dar qualquer indicação do que ia fazer, sem
mostrar qual o tipo de sarilho em que Ben se tinha metido. Ben tentou ficar de olhos
baixos, à espera de ser repreendido.
— Eu perguntei o que é que estavas a fazer nesse cacifo. — Gruger bateu com o jornal
na mão gorda.
— Não sei.
O velho ficou ali parado, enquanto Ben pensava o tempo todo: grita e acaba com isto
de uma vez.
— Estavas a preparar-te para tirar alguma coisa?
— Não.
— Então, porque é que estavas a mexer no cacifo?
— Eu estava só... — Ben deixou a frase outra vez a meio. — Achei que tinha visto
qualquer coisa.
— Achaste que tinhas visto qualquer coisa? O quê?
Pela cabeça de Ben passaram várias coisas proibidas: animais, drogas, revistas
pornográficas. Lembrou-se de petardos e por um instante pensou que ia dizer que o cacifo
estava a arder, seria um herói.
— Hum, fósforos.
— Achaste que tinhas visto fósforos? — O sangue no rosto de Gruger passara das
faces para o refego da testa, mesmo abaixo do cabelo muito curto e crespo.
— Queria um cigarro.
— És o empregado da limpeza, não és? Qualquer coisa Day?
Gruger deu um tom pateta e efeminado ao nome. Os olhos do treinador examinaram o
corte na testa de Ben, depois subiram em cheio para o cabelo.
— Pintaste o cabelo.
Ben ficou parado debaixo da sua melena preta e sentiu que estava a ser rotulado e
posto de parte, atirado para o grupo dos falhados, drogados, bananas, maricas. Tinha a
certeza de ter ouvido essa palavra rosnar na mente do treinador. O lábio superior de
Gruger fez um esgar.
— Sai daqui. Vai limpar outra coisa qualquer. Não voltes aqui até nos termos ido
embora. Não és bem-vindo aqui dentro. Percebeste?
Ben fez que sim com a cabeça.
— Porque é que não repetes em voz alta, para que não haja mal-entendidos?
— Não sou bem-vindo aqui dentro — murmurou Ben.
— Agora, põe-te a andar. — Falou como se Ben fosse uma criança, um menino de
cinco anos que ele estava a mandar de volta para junto da mãe. Ben foi.
Subiu as escadas que levavam ao cubículo húmido dos produtos de limpeza, com um
pingo de suor a escorrer-lhe pelas costas abaixo. Ben nem respirava. Esquecia-se de
respirar quando estava furioso como naquele instante. Pegou no balde de tamanho
industrial e levou-o a chocalhar para a pia, encheu-o com água quente, despejou o
detergente cor de urina, sentindo o cheiro a amoníaco arder-lhe nos olhos. Depois,
encaixou-o no suporte com rodas. Como tinha enchido demasiado o balde, transbordara
quando o tirara da pia, despejando dois litros de água pelas calças abaixo. Ficou com a
braguilha e a perna completamente encharcadas. Parecia que se tinha mijado todo, o
Faxina Day. Os jeans colaram-se-lhe às coxas, ficaram duros. Iam ser três horas de
trabalho de merda com a braguilha molhada e os jeans duros como cartão.
— Vai-te foder, cabrão — murmurou. Deu um pontapé na parede com a botifarra,
pulverizando o estuque, e deu um murro na parede. — Fooooooda-se! — berrou, a sua voz
tornando-se estridente no fim. Ficou escondido no cubículo como um cobarde, com medo
de que Gruger localizasse a origem do grito e decidisse lixá-lo ainda mais.
Não aconteceu nada. Ninguém mostrou o mínimo interesse em ver o que se passava no
cubículo dos empregados da limpeza.
Ele devia ter feito a limpeza uma semana antes, mas Diondra queixara-se de que
estavam oficialmente de férias de Natal, ele que deixasse aquilo para depois. Portanto, o
lixo da cantina estava cheio de velhas latas de refrigerante a verterem líquido açucarado,
embalagens de sandes cobertas de salada de frango e restos bolorentos do último prato
especial do almoço de 1984, um hambúrguer guisado com molho de tomate adocicado.
Tudo estragado. Ficou com salpicos na camisola e nos jeans, por isso, além de amoníaco e
suor, também cheirava a comida estragada. Não podia ir ter com Diondra naquele estado,
era um idiota por ter programado as coisas daquela maneira. Teria de voltar a casa de
bicicleta, lidar com a mãe — podia contar com um sermão de trinta minutos, sem tirar
nem pôr —, tomar um duche e ir de bicicleta a casa dela. Se a mãe não o proibisse de
sair, como castigo. Que se lixasse, saía à mesma. O corpo era dele, o cabelo era dele. O
seu cabelo preto fodido de maricas.
Limpou o chão com a esfregona e meteu o lixo de todos os gabinetes dos professores
em sacos; era a sua tarefa preferida, porque parecia enorme, mas era só recolher bocados
de papel amarrotado, leve como folhas de árvore. A sua última missão era limpar o
corredor que ligava o liceu à escola básica (que tinha o seu próprio aluno-faxina
embaraçado). O corredor estava coberto de cartazes espalhafatosos de futebol e corridas
e clube de teatro do lado do liceu e, depois, desintegrava-se lentamente em território
infantil, as paredes forradas com letras do abecedário e textos sobre George Washington.
Umas portas azuis garridas assinalavam a entrada da escola básica, mas eram um mero
pró-forma; nem sequer tinham fechadura. Limpou o chão todo desde a Liceulândia até à
Infantoville, deixou cair a esfregona no balde e afastou-o de si com um pontapé. O balde
rebolou suavemente pelo chão de cimento e bateu na parede com um splash discreto.
Do jardim-escola até ao oitavo ano, andara na escola básica de Kinnakee; tinha uma
relação mais forte com essa parte do edifício do que com o lado do liceu onde se
encontrava naquele momento, com dejetos liceais agarrados ao corpo.
Pensou em abrir a porta e vaguear por entre o silêncio do outro lado e, de repente, era
isso mesmo que estava a fazer. A dizer olá à antiga escola. Ouviu a porta fechar-se atrás
de si e descontraiu-se. Ali, as paredes eram amarelo-limão, com decorações à porta de
cada sala de aulas. Kinnakee era suficientemente pequena para que cada ano só precisasse
de uma sala de aulas. O liceu era diferente, tinha o dobro do tamanho, porque outras
terras mandavam os miúdos para ali. Mas a escola básica fora sempre um espaço
agradável e acolhedor. Na parede, viu um sorridente sol de feltro, com Michelle D., 10
anos, escrito de lado. E aqui estava o desenho de um gato de colete e sapatos de fivela —
ou talvez fossem saltos altos —, o que importava é que estava a sorrir e a dar uma
prenda a um rato que segurava num bolo de aniversário. Libby D., Primeiro Ano. Procurou,
mas não viu nada feito por Debby, pensando bem, nem sabia se a miúda era capaz de
desenhar. Uma vez, ela tentara ajudar a mãe a fazer bolachas, de respiração ofegante, e
acabara por dar cabo da receita e, no fim, comera mais massa crua do que cozida. Debby
não era o tipo de miúda que via as suas coisas serem afixadas na parede.
Ao longo de todo o corredor, estavam filas de caixas amarelas onde os miúdos podiam
guardar objetos pessoais, com o nome de cada aluno escrito numa tira de fita adesiva
colada em cada caixa. Espreitou para dentro da de Libby e encontrou um rebuçado de
hortelã-pimenta, meio comido, e um clipe. A de Debby tinha um saco castanho de almoço
que fedia a salame; a de Michelle, uma caixa de marcadores ressequidos. Espreitou para
dentro de mais umas quantas, só por curiosidade, e percebeu que tinham muito mais
coisas que as das suas irmãs. Caixas de sessenta e quatro lápis de cor Crayola, bonecas e
carros a pilhas, resmas grossas de cartolina, correntes de porta-chaves e livros de
autocolantes e sacos de rebuçados. Triste. É o que acontece quando se tem mais filhos do
que aqueles que se pode sustentar, pensou. Era o que Diondra dizia sempre quando ele
comentava que o dinheiro era apertado em casa: Nesse caso, a tua mãe não devia ter tido
tantos filhos. Diondra era filha única.
Ben encaminhou-se para a parte do liceu, mas deu por si a perscrutar as caixas do
quinto ano. Ali estava ela, a pequenina Krissi que tinha uma paixoneta por ele. Ela
escrevera o nome em grandes letras verde-vivo e desenhara uma margarida na parte de
lado. Ficou giro. E gira era a definição da miúda, parecia saída de um anúncio de cereais:
cabelo louro, olhos azuis e toda bem arranjadinha. Ao contrário do que acontecia com as
suas irmãs, os jeans de Krissi serviam-lhe sempre e estavam limpos e passados a ferro;
as camisas condiziam com a cor das meias ou dos ganchos do cabelo ou fosse o que
fosse. Não tinha hálito a comida como Debby, nem arranhões nas mãos todas como Libby.
Como eles todos. Tinha sempre as unhas pintadas de rosa forte, percebia-se que era a
mãe que lhas pintava. De certeza que a caixa dela estava cheia de bonecas da Docinho de
Morango e outros brinquedos que cheiravam bem.
Até o nome dela batia certo: Krissi Cates era um nome naturalmente fixe. Quando
chegasse ao liceu, ela seria cheerleader, com aquele cabelo louro caído pelas costas
abaixo, e provavelmente esquecer-se-ia de que, em miúda, fora louca por um rapaz mais
velho chamado Ben. Ele teria o quê, então, uns vinte anos? Viria de Wichita, por exemplo,
com Diondra, de carro, para assistir a um jogo e Krissi olharia na direção dele a meio de
um salto e, quando o visse, o seu rosto abrir-se-ia num grande sorriso resplandecente e
ela faria um pequeno aceno empolgado, e Diondra soltaria o seu riso de cavalo e diria:
«Não te basta teres metade das mulheres de Wichita apaixonadas por ti, ainda tens de
engatar miúdas de liceu, coitadas?»
Ben podia nunca ter conhecido Krissi — ela andava um ano à frente de Michelle —,
mas foi recrutado um dia, no início do ano escolar. A senhora Nagel, que sempre gostara
dele, pedira-lhe para a ajudar a tomar conta dos miúdos no ATL de educação visual. Só por
um dia. O monitor do costume não tinha aparecido. Ben devia voltar para casa, mas sabia
que a mãe não poderia ficar irritada com ele por ter dado uma ajuda aos mais pequenitos
— ela andava sempre a chateá-lo para ajudar a tomar conta das irmãs em casa —, e
misturar tintas era muito mais apelativo do que carregar estrume. Krissi foi uma das
miúdas que ficou a seu cargo, mas não parecia muito interessada em pintar. Limitava-se a
espalhar a tinta de um lado ao outro com o pincel até a folha toda ficar castanha cor de
merda.
— Tens noção do que isso parece, não tens? — disse-lhe ele.
— Cocó — respondeu ela, e desatou a rir.
Era atiradiça, mesmo sendo tão pequena; via-se que já nascera gira e que partia do
princípio de que toda a gente gostava dela. E, de facto, ele gostou. Falaram entre longas
linhas de silêncio.
Onde é que vives?
Verter, aplicar, espalhar. Molhar o pincel na água e repetir.
Perto de Salina.
E andas aqui na escola, tão longe de casa?
Ainda não acabaram de construir a escola. No próximo ano, já vou ficar mais perto de
casa.
Ainda é longe de carro.
Um ranger de cadeira, um descair de ombros.
Pois é. Detesto. Tenho de esperar horas, no fim das aulas, para que o meu pai me
venha buscar.
Então, o ATL de educação visual é uma boa ideia.
Talvez. Prefiro ballet, é o que faço ao fim de semana.
Ter ballet ao fim de semana dizia muita coisa. Provavelmente era uma daquelas
miúdas com piscina em casa ou, se não uma piscina, um trampolim. Pensou em dizer-lhe
que tinham vacas na quinta — a ver se ela gostava de animais —, mas sentiu que já
estava a esforçar-se demasiado com ela. Era uma miúda, ela é que devia estar a tentar
impressioná-lo.
Ofereceu-se para tomar conta dos miúdos no ATL de educação visual durante o resto
do mês, metendo-se com Krissi por causa dos desenhos que ela fazia (mas isto é o quê,
afinal, uma tartaruga?) e deixando-a falar durante horas sobre o ballet (não, seu palerma,
é o BMW do meu pai!). Um dia, ó miudinha corajosa, ela esgueirou-se para a parte do liceu
e foi esperar Ben junto do cacifo dele, com uns jeans que tinham umas borboletas feitas
de lantejoulas no bolso e uma camisa cor-de-rosa com dois altos em forma de cone
espetados na zona do peito. Ninguém a incomodou, a não ser uma miúda cheia de zelo
maternal que tentou encarreirá-la de volta para o lado certo do edifício.
— Eu estou bem — respondeu ela, sacudindo o cabelo, e virou-se para Ben. — Vim só
dar-te uma coisa.
Entregou-lhe um bilhete, dobrado em forma de triângulo, com o nome dele escrito na
frente em letras gordas. Depois, deu meia-volta, toda empertigada no meio de miúdos que
tinham quase o dobro do tamanho dela, com um ar de quem nem tinha reparado nisso.

