domingo, 14 de junho de 2015

Capítulo 30


0 Amansador ficava em um lugar obscuro entre a Sede e o muro norte da Clareira,
escondido atrás de arbustos espinhentos e irregulares, que pareciam não ser podados há
séculos. Era um grande bloco de concreto grosseiramente delineado, com uma única janela
minúscula e uma porta de madeira que estava trancada com um ameaçador ferrolho de metal
empoeirado, como algo saído da Idade Média.
Newt pegou uma chave e abriu-a, então fez sinal para Thomas entrar.
- Só tem uma cadeira lá dentro e mais nada para você fazer. Divirta-se.
Thomas gemeu em seu íntimo quando entrou e viu a única peça de mobília - uma cadeira
desconjuntada e em péssimo estado, com uma perna mais curta do que as outras,
provavelmente