No ATL de desenho, um rapaz chamado Ben eu conheci
E seduzir o coração dele decidi.
Tem o cabelo ruivo e uma bonita pele,
Alinhas neste «mel»?

Ao fundo da página ela acrescentara uma carta + comprida + logo, com o sinal +
destacado com uma cor diferente. Ben já tinha visto amigos de amigos com bilhetes
daqueles, mas era raro ele receber algum. Em fevereiro passado, recebera três postais do
Dia dos Namorados, um da professora porque fazia parte da aula, um da miúda simpática
que dava um postal a toda a gente e um da miúda gorda e desesperada que parecia estar
sempre à beira das lágrimas.
Diondra escrevia-lhe agora de vez em quando, mas os bilhetes não eram giros, eram
ordinários ou irritados, coisas que ela rabiscava durante o castigo na escola. Nunca
nenhuma miúda lhe escrevera um poema e a situação tornava-se ainda mais gira por
Krissi parecer não ter noção de que ele era demasiado velho para ela. Tratava-se de um
poema de amor de uma miúda que não fazia ideia do que era o sexo ou curtir. (Ou será
que fazia? Quando é que os miúdos normais começavam a curtir?)
No dia seguinte, ela esperou por ele à porta do ATL e pediu-lhe para se sentar nas
escadas e ele disse que sim, mas só um instante, e estiveram no gozo durante uma hora
inteira naquelas escadas sombrias. A dada altura, ela agarrou-lhe no braço e encostou-se
toda a ele, e Ben soube que lhe devia dizer para não fazer aquilo, mas ela era tão querida
e aquilo era tão bom, não tinha nada de esquisito, não era como os arranhões e os gritos
de ninfomaníaca de Diondra, nem as brincadeiras brutas das irmãs, era doce como uma
miúda deve ser. Ela usava um batom com cheiro a pastilha elástica e, como Ben nunca
tinha dinheiro para comprar pastilha elástica — estavam mesmo fodidos —, ficava sempre
com água na boca.
Portanto, andavam naquilo havia meses, a sentarem-se nas escadas à espera que o pai
dela chegasse. Nunca falavam ao fim de semana e, às vezes, ela até se esquecia de
esperar por ele e Ben ficava parado nas escadas como um idiota, com um pacote de
Smarties quentes que encontrara quando limpava a cantina. Krissi adorava guloseimas. As
irmãs dele eram iguaizinhas, pedinchavam açúcar como escaravelhos; uma vez, chegou a
casa e encontrou Libby a comer compota diretamente do frasco.
   Diondra nunca soube de Krissi. Quando Diondra ia à escola, nos dias em que ia, voltava
para casa às 15h16 para ver as novelas e o Donahue. (Geralmente via televisão a comer
massa de bolo diretamente da taça da misturadora, que raio de mania era aquela das
miúdas em relação ao açúcar?) E mesmo que Diondra viesse a descobrir, não se passava
nada de mais. Ele era uma espécie de conselheiro escolar. Um rapaz mais velho a
aconselhar uma rapariga sobre os deveres e o liceu. Talvez devesse ir para psicologia ou
ser professor. O pai dele era cinco anos mais velho do que a mãe.
   A única coisa duvidosa que houve entre ele e Krissi aconteceu pouco antes do Natal e
nunca mais se repetiria. Estavam sentados nas escadas, a chupar rebuçados de maçã
verde e a meter-se um com o outro, quando, de repente, ele se apercebeu do corpo dela
muito mais perto do que era hábito e um dos mamilos roçou-lhe ao de leve no braço.
Sentiu no pescoço o cheiro quente a maçã e ela deixou-se ficar agarrada a ele, sem dizer
nada, só a respirar, Ben sentindo os batimentos do coração dela como um gatinho de
encontro ao seus bíceps e os dedos a pressionarem-no abaixo das axilas. Os lábios dela
aproximaram-se da orelha dele, molhando-lhe o lóbulo com a respiração ofegante, Ben com
as gengivas a latejarem do açúcar dos rebuçados, e a seguir os lábios desceram-lhe pela
bochecha, provocando-lhe arrepios pelos braços abaixo, sem que nenhum dos dois
admitisse o que estava a acontecer, e o rosto dela surgiu mesmo à sua frente e aqueles
labiozinhos pressionaram os dele, sem se mexerem, e os dois ficaram ali parados, com o
coração a bater ao mesmo ritmo, o corpo todo dela agora encaixado entre as pernas dele
e ele com as mãos caídas, hirtas, de cada lado do tronco, todas suadas, e depois ela
moveu ligeiramente os lábios, entreabriu-os ao de leve, e ali estava a língua, pegajosa, a
lambê-lo, um gosto na boca de ambos a maçã verde, e o pau de Ben ficou tão duro que
ele teve medo de que lhe explodisse nas calças e pôs as mãos na cintura dela e segurou-a
por um instante e, depois, afastou-a de si e correu escada abaixo até à casa de banho dos
rapazes — aos gritos: desculpa, desculpa — e entrou num dos cubículos e bastou esfregar
o pau duas vezes para se vir todo.

LIBBY DAY TEMPO PRESENTE


Depois de a cabeça da minha mãe ter sido rebentada a tiro de caçadeira e o corpo
quase cortado em dois à machadada, as pessoas de Kinnakee começaram a pensar se ela
teria sido prostituta. A princípio interrogaram-se, depois concluíram que sim e, a seguir,
tornou-se uma espécie de facto repetido como uma cantilena. As pessoas tinham visto
carros lá em casa a estranhas horas da noite, diziam. Ela olhava para os homens como
uma prostituta. Nessas situações, Vern Evelee comentava sempre que ela devia ter
vendido a máquina para revolver a terra em 1983, como se isso fosse prova de que se
prostituía.
Culpem a vítima, claro. Mas os boatos tornaram-se substanciais: toda a gente tinha
um amigo que tinha um primo que tinha outro amigo que tinha ido para a cama com a
minha mãe. Toda a gente tinha uma prova qualquer: falaram num sinal na parte interior da
coxa, numa cicatriz na nádega direita. Não me parece que as histórias fossem verdadeiras,
mas, como acontece com tantas outras coisas da minha infância, não tenho a certeza. Do
que é que se lembram de quando tinham sete anos? As fotografias da minha mãe não
revelam uma mulher libertina. Quando era adolescente, com o cabelo apanhado num rabo
de cavalo que parecia fogo de artifício, ela era a encarnação da simpatia, o tipo de pessoa
que nos faz lembrar uma vizinha ou uma antiga babysitter de que sempre gostámos.
Quando tinha vinte e poucos anos, já com um ou dois filhos a treparem por ela acima, o
sorriso era maior, mas tenso, e estava sempre inclinada de maneira a afastar-se de um
de nós. Imaginei-a sob um cerco constante dos filhos. O simples peso que nós éramos.
Quando entrou nos trinta, as fotografias tornaram-se escassas. Nas poucas que existem,
sorri como se estivesse a obedecer a uma ordem, um daqueles sorrisos de «despacha-te
a tirar a porcaria da fotografia» que desaparecem assim que o flash se apaga. Não olho
para as fotografias há anos. Costumava mexer nelas obsessivamente, analisando as
roupas dela, a expressão, tudo o que estivesse em pano de fundo. À procura de pistas: de
quem é a mão que está pousada no ombro dela? Onde é que ela está? De que ocasião se
tratou? Quando ainda era adolescente, guardei-as num invólucro selado, juntamente com
todas as outras coisas.
Detive-me a olhar para as caixas, enfiadas às três pancadas debaixo das escadas, com
ar de quem pede desculpa. Estava a ganhar coragem para me voltar a familiarizar com a
minha mãe e os meus irmãos. Tinha levado o bilhete da Michelle ao Kill Club
simplesmente porque não tinha tido coragem de abrir aquelas caixas, limitara-me a enfiar
a mão num dos cantos da caixa onde a fita adesiva estava descolada e o bilhete foi a
primeira coisa que agarrei, uma patética brincadeira de Carnaval. Se realmente queria ir
com aquilo para a frente, se realmente ia pensar nos crimes depois de tantos anos
cautelosos a fazer precisamente o contrário, tinha de conseguir olhar para objetos
domésticos básicos sem entrar em pânico: a nossa velha batedeira de ovos que fazia
lembrar o som de guizos de trenó quando a manuseávamos muito depressa, facas e
garfos tortos que tinham estado nas bocas da minha família, um ou dois livros de colorir
com esquadrias bem definidas a lápis de cor, no caso dos da Michelle, e nos meus,
rabiscos horizontais entediados. Olha para eles, deixa que sejam apenas objetos.
E, depois, decide o que vender.
Para os cabrões sinistros do Kill Club, os artigos mais desejáveis do lar dos Day não
estavam disponíveis. A caçadeira de calibre .10 que matou a minha mãe — a arma de
caçar gansos — está guardada em alguma gaveta de provas forenses, juntamente com o
machado da nossa arrecadação. (Essa foi mais uma das razões que fez com que Ben
fosse condenado: as armas provinham da nossa própria casa. Nenhum assassino chega a
uma casa desconhecida a meio da noite de mãos a abanar, na esperança de encontrar
armas convenientes para assassinar uma família inteira.) Às vezes, tentava imaginar
aquelas coisas todas: o machado, a caçadeira, os lençóis da cama em que Michelle
morreu. Estariam esses objetos ensanguentados, pegajosos e a cheirar a fumo todos
juntos, a conspirarem dentro de um qualquer caixote? Teriam sido limpos? Se uma pessoa
abrisse a caixa, qual seria o cheiro? Lembrava-me daquele cheiro a terra putrefacta,
poucas horas depois dos crimes... ter-se-ia agravado, depois de tantos anos de
decomposição?
Fui a Chicago, uma vez, ver os artefactos da morte de Lincoln num museu: tufos de
cabelo; fragmentos de bala; a cama estreita e periclitante em que ele morrera, com o
colchão ainda afundado no meio como se soubesse que devia preservar a derradeira marca
do corpo. Tive de ir a correr para a casa de banho, onde encostei a cara à porta fria do
cubículo para não desmaiar. Qual seria o aspeto da casa da morte dos Day, se
reuníssemos todas as suas relíquias, e quem a viria visitar? Quantos feixes de cabelo
ensanguentado da minha mãe estariam no expositor? O que foi feito das paredes,
manchadas com aquelas palavras odiosas, quando a nossa casa foi deitada abaixo? Seria
possível colhermos um ramo dos juncos congelados entre os quais estive agachada
durante tantas horas? Ou expormos a ponta do meu dedo queimado pelo gelo? Os três
dedos do pé que me foram amputados?
Virei costas às caixas — não me sentia à altura do desafio — e sentei-me a uma
secretária que servia de mesa da sala de jantar. Recebera pelo correio uma encomenda de
Barb Eichel com oferendas fortuitas de gente maluca. Uma cassete de vídeo, de cerca de
1984, intitulada Uma Ameaça à Inocência: O Satanismo na América; um molho de
recortes de jornais sobre os crimes, presos com um clipe; umas quantas polaroides de
Barb parada à porta do tribunal onde se realizou o julgamento de Ben; um manual com os
cantos das páginas dobrados chamado A Sua Família na Prisão: Supere as Grades!
Tirei o clipe do molho de papéis e guardei-o no meu copo dos clipes na cozinha (nunca
ninguém devia comprar clipes, canetas, nenhum desses materiais de escritório que
circulam livremente). Depois, enfiei a cassete no meu leitor de VHS velhíssimo. Um clique,
um zumbido, um gemido. Imagens de pentagramas e homens-bode, de bandas rock aos
gritos e pessoas mortas desfilaram pelo ecrã. Um homem com um belo penteado à anos
70, curto dos lados e comprido atrás, cheio de laca, caminhava ao longo de uma parede
coberta de graffiti, explicando que «este vídeo vai ajudá-los a identificar satanistas e
inclusive a identificar sinais de que as pessoas que mais ama estão a deixar-se seduzir
por este perigo bem real». Entrevistava pregadores, polícias e alguns «satanistas de
verdade». Os dois satanistas mais poderosos usavam eyeliner e mantos pretos e
pentagramas ao pescoço, mas estavam sentados na sala de estar de casa, num sofá
barato de belbutina, e via-se uma parte da cozinha à direita, onde o frigorífico amarelo
zunia num chão de linóleo colorido. Imaginei-os depois da entrevista a vasculharem o
frigorífico para tirarem uma salada de atum e uma Coca-Cola, com as capas a
atrapalharem-lhes os movimentos. Desliguei o vídeo no momento em que o apresentador
aconselhava os pais a passarem os quartos dos filhos a pente fino, em busca de bonecos
do He-Man e tabuleiros de espiritismo. Os recortes de jornal eram igualmente inúteis e
não percebi o que é que Barb queria que eu fizesse com as fotografias dela. Sentei-me,
derrotada. E preguiçosa. Podia ter ido à biblioteca procurar as informações como devia ser.
Podia ter instalado Internet em casa há três anos, quando disse que o faria. Nenhuma
dessas coisas me pareceu uma opção viável nesse momento... por isso, liguei a Lyle. Ele
atendeu ao primeiro toque.
— Oláááá, Libby — disse. — Ia telefonar-lhe. Queria pedir desculpa pela semana
passada. Deve ter-se sentido acossada e isso não devia ter acontecido. — Bonito discurso.
— Pois, foi péssimo.
— Pelos vistos, eu não tinha percebido que todos nós tínhamos as nossas próprias
teorias e que, enfim, nenhuma delas passava pela hipótese de o Ben ser culpado. Não
pensei bem nas coisas. E não percebi. Não tomei isso em conta. Só que... para si, isto é
uma realidade. Quero dizer, eu sei que é, nós sabemos que é, mas ao mesmo tempo não
temos consciência disso. Acho que nunca havemos de ter. Não me parece. Uma
consciência plena disso. Passamos tanto tempo a discutir e a trocar ideias que a coisa se
torna... mas, enfim. As minhas desculpas.
Eu não queria gostar de Lyle Wirth, uma vez que já tinha decidido que era um idiota,
mas aprecio um pedido de desculpas direto, da mesma maneira que uma pessoa sem
ouvido para a música desfruta de uma boa obra. Não sou capaz de o fazer, mas aplaudo-o
nos outros.
— Bom — respondi.
— Alguns membros do clube continuam decididamente a querer comprar quaisquer,
enfim, quaisquer recordações que queira vender. Se foi por isso que telefonou.
— Ah, não. Estava só a pensar. Tenho andado a pensar muito no caso. — E só me
faltou acrescentar em voz alta, no final da frase: «Reticências.»
Encontrámo-nos num bar perto de minha casa, um sítio chamado Sarah’s, o que
sempre me pareceu um nome estranho para um bar, mas era um espaço suficientemente
sossegado e amplo. Não gosto de ter gente sentada quase em cima de mim. Lyle já
estava instalado a uma mesa, mas levantou-se quando entrei e baixou-se para me dar um
abraço, um gesto que exigiu muitas contorções e colapsos do seu corpo alto. A haste dos
óculos dele picou-me a face. Uma vez mais, ele vestia um casaco à anos 80; este era de
ganga, coberto de alfinetes com slogans: se beber não conduza, pratique atos de bondade
todos os dias, vote. Chocalhou quando voltou a sentar-se. Lyle devia ter menos uns dez
anos do que eu, pareceu-me, e não percebi se o estilo dele era intencionalmente irónicoretro
ou simplesmente apatetado.
Ele recomeçou a pedir desculpas, mas eu não queria ouvir nem mais uma palavra.
Estava farta, muito obrigada.
— Ouça, não estou a dizer que me convenceram de que o Ben é inocente ou que o meu
testemunho tem erros.
Ele abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas voltou a fechá-la.
— Mas, se por acaso eu decidisse analisar o processo com mais pormenor, o clube
ajudaria a pagar as minhas despesas? Poderia financiar o tempo que vou gastar?
— Uau, Libby, o simples facto de estar interessada em analisar o caso já é uma
excelente notícia — retorquiu Lyle. Eu detestava o tom daquele puto, como se ele não
percebesse que estava a falar com uma pessoa mais velha. Era o tipo de aluno que,
quando a aula chegava ao fim e os colegas todos estavam desejosos de sair da sala e o
professor perguntava «Alguém tem dúvidas?», respondia que sim, por acaso até tinha
algumas dúvidas para tirar.
— A questão é que todos temos teorias sobre o caso, mas a verdade é que a Libby
conseguiria abrir muito mais portas do que qualquer um de nós — disse Lyle, com a perna
a abanar debaixo da mesa. — As pessoas querem falar consigo.
— Está bem. — Apontei para o jarro de cerveja que estava ao lado de Lyle e ele serviume
um copo de plástico, mas era quase só espuma. Depois, para minha estupefação, levou
um dedo ao nariz para o cheirar e enfiou-o dentro do copo, alisou a espuma e deitou mais
cerveja por cima.
— Então. Que tipo de verba tinha em mente? — Entregou-me o copo e eu pousei-o à
minha frente, a hesitar se o bebia ou não.
— Acho que teria de ser discutida passo a passo — disse eu, fingindo que estava a
pensar naquilo pela primeira vez. — Dependendo da dificuldade que eu tivesse para
localizar cada pessoa e das perguntas que quisessem que eu fizesse.
— Bom, acho que lhe arranjaríamos uma longa lista de pessoas com quem falar. Não
tem mesmo nenhum contacto com o Runner? O Runner seria o primeiro nome na lista de
quase toda a gente.
O safado do Runner passado da cabeça. Ligou-me uma vez, nos últimos três anos, a
balbuciar coisas sem sentido ao telefone, a chorar um uiiiii entrecortado e a pedir-me para
lhe enviar dinheiro. Depois disso, nada. Antes, também não havia grande coisa. Ele aparecia
esporadicamente no julgamento de Ben, às vezes com uma velha gravata e um casaco,
mas a maior parte das vezes levava as roupas com que tinha dormido e ia tão bêbado que
não se aguentava direito. Os advogados de defesa de Ben acabaram por lhe pedir para não
aparecer mais, porque causava má impressão.
Agora, a impressão era ainda pior, com a malta toda do Kill Club a dizer que ele era o
assassino. Sei que esteve preso três vezes, antes dos crimes, mas por causa de tretas.
Verdade seja dita, o tipo sempre teve dívidas; Runner apostava em tudo e mais alguma
coisa: em jogos desportivos, corridas de cães, no bingo, no tempo. E tinha de pagar uma
pensão de alimentos à minha mãe. Matar-nos a todos era uma boa maneira de se livrar
dessa obrigação.
Mas eu não conseguia imaginar Runner a cometer os crimes sem ser apanhado, não
era suficientemente esperto para isso, nem ambicioso. Não conseguia sequer assumir o
papel de pai perante a única filha que sobrevivera. Aparecera de vez em quando em
Kinnakee, durante uns anos depois dos crimes, mas desaparecia durante meses a fio e,
nessas alturas, enviava-me caixas seladas com fita adesiva de sítios como Idaho ou
Alabama ou Winner, no Dacota do Sul. As caixas traziam estatuetas de meninas com uns
grandes olhos, a segurar num guarda-chuva ou num gatinho, que ele comprava em áreas
de serviço para camionistas e que me chegavam sempre partidas. Eu ficava a saber que
ele estava em Kinnakee, não porque me vinha visitar, mas porque acendia aquela lareira
fedorenta na cabana do monte. Diane cantarolava «Poor Judd is Dead» quando o via na
cidade, com a cara suja de fuligem. Havia qualquer coisa nele que inspirava dó e medo.
Provavelmente foi uma bênção ele ter preferido evitar-me. Quando voltou a viver
connosco, naquele último verão antes do fim, a única coisa que fez foi troçar de mim. A
princípio, era só gozo do estilo arranquei-te o nariz, mas depois tornou-se maldoso. Voltou
da pesca, uma vez, e marchou pela casa dentro com as suas grandes galochas e pôs-se a
bater com força na porta da casa de banho quando eu estava na banheira, para me chagar
a cabeça. Anda lá, abre, tenho uma surpresa para ti! Acabou por abrir a porta de
rompante, a tresandar a cerveja. Trazia qualquer coisa aninhada nos braços e, abrindo-os
de repente, atirou um peixe-gato vivo, com mais de meio metro de comprimento, para
dentro da água. Foi a gratuitidade do gesto que me assustou. Tentei sair a correr da
banheira, sentindo a pele viscosa do peixe a roçar na minha, com a sua boca de bigodes
aberta, pré-histórica. Se tivesse enfiado o pé naquela boca, o peixe teria trepado pela
minha perna acima, apertando-me como uma bota justa. Deixei-me cair borda fora e fiquei
a arquejar no tapete, com Runner a gritar comigo para eu parar de chorar como o raio
dum bebé. Não há um único dos meus filhos que não seja um idiota medricas.
Não nos pudemos lavar durante três dias, porque Runner estava demasiado cansado
para matar o bicho. Acho que herdei a preguiça dele.
— Nunca sei por onde o Runner anda. A última vez que tive notícias dele, estava num
lugar qualquer no Arkansas. Mas isso foi há um ano. Pelo menos.
— Bom, talvez não fosse má ideia localizá-lo. Algumas pessoas queriam mesmo que
falasse com ele. Embora eu não ache que o Runner seja o assassino — disse Lyle. — Pode
ser o suspeito mais provável, por causa das dívidas, o historial de violência...
— A loucura.
— A loucura. — Lyle sorriu com ar descarado. — Mas não me parece suficientemente
esperto para ter conseguido uma coisa daquelas. Sem ofensa.
— Não me ofende. Nesse caso, qual é a sua teoria?
— Ainda não estou pronto para a partilhar. — Deu um toque numa pilha de pastas que
estava ao lado dele. — Primeiro, vou deixá-la ler os factos pertinentes do processo.
— Oh, pelas alminhas — exclamei. E percebi, assim que os meus lábios se abriram
para dizer o A de alminhas, que era uma expressão da minha mãe. Pelas alminhas, toca a
andar, onde é que estão as minhas malditas chaves?
— Mas, se o Ben é mesmo inocente, porque é que não faz nada para ser libertado? —
perguntei. A minha voz tornou-se estridente no final da frase, uma lamúria de criança
mimada: Mas porque é que não posso comer sobremesa? Percebi que tinha a esperança
furtiva de que Ben fosse inocente, de que ele me fosse devolvido, o Ben que eu conhecia,
antes de ter medo dele. Permitira a mim própria acalentar uma fantasia perigosa: ele a
sair da prisão, a subir a rua a passos largos até minha casa, de mãos nos bolsos (outra
recordação que me voltou à mente assim que recomecei a pensar no caso: o Ben de mãos
sempre enterradas nos bolsos, sempre envergonhado.) O Ben sentado à minha mesa da
cozinha, se eu tivesse uma mesa de cozinha, feliz, clemente, sem rancor. Se ele fosse
inocente.
Se os ses e os mas fossem rebuçados e bombons, teríamos todos um Feliz Natal, ouvi
a Diane troar dentro da minha cabeça. Aquelas palavras tinham sido a cruz da minha
infância, um lembrete constante de que nada corria bem, não só a mim, mas a toda a
gente, e era por isso que alguém tinha inventado uma frase daquelas. Para que todos
soubéssemos que nunca teríamos aquilo de que precisávamos.
Porque — lembra-te, lembra-te, lembra-te, Bebé Day — Ben estava em casa naquela
noite. Quando saí da cama para ir ao quarto da minha mãe, vi a porta do quarto dele
fechada e a luz acesa. Ouvi murmúrios lá dentro. Ele estava no quarto.
— Podia ir falar com ele e perguntar-lhe, podia ser essa a sua primeira missão, ir ver o
Ben.
Ben na prisão. Eu passara os últimos vinte e poucos anos a recusar-me a imaginar a
prisão. Agora, via o meu irmão preso, atrás do arame farpado, atrás dos muros de
cimento, ao fundo de um corredor de lajes cinzentas, dentro de uma cela. Será que ele
tinha fotografias da família nalgum lado? Teria sequer autorização para isso? Tomei
novamente consciência de que não sabia nada sobre a vida de Ben. Nem sequer sabia qual
era o aspeto de uma cela, a não ser o que via nos filmes.
— Não, o Ben, não. Ainda não.
— É por uma questão de dinheiro? Nós pagávamos-lhe para isso.
— É por muitas questões — resmunguei.
— Okayyyy. Prefere falar com o Runner, então? Ou... o quê?
Ficámos sentados sem dizer nada. Nenhum de nós sabia o que fazer com as mãos;
não éramos capazes de olhar um para o outro. Em miúda, eu estava constantemente a ser
despachada para ir brincar para casa de outros miúdos. Os psiquiatras insistiam que eu
devia interagir com outras crianças. Foi isso que me fez lembrar o encontro com Lyle:
aqueles primeiros e horríveis dez minutos avulsos depois de os adultos se irem embora,
quando nenhum dos miúdos sabe o que o outro quer e ficam ali parados, perto da televisão
que foram proibidos de ver, a mexericarem na antena.
Depeniquei a taça de amendoins à borla, com casca, quebradiços e ocos como
carapaças de escaravelho. Deitei uns quantos na cerveja para lhes tirar o sal. Toquei-lhes
com o dedo. Flutuavam. O meu plano parecia incrivelmente infantil. Estava eu realmente
disposta a ir falar com pessoas que talvez tivessem assassinado a minha família? Ia eu
realmente tentar resolver o que quer que fosse? Podia eu acreditar de alguma maneira,
que não através de uma fantasia, que Ben era inocente? E se era inocente, não queria isso
dizer que eu era a maior sacana de todos os tempos? Tive aquela sensação avassaladora
que me invade sempre que estou prestes a desistir de um plano, uma torrente
esmagadora de ar quando percebo que o meu golpe de génio tem falhas e que eu não
tenho nem a inteligência nem a energia para as resolver.
  Não podia voltar para a cama e esquecer aquela história toda. Estava quase a chegar o
dia de pagar a renda e em breve ia precisar de dinheiro para comprar comida. Podia pedir
um subsídio à Segurança Social, mas para isso precisava de descobrir como é que se pedia
um subsídio à Segurança Social e provavelmente preferia morrer à fome a ter de lidar com
burocracias.
— Vou falar com o Ben — murmurei. — Devia começar por aí. Mas vou precisar de
trezentos dólares.
Disse isto a pensar que não ia conseguir nada, mas Lyle puxou de um velho portamoedas
de nylon, colado com fita adesiva, e contou trezentos dólares. Não parecia
descontente.
— Onde é que arranja tanto dinheiro, Lyle?
Ele corou um pouco e endireitou as costas.
— Sou tesoureiro do Kill Club, disponho de alguns fundos discricionários. Foi a este
projeto que decidi atribuí-los. — As orelhinhas de Lyle ficaram vermelhas como embriões
zangados.
— Anda a desviar fundos.
De repente, gostei um bocadinho mais dele.

PATTY DAY 2 DE JANEIRO DE 1985 9h42


O lavatório estava manchado de um roxo lamacento da tinta com que Ben pintara o
cabelo. Portanto, algures durante a noite, ele trancara-se na casa de banho, sentara-se na
tampa da sanita e lera as instruções da embalagem de tinta que ela encontrara no lixo. A
embalagem tinha uma fotografia de uma mulher de lábios ligeiramente rosados e cabelo
preto retinto, curtinho e com franja. Perguntou-se se ele a teria roubado. Não conseguia
imaginar Ben, Ben que andava sempre de queixo enterrado no peito, a pousar a embalagem
de tinta para o cabelo no balcão da caixa registadora. Por conseguinte, roubara-a. Depois, a
meio da noite, o seu filho, completamente sozinho, medira e misturara e aplicara. Sentarase
com aquela lama de produtos químicos no cabelo ruivo e esperara que fizesse efeito.
Só a ideia deixava-a inacreditavelmente triste. Que naquela casa de mulheres, o seu
menino tivesse pintado o cabelo de noite, sozinho. Obviamente que era ridículo pensar que
ele lhe teria pedido ajuda, mas fazer uma coisa daquelas sem um cúmplice parecia um ato
de uma solidão tão grande. A irmã mais velha de Patty, Diane, furara as orelhas de Patty
naquela mesma casa de banho, havia duas décadas. Patty aquecera um alfinete de ama
com um isqueiro barato e Diane cortara uma batata a meio e colara uma metade fria e
molhada à parte de trás da orelha de Patty. Congelaram o lóbulo com um cubo de gelo e
Diane — está quieta, está quieeeeta — espetara o alfinete na carne de Patty como se
fosse borracha. Porque é que precisavam da batata? Por uma questão de pontaria ou uma
coisa desse género. Patty acobardara-se depois da primeira orelha, deixara-se cair na
borda da banheira, com o pico do alfinete espetado na orelha. Diane, intensa e inexorável
numa enorme camisa de noite de lã, cercou-a brandindo um segundo alfinete quente.
— Daqui a nada já está, não podes furar só uma, P.
Diane, uma mulher de ação. Não se devia abandonar nenhuma tarefa a meio, nem por
causa do tempo, nem da preguiça, nem de uma orelha a latejar, gelo derretido e uma irmã
mais nova assustadiça.
Patty girou as suas pérolas de ouro. A esquerda não estava bem centrada, culpa sua
por se ter mexido à última hora. Apesar disso, ali estavam eles, os dois furos assinalando
o zelo adolescente, e ela fizera-os com a irmã, da mesma maneira que pusera batom pela
primeira vez ou prendera elásticos a pensos higiénicos do tamanho de uma fralda por volta
de 1965. Havia coisas que não se devia fazer sozinho.
Verteu detergente no lavatório e começou a esfregar, vendo a água transformar-se
numa tinta verde-escura. Diane devia estar quase a aparecer. Passava sempre lá por casa
a meio da manhã, se estivesse no carro, o que era a sua maneira de fingir que o trajeto
de quarenta e oito quilómetros fazia parte da sua rotina de tarefas diárias. Diane troçaria
desta mais recente saga de Ben. Quando Patty estava preocupada com a escola, os
professores, a quinta, Ben, o casamento, os miúdos, a quinta (depois de 1980, era sempre,
sempre, sempre a quinta), era por Diane que ela mais ansiava, como se fosse uma bebida
forte. Diane, sentada numa cadeira de jardim na garagem, a fumar cigarros uns atrás dos
outros, declararia que Patty era uma tola, dir-lhe-ia para não levar as coisas tão a sério.
As preocupações vêm ao nosso encontro sem as procurarmos. Para Diane, as
preocupações eram quase seres físicos, criaturas porosas com ganchos em vez de dedos,
destinadas a serem derrotadas de imediato. Diane não se preocupava, isso era coisa para
mulheres menos robustas.
      Mas Patty não conseguia levar as coisas de ânimo leve. Ben tornara-se tão distante
neste último ano, transformara-se num miúdo estranho e tenso, que se fechava no quarto
aos pulos ao som de uma música que abanava as paredes, as palavras vomitadas aos
gritos escapando por debaixo da porta. Palavras assustadoras. A princípio, não se dera ao
trabalho de as ouvir com atenção, a música em si era tão feia, tão frenética, mas um dia
chegara a casa cedo, quando Ben julgava que estava sozinho, postara-se do lado de fora da
porta dele e ouvira os berros:

Já não existo,
Estou feito,
O Diabo levou-me a alma,
Agora sou filho de Satanás.

O disco deu um salto e voltou novamente o cântico grosseiro: já não existo, estou
feito, o Diabo levou-me a alma, agora sou filho de Satanás.
E outra vez. E mais outra. E Patty percebeu que Ben estava parado junto do gira-discos,
a levantar a agulha e a tocar aquelas palavras vezes sem conta, como uma prece.
Precisava de Diane. Já. Diane, instalada no sofá como um urso amistoso numa das
suas três velhas camisas de flanela, a mascar uma série de pastilhas de nicotina, falaria
daquela vez em que Patty chegara a casa de vestido ultracurto e os pais ficaram
literalmente sem ar, como se ela fosse uma causa perdida. «E não eras, pois não? Não
passavas de uma miúda. Pois com o Ben é a mesma coisa.» E Diane estalaria os dedos
como se fosse a coisa mais simples do mundo.
As miúdas estavam à espera do lado de fora da porta da casa de banho e ali estariam
quando ela saísse, expectantes. Sabiam, pelos murmúrios e pelas limpezas de Patty, que
mais alguma coisa correra mal e estavam a decidir se aquela situação requeria lágrimas
ou recriminações. Quando Patty gritava, geralmente duas das filhas tinham um ataque de
raiva e, se alguém se metia em sarilhos, a casa inteira era varrida por um vendaval de
culpa. As mulheres Day eram a personificação da histeria em massa. E ali estavam elas
numa quinta cheia de forquilhas.
Passou as mãos por água, as mãos gretadas, vermelhas e calejadas, e olhou para a sua
imagem no espelho, certificando-se de que não tinha os olhos molhados. Tinha trinta e
dois anos, mas aparentava mais uns dez. Tinha a testa enrugada como um leque de papel
feito por uma criança e os olhos cheios de pés de galinha. O cabelo ruivo estava raiado de
fios grossos e brancos, e o seu corpo estava feio de tão magro, cheio de altos e pontas
espetadas, como se tivesse engolido uma prateleira inteira de ferramentas e afins:
martelos e bolas de naftalina e umas quantas garrafas antigas. Não era o tipo de corpo
que uma pessoa quisesse abraçar e, de facto, os seus próprios filhos nunca se aninhavam
nela. Michelle gostava de a pentear (com gestos impacientes e agressivos, como tudo o
que Michelle fazia) e Debby encostava-se a si, sempre que estavam ambas de pé (de uma
maneira desligada e distraída, como era costume em Debby). A coitada da Libby
raramente lhe tocava, a menos que se tivesse magoado muito, o que também fazia
sentido. O corpo de Patty estava tão gasto que, quando tinha vinte e poucos anos, até os
mamilos eram nodosos; deixara de amamentar Libby pouquíssimo tempo depois de ela
nascer.
Não havia armário de medicamentos na casa de banho exígua (o que é que ela ia fazer,
quando as miúdas entrassem para o liceu, só com uma casa de banho para quatro
mulheres, e onde estaria Ben? Teve um triste vislumbre dele num quarto qualquer de
motel, completamente sozinho, num caos pueril de toalhas sujas e leite derramado), por
isso guardava um pequeno amontoado de produtos de toilette no rebordo do lavatório. Ben
empurrara todos os frascos para um canto: desodorizante em spray e laca do cabelo, uma
embalagem minúscula de pó de talco que ela não se lembrava de ter comprado. Estavam
agora salpicados com a mesma tinta arroxeada que lhe sujara o lavatório. Limpou-os como
se fossem peças de porcelana. Patty não estava pronta para fazer mais uma visita à loja.
Fora de carro até Salina havia um mês, num estado de espírito positivo e alegre, para
comprar alguns produtos de beleza: amaciador, creme para a cara, batom. Guardara uma
nota de vinte dólares no bolso da frente só para a viagem. Um gasto exorbitante. Mas só a
quantidade de tipos de creme que existiam para o rosto — hidratante, antirrugas, protetor
solar — deixou-a perdida. Uma pessoa podia comprar um hidratante, mas depois tinha de
arranjar um desmaquilhante da mesma gama e uma coisa chamada loção tonificante e,
antes mesmo de chegar ao creme para a noite, já tinha gastado cinquenta dólares. Saíra
da loja de mãos a abanar, sentindo-se castigada e tola.
«Tens quatro filhos... ninguém está à espera que tenhas um ar fresco que nem uma
alface», fora o comentário de Diane.
Mas ela queria ter um ar fresco que nem uma alface de vez em quando. Há alguns
meses, Runner voltara para casa, caíra do céu com o rosto bronzeado e uns olhos azuis e
histórias de barcos de pesca no Alasca e do circuito de corridas na Florida. Ficara parado
no degrau da entrada, alto e magro, de jeans sujos, como se nada fosse depois de três
anos sem dar notícias nem enviar dinheiro aos filhos. Perguntara se podia ficar lá em casa
até arranjar um sítio onde morar; é claro que estava falido, embora tivesse dado uma
Coca-Cola quente e meio vazia a Debby como se fosse uma prenda extraordinária. Runner
jurou que consertaria o que houvesse para consertar na quinta e que manteria uma relação
platónica, se ela quisesse. Era verão, na altura, e ela deixou-o dormir no sofá, onde as
miúdas corriam para ele de manhã, dando com ele espojado e malcheiroso, de boxers
rasgados, com os tomates meio de fora.
Ele encantou as miúdas — tratava-as por Bonequinha e Cara de Anjo — e até Ben o
observava com toda a atenção, rondando-o como um tubarão. Runner não interagia
verdadeiramente com Ben, mas tentava brincar um pouco com ele, ser simpático. Incluía
Ben nas conversas tratando-o como um homem, o que era bom, dizia coisas do estilo
«Isso é trabalho de homem» e piscava o olho a Ben. Ao fim de três semanas, Runner
chegou de carrinha com um sofá-cama que arranjara e sugeriu instalar-se na garagem.
Pareceu-lhe boa ideia. Ajudava-a a lavar a louça e abria-lhe a porta para ela passar.
Deixava Patty apanhá-lo a olhar-lhe para o rabo e depois fingia ficar embaraçado. Uma
noite, deram um beijo com sabor a tabaco, quando ela lhe estava a dar lençóis lavados, e
ele atacou-a de imediato: enfiou as mãos dentro da camisa dela, encostou-a à parede,
puxou-lhe a cabeça para trás pelos cabelos. Ela afastou-o de si, disse-lhe que não estava
pronta, tentou sorrir. Ele amuou e abanou a cabeça, olhando-a de cima a baixo com os
lábios cerrados. Quando ela se despiu para se deitar, sentiu o cheiro a nicotina no sítio
onde ele a agarrara mesmo abaixo do peito.
Ele ficara mais um mês, olhando-a de esguelha, começando trabalhos e depois
deixando-os a meio. Quando ela lhe pediu para se ir embora, uma vez, ao pequeno-almoço,
ele chamou-lhe cabra, atirou-lhe com um copo, deixou marcas de sumo no teto. Quando
ele já estava longe, ela descobriu que ele lhe roubara sessenta dólares, duas garrafas de
álcool e uma caixa de joias que em breve ele descobriria estar vazia. Runner mudou-se
para uma cabana decrépita, a um quilómetro e meio de distância; da chaminé saía fumo a
toda a hora, a única forma de aquecimento. Por vezes, ouvia tiros ao longe, sons de balas
disparadas para o ar.
Esse seria o seu último romance com o homem que era pai dos seus quatro filhos. E,
agora, estava na hora de enfrentar mais uma vez a realidade. Patty puxou o cabelo, seco e
pesado, para trás das orelhas e abriu a porta. Michelle estava sentada no chão mesmo à
sua frente, a fingir que analisava as tábuas do soalho. Observou Patty por detrás de uns
óculos de lentes cinzentas.
— O Ben fez asneira? — perguntou ela. — Porque é que ele fez aquilo ao cabelo?
— Crise de adolescência, diria eu — respondeu Patty e, no instante em que Michelle
inspirou fundo (ela inspirava sempre fundo antes de dizer alguma coisa, as suas frases
eram associações rápidas e cerradas de palavras que jorravam em catadupa, até ela ter
de respirar outra vez), ouviram um carro a aproximar-se. O caminho de acesso à casa era
longo, um carro metia pelo carreiro e demorava um minuto a chegar à entrada. Patty
soube, de alguma forma, que não era a irmã, apesar de as miúdas já estarem aos gritos
Diane! Diane!, correndo para a janela para espreitarem. Haveria suspiros tristes quando
percebessem que afinal não era Diane. Não sabia explicar porquê, mas tinha a certeza de
que era Len, o agente de cobranças. Até a maneira como conduzia tinha um som
possessivo. Len, o Credor Sanguessuga. Ela debatia-se com ele desde 1981. Runner já os
tinha abandonado nessa altura, anunciando que aquele tipo de vida não era para ele,
olhando em volta como se aquela casa fosse dele e não dela, a casa dos pais dela, dos
avós dela.
A única coisa que ele fizera fora casar-se com ela e arruinar a casa. Pobre e desiludido
Runner, com os seus sonhos tão altos nos anos 70, quando as pessoas pensavam que
podiam enriquecer a gerir uma quinta. (Ha!, riu-se ela, com desprezo, ali na cozinha, só de
pensar nisso, imaginem só.) Ela e Runner tinham tomado conta da quinta em 1974,
sucedendo aos pais dela. Foi um passo enorme, maior ainda do que o casamento ou o
nascimento do primeiro filho. Nenhuma dessas ocasiões entusiasmara os seus doces e
discretos pais. Runner cheirava a esturro já naquela época, mas, Deus os abençoe, os
coitados nunca disseram mal dele. Quando, aos dezassete anos, ela lhes anunciou que
estava grávida e que se iam casar, eles limitaram-se a responder: Oh. Assim, só isso. O
que dizia tudo.
Patty tinha uma fotografia desfocada do dia em que assumiram as rédeas da quinta:
os pais dela, hirtos e orgulhosos, sorrindo timidamente para a objetiva, e ela e Runner,
com sorrisos triunfais, cabeleiras luxuriantes, incrivelmente jovens, bebendo champanhe.
Os pais nunca tinham provado champanhe, mas foram de carro à povoação comprar uma
garrafa de propósito. Fizeram o brinde em velhos frascos de compota.
As coisas deram rapidamente para o torto e Patty não pôde culpar Runner
inteiramente. Naquela altura, toda a gente achava que o valor da terra continuaria a subir
em flecha — não vão inventar mais terras! — e porque não comprar mais, e melhor,
continuamente? Cultivem de uma ponta à outra, era este o grito de ordem. Sejam
agressivos, sejam ousados. Runner, com os seus sonhos ambiciosos e sem experiência
nenhuma, levara-a ao banco — pusera uma gravata cor de sorvete de lima, grossa como
uma colcha — e exclamara e gaguejara para conseguir um empréstimo. Acabaram por lhes
dar o dobro do que tinham pedido. Não deviam ter aceitado, quiçá, mas o credor disse para
não se preocuparem, eram tempos prósperos.
Estão a dar tudo de mão beijada!, gritara Runner e, de repente, tinham um trator novo
e uma máquina para revolver a terra de seis filas quando a de quatro chegava à vontade.
No espaço de um ano, comprara um Krause Dominator vermelho reluzente e uma máquina
combinada de colheita John Deere. Vern Evelee, com os seus respeitáveis duzentos
hectares ao fundo da estrada, fazia questão de mencionar todas as coisas novas que
avistava na propriedade deles, sempre com um ligeiro tremor na sobrancelha. Runner
comprou mais terras e um barco de pesca e, quando Patty perguntara tens a certeza, tens
mesmo a certeza?, ele amuara e rosnara que ficava magoado por ela não confiar nele.
Depois, tudo descambou de repente, como se fosse uma piada de mau gosto. Carter e o
embargo à venda de cereais aos russos (combatam os comunistas, esqueçam os
agricultores), taxas de juro a dezoito por cento, o preço do combustível a aumentar e
depois a disparar em flecha, bancos a abrir falência, países de que ela quase nunca ouvira
falar — a Argentina — de repente a fazerem concorrência nos mercados. A fazerem-lhe
concorrência a ela, na sua terrinha de Kinnakee, Kansas. Uns quantos anos maus e foi o
fim de Runner. Nunca se recompôs do efeito Carter, falava de Carter a toda a hora, sem
parar. Sentava-se a beber uma cerveja, a ver as más notícias na televisão e, assim que
via aqueles dentes grandes de coelho, os olhos dele ficavam vítreos e enchia-se de tal
maneira de ódio que parecia que até conhecia Carter pessoalmente.
Por isso, Runner culpava Carter e o resto da maldita povoação em peso culpava-a a
ela. Vern Evelee estalava a língua sempre que a via, como que dizendo «devias ter
vergonha». Os agricultores que não estavam a afundar nunca tinham compaixão pelos
outros, olhavam para eles como se tivessem andado a brincar nus na neve e depois
quisessem limpar o ranho na roupa deles. No verão passado, a semeadora de um agricultor
qualquer da zona de Ark City enlouquecera e despejara duas toneladas de trigo em cima
dele. O tipo, de um metro e noventa de altura, afogara-se nos cereais. Sufocara antes que
o conseguissem tirar de lá, é como engasgar-se com areia. Toda a gente em Kinnakee
ficou muito pesarosa, cheia de pena por causa daquele acidente aberrante... até
descobrirem que a quinta do homem estava a ir à falência. De repente, a conversa mudou
para comentários do estilo Oh, ele devia ter tido mais cuidado e desataram a fazer
sermões sobre segurança e como é que se trata do equipamento. Viraram-se logo contra
ele, contra aquele pobre coitado que morreu com os pulmões cheios da sua própria
colheita.
Ding-dong e ali estava Len, como ela temia, entregando o seu boné de lã a Michelle, o
sobretudo grosso a Debby e limpando cuidadosamente a neve dos sapatos demasiado
novos e brilhantes. Ben não aprovaria uns sapatos daqueles, pensou ela. Ben passava horas
a sujar os ténis novos, deixava as irmãs revezarem-se a pisá-los, na época em que ainda
deixava as miúdas aproximarem-se. Libby, no sofá, lançou um olhar carrancudo a Len e
depois virou-se novamente para a televisão. Libby adorava Diane e este tipo não era Diane,
este tipo enganara-a ao entrar pela porta dentro quando devia ter sido Diane a fazê-lo.
Len nunca dizia olá como cumprimento; dizia qualquer coisa que parecia um o-la-ré à
tirolesa e, de todas as vezes, Patty tinha de se preparar mentalmente para o ouvir, porque
achava o som completamente ridículo. Ele gritou o seu olaré, enquanto ela atravessava o
corredor, e Patty teve de se esconder na casa de banho para soltar uma praga e voltar a
pôr um sorriso na cara. Len abraçava-a sempre, o que ela tinha a certeza de que ele não
fazia com os outros agricultores que precisavam dos seus serviços. Por isso, foi ao
encontro dos braços abertos dele e deixou-o abraçá-la como fazia sempre, um nadinha de
tempo a mais, com as mãos nos cotovelos dela. Sentiu-o fazer um barulhinho com a boca
como se estivesse a cheirá-la. O homem fedia a salsichas e pastilhas de mentol. Um dia,
Len ia atirar-se efetivamente a ela, obrigando-a a tomar uma decisão a sério, e o jogo era
tão patético que lhe dava vontade de chorar. O caçador e a presa, mas era uma espécie
de mau programa sobre a vida selvagem: ele era um coiote pequeno e só com três patas
e ela era um coelhinho cansado e coxo. Não havia nada de magnificente naquilo.
— Como vai a minha menina agricultora? — disse ele. Havia a ideia implícita entre eles
de que ela gerir a quinta sozinha era uma piada. E naquela altura, pensou ela, até era.
— Oh, vai-se andando — respondeu. Debby e Michelle foram para o quarto. Libby
resfolegou no sofá. Da última vez que Len se dera ao trabalho de ir lá a casa, fizeram um
leilão umas semanas depois: os Day a espreitarem pelas janelas, a verem os vizinhos
darem cada vez menos pelo equipamento de que Patty necessitava para gerir uma
exploração agrícola. Michelle e Debby tinham ficado de rastos ao verem algumas das
colegas, as miúdas Boyler, a reboque dos pais como se aquilo fosse um piquenique, aos
pulos pela quinta. Porque é que não podemos ir lá para fora?, lamuriaram-se, contorcendose
em posturas iradas de súplica, vendo as miúdas Boyler a brincarem à vez no baloiço
delas; mais valia ter-lhes vendido o baloiço também. Patty teimara: Aquelas pessoas que
estão lá fora não são nossas amigas. As pessoas que lhe enviavam postais de Natal
estavam a passar as mãos pelas brocas e extirpadores dela, todas aquelas formas curvas
e retorcidas, oferecendo mesquinhamente metade do seu valor. Vern Evelee levou a
máquina para revolver a terra que em tempos pareceu suscitar nele tanto ressentimento,
conseguindo arrebatá-la por menos do que o preço de licitação. Impiedoso. Cruzou-se com
Vern uma semana depois, na loja de rações. Ele ficou com a nuca vermelha quando lhe
virou costas. Ela foi atrás dele e fez o barulho «devia ter vergonha» mesmo no ouvido
dele.
— Cheira bem aqui — comentou Len, num tom que quase parecia ressentido. — Pelos
vistos, o pequeno-almoço foi bom.
— Panquecas.
Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. Por favor, não me obrigues a
perguntar o que te trouxe aqui. Por favor, por uma vez na vida, diz porque é que vieste.
— Importa-se que me sente? — perguntou ele, encaixando-se no sofá ao lado de Libby,
de braços hirtos. — Esta qual delas é? — disse, tirando-lhe as medidas. Len vira as filhas
dela pelo menos uma dúzia de vezes, mas nunca sabia quem era quem e nem se arriscava
a lançar um nome ao calhas. Uma vez, chamara Susan a Michelle.
— Essa é a Libby.
— Tem o cabelo ruivo como a mãe.
Pois tinha. Patty não conseguiu dizer uma frase simpática em voz alta. Quanto mais
Len empatava, mais ela se sentia enjoada, com o constrangimento a transformar-se em
pavor. Já estava com as costas da camisola molhadas.
— O ruivo é de origem irlandesa? Vocês são irlandeses?
— Alemães. O meu nome de solteira é Krause.
— Ah, tem piada. Porque Krause significa cabelo encaracolado e não ruivo. Vocês não
têm o cabelo encaracolado. Ondulado, talvez. Também sou de origem alemã.
Já tinham tido esta conversa antes e acabava sempre de uma de duas maneiras. A
outra era: Len dizia que tinha piada o facto de o nome dela de solteira ser Krause, como o
equipamento agrícola, e que pena ela não ser da família dessa empresa. Qualquer uma das
duas versões deixava-a tensa.
— Então — cedeu ela, por fim. — Passa-se alguma coisa de errado?
Len pareceu desiludido por ela ter ido direta ao assunto. Franziu a testa como se
achasse que estava a ser indelicada.
— Bom, já que fala nisso, sim. Infelizmente, passa-se algo de muito errado. Fiz
questão de cá vir dar-lhe a notícia pessoalmente. Prefere falar num sítio mais privado? —
Apontou para Libby, arregalando os olhos. — Não prefere ir para o quarto? — Len tinha
barriga, uma barriga absolutamente redonda por baixo do cinto, como o despontar de uma
gravidez. Ela não queria ir para o quarto com ele.
— Libby, importas-te de ir ver o que as tuas irmãs estão a fazer? Preciso de falar com
o senhor Werner. — Libby suspirou e escorregou para fora do sofá, lentamente: primeiro
os pés, depois as pernas, depois o rabo e no fim as costas, como se fosse feita de cola.
Caiu no chão, rebolou umas quantas vezes, rastejou um pouco e finalmente pôs-se de pé e
arrastou-se pelo corredor fora.
Patty e Len olharam um para o outro e, a seguir, ele pôs o lábio inferior para fora e fez
que sim com a cabeça.
— Vão executar a hipoteca.
Patty sentiu o estômago contrair-se. Não se rebaixaria à frente daquele homem. Não
choraria.
— O que é que nós podemos fazer?
— Infelizmente, nóóóós ficámos sem alternativa. Consegui aguentá-los seis meses
para lá do prazo normal. Pus o meu emprego em risco. Menina agricultora. — Sorriu-lhe, de
mãos entrelaçadas nos joelhos. Ela teve vontade de o arranhar. Os colchões começaram a
ranger num dos quartos e Patty percebeu que Debby estava aos pulos em cima da cama, o
jogo preferido dela, pular de uma cama para a outra no quarto das meninas.
— Patty, a única maneira de resolver isto é com dinheiro. Já. Se não quer perder a
quinta. Estou a falar de pedir emprestado, suplicar, roubar. Estou a dizer que chegou a hora
de engolir o orgulho. Portanto: até que ponto é que quer manter a quinta? — As molas dos colchões 
rangeram ainda mais alto. O estômago de Patty deu uma volta. Len não parava
de sorrir.

LIBBY DAY TEMPO PRESENTE


     Quando eu era pequena, vivi com uma prima em segundo grau de Runner, em Holcomb, Kansas, durante cerca de cinco meses, enquanto a coitada da tia Diane recuperava do meu décimo segundo ano de vida particularmente agressivo. Lembro-me pouco desses cinco meses, exceto o facto de termos feito uma excursão escolar a Dodge City para aprender coisas sobre Wyatt Earp. Pensámos que íamos ver armas, búfalos, prostitutas. Em vez disso, a nossa turma de vinte alunos desfilou aos empurrões e cotoveladas por uma série de salas, a ver arquivos, um dia inteiro entre pó e queixumes.      A figura de Earp não me impressionou minimamente, mas adorei os vilões do Faroeste, com os seus bigodes revirados e roupas desleixadas e olhos reluzentes como níquel. Um fora da lei era sempre descrito como «mentiroso e ladrão». E ali, numa daquelas salas malcheirosas, enquanto o arquivista arengava sobre a arte de arquivar, toda eu vibrei com a alegria de encontrar um viajante, porque pensei: «É como eu.»
Sou uma mentirosa e uma ladra. Não me deixem entrar em vossa casa e, se o
fizerem, não me deixem sozinha. Eu roubo coisas. Poderão apanhar-me com a vossa fiada
de pérolas a tilintar entre as minhas pequenas garras gananciosas e dir-vos-ei que me
lembraram as pérolas da minha mãe e que senti o impulso de lhe tocar, nem que fosse
um segundo, e que lamento muito, não sei o que me passou pela cabeça.
A minha mãe nunca usou uma joia que não lhe deixasse a pele verde, mas vocês não
saberão disso. E eu surripiar-vos-ei as pérolas na mesma, quando estiverem distraídos.
Roubo cuecas, anéis, CD, livros, sapatos, iPods, relógios. Vou a uma festa em casa de
alguém — não tenho amigos, mas tenho pessoas que me convidam para ir aqui e ali — e
venho-me embora com umas quantas camisas vestidas por dentro da camisola, um par de
batons giros no bolso e todo o dinheiro vivo que encontrar dentro de uma carteira ou duas.
Às vezes, até a carteira trago, se o grupo estiver bem bebido. Enfio-a ao ombro e venhome
embora. Comprimidos com receita médica, perfumes, botões, canetas. Comida. Tenho
uma garrafa que o avô de não sei quem trouxe da Segunda Guerra Mundial e possuo um
alfinete da Phi Beta Kappa ganho pelo tio predileto de um tipo qualquer. Tenho uma caneca
de lata retráctil antiga que não me lembro de ter roubado, porque já está nas minhas
mãos há tanto tempo. Finjo que é um objeto antigo da família.
As coisas que de facto pertenciam à minha família, as caixas que estão debaixo das
escadas, não consigo olhar para elas. Prefiro as coisas dos outros. Vêm com as histórias
dos outros e não a minha.
Um objeto em minha casa que não roubei é um policial baseado em factos reais
intitulado A Colheita do Diabo: O Sacrifício Satânico de Kinnakee Kansas. Saiu em 1986 e
foi escrito por uma antiga jornalista chamada Barb Eichel e é tudo o que sei. Pelo menos
três seminamorados ofereceram-me um exemplar deste livro, solenemente, sabiamente, e
todos eles levaram um pontapé no rabo logo a seguir. Se eu digo que não quero ler o livro,
não quero ler o livro. É como a minha regra sobre dormir com as luzes acesas. Digo a
todos os homens que durmo sempre com as luzes acesas e eles dizem qualquer coisa do
estilo: «Eu tomo conta de ti, querida» e depois tentam desligar as luzes. Como se as
coisas fossem assim. Não sei porquê, mas parecem surpreendidos por eu dormir mesmo com as luzes acesas.
        Tirei A Colheita do Diabo de uma pilha inclinada de livros que estava a um canto;
guardo-o pelo mesmo motivo que guardo as caixas com as papeladas e porcarias da minha
família, porque talvez um dia o queira, e mesmo que não queira, não quero que mais ninguém fique com ele.
Na primeira página lê-se:
    Kinnakee Kansas, no coração da América, é uma pacata comunidade agrícola onde
todas as pessoas se conhecem, vão à igreja juntas e envelhecem juntas. Mas não é
imune aos males do mundo exterior e, na madrugada de 3 de janeiro de 1985, esses
males destruíram três membros da família Day, numa catadupa de sangue e horror.
Esta é uma história não só sobre um crime, mas também sobre a adoração do Diabo,
rituais sangrentos e a propagação do Satanismo a todos os cantos da América,
inclusive aos lugares mais acolhedores e aparentemente mais seguros.

Os meus ouvidos desataram a zumbir, reproduzindo os sons daquela noite: um gemido
masculino e forte, e um pranto arquejante, de garganta seca. Os gritos de fada da morte
da minha mãe. Lugar Escuro. Olhei para a fotografia de Barb Eichel na contracapa. Tinha o
cabelo curto e espetado, brincos compridos e um sorriso soturno. A biografia dizia que
vivia em Topeka, Kansas, mas isso foi há cerca de vinte anos.
Precisava de telefonar a Lyle Wirth para lhe apresentar a minha proposta de
informações em troca de dinheiro, mas não estava preparada para o ouvir pregar-me
novamente um sermão sobre o assassínio da minha própria família. (Está mesmo
convencida de que o Ben é culpado!) Precisava de conseguir argumentar com ele em vez
de ficar ali sentada como uma ignorante, sem nada de interessante para dizer. O que era
basicamente o que eu estava a fazer.
Folheei o livro mais um pouco, deitada de barriga para cima, encostada a uma
almofada dobrada ao meio, com Buck a vigiar-me com olhos atentos de gato à coca de
algum movimento meu em direção à cozinha. Barb Eichel descrevia Ben como «um
solitário vestido de preto, pouco popular e irado» e «obcecado com a forma mais brutal de
heavy metal — chamada black metal —, canções que os rumores diziam ser
chamamentos em código destinados ao próprio Diabo». Saltei as páginas, claro está, até
encontrar uma referência a mim: «angelical, mas forte», «determinada e melancólica»
com um «ar de independência que normalmente não se vê sequer em crianças com o
dobro da idade dela». A nossa família tinha sido «feliz e buliçosa, desejosa de um futuro
de ar puro e vida sã». Pois, está-se mesmo a ver. Ainda assim, este era supostamente o
livro supremo sobre os crimes e, depois de todas aquelas vozes do Kill Club a chamaremme
tola, eu estava louca para falar com um desconhecido que também acreditasse na
culpa de Ben. Munições contra Lyle. Imaginei-me a enumerar os factos pelos dedos: isto,
isto e isto prova que vocês, seus estúpidos, estão enganados, e Lyle a descerrar os lábios,
compreendendo que afinal eu tinha razão.
Mas eu continuava disposta a ficar com o dinheiro dele, se ele quisesse.
Sem saber por onde começar, liguei para a lista telefónica de Topeka e saiu-me a sorte
grande: arranjei o número de telefone de Barb Eichel. Ainda vivia em Topeka, ainda vinha
na lista telefónica. Foi canja.
Ela atendeu ao segundo toque, com uma voz alegre e estridente, até eu lhe dizer quem
era.
— Oh, Libby. Andava há anos a pensar se algum dia me contactaria — disse ela, depois
de fazer um som gutural do estilo eehhhh. — Ou se deveria contactá-la eu. Não sabia o
que fazer... — Imaginei-a a olhar em redor da sala, a mexericar nas unhas, assustadiça,
uma daquelas mulheres que analisava a ementa durante vinte minutos e ainda assim
entrava em pânico quando o empregado vinha à mesa.
— Estava com esperança de falar consigo sobre... o Ben — comecei, sem saber muito
bem que palavras usar.
— Eu sei, eu sei, já escrevi várias cartas ao Ben ao longo dos anos a pedir desculpa,
Libby. Não sei quantas vezes terei de dizer que me arrependo de ter escrito aquele maldito
livro.
Desta é que eu não estava à espera.
Barb Eichel convidou-me para almoçar em casa dela. Queria explicar-me as coisas
pessoalmente. Já não conduzia (aqui, captei um vislumbre da verdadeira história:
medicamentos, ela tinha aquela pátina brilhante de alguém que toma demasiados
medicamentos), por isso iria eu ter com ela e ela agradecia muito o gesto. Felizmente,
Topeka não fica longe de Kansas City. Não é que eu tivesse vontade de lá ir, já vira o
suficiente de Topeka quando era miúda. A cidade costumava ter uma clínica psiquiátrica
dos diabos; a sério, até havia um painel na autoestrada a dizer qualquer coisa do estilo:
«Bem-vindos a Topeka, a capital psiquiátrica do mundo!» A povoação inteira estava à
cunha de loucos e terapeutas, e levavam-me lá regularmente para eu ter consultas
externas, convencendo-me de que era um privilégio raro. Que bom para mim. Falávamos
sobre os meus pesadelos, os meus ataques de pânico, as minhas crises de raiva. Quando
entrei na adolescência, falávamos sobre a minha propensão para a violência física. No que
me toca, a cidade toda, a capital do Kansas, cheira a baba de manicómio.
Li o livro de Barb antes de ir ter com ela, ia munida de factos e perguntas, mas a
minha confiança esmoreceu durante as três horas que demorei a fazer a viagem, que só
devia ter levado sessenta minutos. Demasiadas viragens na direção errada, comigo a
praguejar por não ter Internet em casa e não poder simplesmente descarregar as
indicações sobre o trajeto. Nem Internet, nem televisão por cabo. Não tenho jeito para
essas coisas: cortes de cabelo, mudanças de óleo, idas ao dentista. Quando me mudei
para a minha casa, passei os primeiros três meses enrolada em cobertores, porque não
conseguia arranjar coragem para tratar da ligação do gás. Já mo desligaram três vezes
nos últimos anos, porque às vezes não tenho ânimo para passar um cheque. Tenho
dificuldade em manter seja o que for.
A casa de Barb, quando finalmente lá cheguei, era desinteressantemente caseira, um
bloco de estuque que ela pintara de verde-claro. Balsâmica. Com montes de espantaespíritos.
Ela abriu a porta e recuou, como se eu lhe tivesse pregado um susto. Ainda tinha
o cabelo curto e espetado como na fotografia do livro, mas agora estava grisalho, e usava
uns óculos com uma corrente de missangas, daquelas que as mulheres mais velhas
definem como «excêntricas». Já tinha passado a barreira dos cinquenta e os seus olhos
eram escuros e fugidios, protuberantes no rosto magro.
— Ohhh, olá, Libby! — exclamou e, de repente, abraçou-me e senti um osso qualquer
dela a espetar-me com força no peito esquerdo. Ela cheirava a patchuli e lã. — Entre,
entre. — Um cãozinho peludo apareceu a trotar pela tijoleira fora, a ladrar alegremente.
Um relógio deu as horas.
— Oh, espero que não desgoste de cães, ele é meiguinho — disse ela, observando-o
enquanto ele saltava para cima de mim. Odeio cães, mesmo cães pequenos e meigos.
Levantei os braços, mostrando que não tencionava fazer-lhe festinhas. — Anda, Weenie,
deixa a nossa amiga passar — disse ela, como se falasse com um bebé. Detestei o cão
ainda mais, depois de saber que se chamava Weenie.
Ela mandou-me sentar numa sala que parecia atulhada: cadeiras, sofá, tapete,
almofadas, cortinas, tudo era espesso e arredondado e coberto com camadas e camadas
de tecido. Ela andou dentro e fora da sala durante uns minutos, a falar por cima do ombro
em vez de ficar quieta, perguntando-me duas vezes o que queria beber. Não sei como,
mas sabia que ela ia tentar dar-me canecas de barro de chá de raiz de frutos silvestres
ou um batido de Elixir de Jasmim, com cheiro a terra e reluzente, por isso limitei-me a
pedir água. Procurei garrafas de bebidas alcoólicas, mas não vi nenhuma. Mas não tinha
dúvidas de que naquela casa se tomavam medicamentos em barda. Tudo fazia ricochete
naquela mulher — ping, pang! — como se ela fosse envernizada.
Trouxe dois tabuleiros com sanduíches para comermos na sala. A minha água era só
cubos de gelo. Em dois goles, bebi-a toda.
— Então, como vai o Ben, Libby? — perguntou, quando finalmente se sentou. Deixou,
porém, o tabuleiro de lado. Para fugir rapidamente, se fosse caso disso.
— Oh, não sei. Não tenho contacto nenhum com ele.
Ela pareceu não ouvir; estava sintonizada na sua própria estação de rádio interna. Uma
estação qualquer de jazz ligeiro.
— Como é óbvio, Libby, sinto uma culpa enorme nisto tudo, embora o livro tenha saído
depois do veredito e não tenha tido qualquer peso nele — disse ela abruptamente. — Ainda
assim, fiz parte das pessoas que se precipitaram a julgar. Foi da época em que vivíamos.
A Libby era muito novinha, sei que não se lembra disto, mas estávamos nos anos 80.
Chamava-se-lhe o Pânico Satânico.
— Chamava-se o Pânico Satânico a quê? — Perguntei-me quantas vezes é que ela iria
usar o meu nome ao longo da conversa. Parecia-me esse tipo de pessoa.
— Toda a comunidade psiquiátrica, a polícia, as autoridades, o pessoal todo... naquela
época, achavam que toda a gente era um adorador do diabo. Estava... estava na moda. —
Inclinou-se para mim, com os brincos a balouçar, apertando as mãos uma na outra. — As
pessoas estavam mesmo convencidas de que havia uma extensa rede de satanistas, que
era uma coisa corriqueira. Se um adolescente começava a comportar-se de maneira
estranha, dizia-se logo que era um adorador de Satanás. Um miúdo da pré-primária vinha
para casa da escola com uma nódoa negra esquisita ou com um comentário estranho
sobre as suas partes privadas e dizia-se logo que as professoras eram adoradoras de
Satanás. Lembra-se do julgamento da escola pré-primária McMartin? Os coitados daqueles
professores sofreram durante anos até que fossem retiradas as queixas. Pânico satânico.
Era uma boa história e eu caí que nem um patinho, Libby. Não questionámos o suficiente.
O cão farejou-me e eu fiquei hirta, esperando que Barb o chamasse. Mas ela não
reparou, com os olhos postos num girassol pendurado que estava a lançar uma luz dourada
no vitral da janela por cima de mim.
— E a verdade é que a história funcionou — continuou Barb. — Admito-o hoje, e
demorei uma boa década a fazê-lo, Libby, que ignorei uma série de provas que não
encaixavam na teoria do Ben-Satanás, ignorei sinais óbvios.
— Tais como?
— Hum, tais como o facto de que você foi claramente industriada, que você não era,
de forma alguma, uma testemunha credível, que o psiquiatra que foi nomeado para a
«fazer exprimir-se», e estou a citar, se limitou a pôr palavras na sua cabeça.
— O doutor Brooner? — Lembrava-me do doutor Brooner: um tipo hippie barbudo com
um grande nariz e uns olhos pequeninos. Parecia um animal amistoso de um livro de
contos. Nesse ano inteiro, e tirando a minha tia Diane, ele foi a única pessoa de quem eu
gostei e a única pessoa a quem falei daquela noite, uma vez que Diane não queria. O
doutor Brooner.
— Um charlatão — disse Barb, e soltou uma gargalhada. Preparei-me para protestar,
sentindo-me na defensiva (a mulher tinha-me basicamente chamado mentirosa na minha
cara, o que era verdade, mas ainda assim irritou-me), mas ela recomeçou. — E o álibi do
seu pai? A tal namorada dele? Isso nunca devia ter aguentado em tribunal. Aquele homem
não tinha um verdadeiro álibi e devia muito dinheiro a muita gente.
— A minha mãe não tinha dinheiro.
— Tinha mais do que o seu pai, acredite que tinha. — Acreditei. Uma vez, o meu pai
mandou-me a casa de um vizinho para que me dessem o almoço, por compaixão, e
mandou-me espreitar para debaixo das almofadas do sofá e dar-lhe os trocos que
encontrasse.
— E foi encontrada uma pegada de um sapato de cerimónia de homem no sangue, que
nunca ninguém identificou de quem era. O local do crime estava contaminado, esse foi
mais um pormenor que ignorei no livro. Houve gente a entrar e a sair da casa o dia inteiro.
A sua tia entrou e levou montes de tralha que estava nos armários, roupas e coisas para
si. Isso foi contra as regras da polícia, mas ninguém se importou. As pessoas estavam
em pânico. E ali tinham um adolescente esquisito de quem ninguém na terra inteira
gostava por aí além, sem dinheiro, que não sabia defender-se e que por acaso gostava de
heavy metal. É embaraçoso. — Ela conteve-se. — Um horror. Uma tragédia.
— Há alguma coisa que possa fazer com que o Ben seja libertado? — perguntei, com o
estômago às voltas como uma enguia. O facto de a pessoa que mais veementemente se
pronunciara contra Ben ter mudado de ideias estava a deixar-me nauseada. Bem como
aquele encontro com mais uma pessoa que tinha a certeza de que eu cometera perjúrio.
— Bom, a Libby está a tentar fazê-lo, não está? Parece-me quase impossível desfazer
estas coisas depois de tantos anos... o período em que ele podia interpor recurso já
terminou. Ele teria de pedir habeas corpus e... seria necessário apresentar uma prova nova
de peso para conseguir pôr o processo em marcha nesta altura do campeonato. Qualquer
coisa tipo uma prova de ADN muito convincente. Infelizmente, a sua família foi cremada,
por isso...
— Pois, está certo, obrigada — interrompi, a precisar de ir para casa naquele preciso
instante.
— Volto a dizer que escrevi o livro depois do veredito, mas, se eu puder fazer alguma
coisa para a ajudar, diga-me, Libby. Tenho algumas culpas no cartório e assumo a
responsabilidade.
— Fez algum depoimento, disse à polícia que acha que o Ben afinal não é culpado?
— Bom, não. Parece que a maior parte das pessoas já concluiu há muito tempo que o
Ben não é culpado — respondeu Barb, com a voz a ficar estridente. — Depreendo que a
Libby abjurou oficialmente o seu testemunho? Penso que isso seria uma ajuda enorme.
Ela estava à espera que eu dissesse mais qualquer coisa, que explicasse porque é que
tinha vindo falar com ela agora. Para lhe dizer que sim, claro, Ben era inocente e eu ia
resolver aquela história toda. Ficou sentada a olhar para mim, a comer o almoço, a
mastigar cada pedaço de sanduíche com cuidado excessivo. Depeniquei a minha sanduíche
— pepino e hummus — e pousei-a, deixando uma dedada no pão húmido. A sala estava
forrada de estantes, mas continham apenas livros de autoajuda. Abra-se à Felicidade!;
Força, Mulher; Pare de se Recriminar; Queixo Erguido: Assuma-se; Seja o seu Melhor
Amigo, Avance, Suba na Vida! Era uma sucessão interminável de títulos alegres,
implacáveis, animadores. Quanto mais eu os lia, mais infeliz me sentia. Remédios herbais,
pensamento positivo, autoperdoar-se, viver com os erros cometidos. Até um livro para
vencer a indolência ela tinha. Não confio em adeptos da autoajuda. Há anos, saí de um bar
com um amigo de um amigo, um tipo normal, simpático, giro, com o cabelo cortado à
escovinha, que vivia num apartamento ali perto. Depois de termos tido relações sexuais,
depois de ele ter adormecido, comecei a bisbilhotar o quarto dele e descobri que a
secretária estava coberta de bilhetes autocolantes:

Não te chateies por causa de pequenas coisas; são só pequenas coisas.
Se parássemos de tentar a todo o custo ser felizes, divertir-nos-íamos bastante.
Goza a vida: ninguém sai daqui vivo.
Não te preocupes, sê feliz.

     Achei toda aquela esperança urgente mais assustadora do que se tivesse encontrado
uma pilha de crânios com cabelo ainda agarrado ao osso. Fugi a sete pés, tomada pelo
pânico, com a roupa interior enfiada na manga.
Não fiquei muito mais tempo em casa de Barb. Fui-me embora com a promessa de lhe telefonar em breve e com um pisa -papéis azul em forma de coração que roubei da mesinha de apoio dela.

BEN DAY 2 DE JANEIRO DE 1985 9h13


   Ben estava a derrapar no gelo, as rodas da bicicleta a vibrarem. O caminho era para
motocross, e para o verão, e tinha gelado, por isso era uma estupidez andar ali de
bicicleta. E mais estúpido ainda o que ele estava a fazer: a pedalar o mais depressa
possível em terreno acidentado, com hastes partidas de milho de ambos os lados e ele a
tentar arrancar a porcaria do autocolante que uma das irmãs tinha colado por cima do
velocímetro. Estava lá há semanas, a aparecer e a desaparecer da sua vista, a irritá-lo,
mas não o suficiente para ele ter tratado do assunto. Apostava que tinha sido Debby quem
o lá pusera, de olhos mansos e inconsciente: Isto fica tão bonito! Ben tinha aquela coisa
brilhante já meio arrancada quando chegou a um troço de terra, a roda da frente a guinar
toda para a esquerda, a traseira a patinar. Não voou completamente. Deu um salto na
bicicleta, uma das pernas ficou presa e ele aterrou de lado no chão, com o braço direito a
raspar nos restos de milho, a perna direita dobrada debaixo do corpo. Bateu com a cabeça
com força na terra e os dentes tiniram como um sino.
Quando conseguiu respirar novamente — dez segundos a pestanejar com as lágrimas
nos olhos —, sentiu um fio quente de sangue escorrer-lhe pelo olho abaixo. Ótimo.
Espalhou-o com as pontas dos dedos na face e sentiu um novo fio de sangue a escorrer
imediatamente do golpe na testa. Gostava de ter batido com mais força. Nunca tinha
partido um osso, um facto que só confessava sob pressão. A sério, meu? Como é que
uma pessoa consegue passar pela vida sem partir nada? A tua mãe embrulhou-te em
plástico protetor? Na primavera passada, arrombara o portão da piscina municipal com uns
tipos e postara-se na prancha de saltos por cima do grande buraco seco, a olhar para o
fundo de cimento, a convencer-se a saltar, a partir-se todo, a ser o puto marado. Dera
balanço na prancha umas quantas vezes, bebera mais um gole de uísque, dera uns pulinhos
para cima e para baixo e voltara para junto dos outros, que ele mal conhecia e que tinham
estado a observá-lo pelo canto do olho.
Um osso partido teria sido melhor, mas um pouco de sangue não era mau. Escorria
agora abundantemente, pela bochecha abaixo, pelo queixo, e pingava para o gelo. Poças
redondas de um vermelho puro.
Aniquilação.
A palavra surgiu do nada; expressões e letras de músicas estavam constantemente a
colar-se-lhe ao cérebro pegajoso. Aniquilação. Viu imagens soltas de bárbaros nórdicos a
empunharem machados. Perguntou-se por um segundo, um segundo apenas, se teria
reencarnado e se aquilo seria uma espécie de recordação dessa vida anterior esvoaçando
para o chão como cinzas. Depois, pegou na bicicleta e baniu esse pensamento. Já não tinha
dez anos.
Começou a pedalar, com uma luxação na anca direita e o braço a arder dos arranhões
no milho. Talvez também ficasse com uma bela nódoa negra. Diondra gostaria disso,
passaria um dedo macio sobre a mancha, descreveria um círculo à volta dela, uma, duas
vezes, e espetaria um dedo na nódoa negra para depois gozar com ele quando o visse dar
um salto de dor. Diondra era uma miúda que gostava de reações em grande: gritava alto,
chorava ainda mais alto, ria a bandeiras despregadas. Arregalava os olhos e arqueava as
sobrancelhas quase até aos cabelos quando queria parecer surpreendida. Gostava de saltar
de detrás de uma porta e pregar-lhe sustos para ele correr atrás dela na brincadeira.
Diondra, a miúda dele, com um nome que lhe fazia lembrar princesas ou strippers, não
sabia bem qual das duas. Ela era um bocadinho de ambas: sumptuosa, mas ordinária.
Uma peça qualquer da bicicleta ficara solta e estava a fazer um barulho que parecia o
de um prego dentro de uma lata; o barulho vinha da zona dos pedais. Deteve-se um
instante para ver o que se passava, com as mãos vermelhas e engelhadas do frio como
um velho, e igualmente fraco, mas não viu nada de mal. Enquanto tentava detetar o
problema, o sangue entrou-lhe nos olhos. Merda, era um inútil. Era demasiado pequeno
quando o pai os abandonara. Nunca tivera a oportunidade de aprender coisas práticas. Via
tipos a consertar motos e tratores e automóveis, e as entranhas dos motores pareciamlhe
os intestinos de um animal qualquer que ele nunca tinha visto. Mas de animais ele
entendia, e de armas também. Era caçador como toda a gente na sua família, mas isso
não era grande coisa, uma vez que a mãe tinha mais pontaria do que ele.
Queria ser um homem útil, mas não sabia como conseguir tal coisa, e a ideia
assustava-o. O pai tinha voltado a viver com eles na quinta durante uns meses, no verão,
e Ben enchera-se de esperanças, achando que o homem lhe ensinaria alguma coisa depois
de tanto tempo, que se daria ao trabalho de ser pai. Em vez disso, Runner limitou-se a
fazer ele próprio todo o trabalho mecânico e nem sequer convidou Ben para assistir. Aliás,
deixou bem claro que Ben devia manter-se longe dele. Percebeu que Runner achava que ele
era um mariquinhas: sempre que a mãe dizia que era preciso consertar alguma coisa,
Runner respondia: «Isso é trabalho de homem» e lançava um sorriso a Ben, desafiando-o
a concordar. Não podia pedir a Runner para lhe ensinar fosse o que fosse.
Além disso, não tinha dinheiro. Mentira: tinha quatro dólares e trinta cêntimos no bolso,
mas era só isso para a semana toda. A família não tinha dinheiro posto de parte. A conta
bancária estava sempre praticamente sem nada; vira um extrato bancário, uma vez, que
dizia literalmente um dólar e dez cêntimos, portanto, a dada altura, a família chegou a ter
menos no banco do que ele levava no casaco naquele preciso momento. A mãe não era
capaz de gerir a quinta como devia; ele não sabia como, mas ela estava a estragar tudo.
Levava uma carga de trigo para o silo num camião emprestado e não recebia nada em
troca — menos do que gastava a cultivar o trigo — e o pouco de dinheiro que conseguia
era para pagar dívidas. Os lobos estão à nossa porta, costumava ela dizer, e quando ele
era mais pequeno, imaginava-a inclinada para fora da porta dos fundos, a lançar notas
verdinhas de dinheiro a uma matilha de lobos e eles a comerem-nas como se fossem
carne. Queriam sempre mais.
Será que alguém lhes ia tirar a quinta, um dia? Não deveria alguém fazê-lo? A melhor
coisa talvez fosse livrarem-se da quinta, começarem do zero, em vez de estarem
agarrados àquela coisa viva enorme, morta. Mas era a casa dos pais da mãe e ela era
sentimental. Era um gesto muito egoísta, pensando bem. Ben trabalhava a semana toda na
quinta e depois voltava para a escola aos fins de semana para o seu emprego de merda
como empregado de limpeza. (Escola e quinta, quinta e escola, era a isso que se resumia
a sua vida antes de Diondra. Agora, tinha um belo triângulo de lugares para onde ir: a
escola, a quinta e o casarão de Diondra na orla da cidade. Dava de comer ao gado e
acartava estrume em casa e fazia basicamente o mesmo na escola, a lavar balneários e a
esfregar o chão da cantina, ou seja, a limpar a merda dos outros putos. E, ainda assim, a
mãe continuava a exigir que lhe desse metade do ordenado. As famílias partilham. Ah,
sim? Pois os pais devem tomar conta dos filhos, que tal essa? Que tal não ter parido
mais três miúdos quando mal tinha dinheiro para sustentar o primeiro?
A bicicleta estrepitava pelo caminho fora e Ben estava à espera que ela se desfizesse
toda aos bocados, como num sketch ou num cartoon em que ele acabaria a pedalar só
com o selim e o guiador. Odiava ter de ir de bicicleta para todo o lado. Odiava não poder
conduzir. É a coisa mais triste do mundo um rapaz que ainda não fez dezasseis anos, dizia
Trey, abanando a cabeça e soprando fumo para cima dele. Dizia isto sempre que Ben
aparecia em casa de Diondra montado na bicicleta. Trey era fixe, mas era o tipo de gajo
que tinha sempre de espetar o ferrão nos outros gajos. Trey tinha dezanove anos, cabelo
comprido, preto e baço como alcatrão deixado ao ar durante uma semana, e era meio
primo de Diondra ou uma coisa qualquer esquisita dessas, tio-avô ou amigo da família ou
enteado de um amigo da família. Ou ele já tinha mudado de história várias vezes ou então
Ben não tinha prestado atenção suficiente. O que era perfeitamente possível, uma vez que,
sempre que Trey estava por perto, Ben ficava imediatamente tenso e demasiado
consciente do seu corpo. Porque é que estava parado com as pernas naquela posição? O
que é que havia de fazer às mãos? Pô-las na cintura ou enfiá-las nos bolsos?
Qualquer das duas maneiras parecia esquisita. E qualquer uma delas suscitaria piadas.
Trey era o tipo de gajo capaz de detetar qualquer coisa discreta mas profundamente
errada numa pessoa, em que o próprio nem sequer tinha reparado, e de a denunciar a uma
sala cheia de gente. Belas calças para atravessar as cheias foi a primeira coisa que Trey
lhe disse na vida. Ben levava uns jeans que talvez fossem, eventualmente, um centímetro
demasiado curtos. Talvez dois centímetros. Belas calças para atravessar as cheias.
Diondra rebolara-se de riso. Ben esperara que ela parasse de rir e que Trey recomeçasse a
falar. Esperara dez minutos, sem dizer nada, a fazer um esforço enorme para se sentar de
maneira que as meias não ficassem demasiado à mostra. Depois, enfiara-se na casa de
banho, desapertara ligeiramente o cinto e puxara os jeans para o fundo das ancas. Quando
voltou para a sala — a sala de estar do andar de baixo da casa, com uma alcatifa azul e
pufes espalhados por todos os cantos como cogumelos —, a segunda coisa que Trey lhe
disse na vida foi: «Agora trazes o cinto pela pila, meu. Não enganas ninguém.»
Ben chocalhou pelo carreiro abaixo, na sombra fresca do inverno, com flocos de neve a
flutuarem no ar como grãos de poeira. Mesmo depois de fazer dezasseis anos, continuaria
sem carro. A mãe tinha um Cavalier que comprara num leilão e que, em tempos, fora um
automóvel de aluguer. Ela já lhe explicara que não tinham dinheiro para um segundo carro.
Teriam de partilhar, o que fez imediatamente com que Ben não tivesse vontade de usar o
Cavalier. Já imaginara o que seria ir buscar Diondra num carro que cheirava a centenas de
outras pessoas, um carro que tinha um cheiro completamente a usado — a batatas fritas
rançosas e a nódoas de sexo — e, ainda por cima, um carro que agora estava atulhado de
livros de meninas e bonecas de pano e pulseiras de plástico. Não dava. Diondra disse que
ele podia conduzir o carro dela (ela tinha dezassete anos, mais um problema, porque... não
era embaraçoso andar dois anos atrás da namorada no liceu?). Mas era uma imagem bem
melhor: os dois num CRX vermelho, com a traseira levantada, os cigarros de mentol de
Diondra a encherem o carro com um fumo perfumado, Slayer em altos berros. Sim, muito
melhor.
Sairiam daquela terra de merda e iriam para Wichita, onde o tio dela era dono de uma
loja de desporto e talvez lhe desse emprego. Ben prestara provas para as equipas de
basquetebol e futebol e fora rejeitado de uma maneira curta e grossa, do género «escusa
de cá voltar», por isso passar os seus dias numa sala enorme cheia de bolas de basquete
e futebol parecia-lhe particularmente irónico. Mas, pensando bem, com tanto equipamento
desportivo à sua volta, talvez pudesse treinar e tornar-se suficientemente bom para entrar
para uma equipa qualquer masculina. Tinha de haver uma vantagem naquilo tudo.
Claro está que a maior vantagem era Diondra. Ele e Diondra no seu próprio
apartamento em Wichita, a comer McDonald’s e a ver televisão e a fazer sexo e a fumar
maços inteiros de cigarros numa noite. Ben não fumava muito quando Diondra não estava;
era ela a viciada, fumava tanto que cheirava a tabaco mesmo depois de tomar banho, ele
tinha a sensação de que, se ela se cortasse, a sua pele deitaria vapor de mentol em vez
de sangue. Acabara por gostar desse cheiro, que agora, para ele, era sinónimo de consolo e
refúgio, da mesma maneira que o pão quente representa o cheiro a casa para muita gente.
Portanto, seria assim: ele e Diondra, com os seus caracóis castanhos aos canudos, todos
estaladiços de gel (outro cheiro que era completamente representativo dela: aquele odor
pungente a uva dos cabelos), sentados no sofá a verem as telenovelas que ela gravava
todos os dias. Ele acabara por se deixar enredar nos dramas: mulheres de chumaços nos
ombros a beberem champanhe com diamantes a cintilar nos dedos, enquanto enganavam
os maridos ou os maridos as enganavam ou as pessoas ficavam com amnésia e
enganavam as outras. Ele voltaria do trabalho, com as mãos a cheirar a couro poeirento de
bolas de basquetebol, e ela teria comprado o jantar no McDonald’s ou no Taco Bell e
comeriam juntos e diriam piadas sobre as mulheres de lantejoulas na televisão, e Diondra
mostraria as que têm as unhas mais bonitas, ela adorava as unhas, e depois insistiria em
pintar as dele, ou em pôr-lhe batom, o que ela adorava fazer, adorava abonecá-lo.
Acabariam em cima da cama a fazer uma luta de cócegas, nus, com pacotes de ketchup
debaixo das costas, e Diondra riria tão alto que os vizinhos bateriam no teto para os
mandar calar.
      Esta imagem não estava completa. Ele deixara propositadamente de fora um pormenor
extremamente assustador, apagara simplesmente determinadas realidades. Isso não podia
ser um bom sinal. Significava que tudo não passava de uma fantasia. Era um puto idiota
que nem sequer conseguia ter uma coisa tão pequena como um apartamento de merda em
Wichita. Nem sequer uma coisa minúscula como essa ele poderia ter. Sentiu uma onda de
fúria que já lhe era bem familiar. A sua vida era uma longa sucessão de negações à sua espera.
    Aniquilação. Uma vez mais, viu machados, armas, corpos ensanguentados
esborrachados no chão. Os gritos davam lugar a gemidos e cantos de pássaros. Queria
sangrar mais.
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Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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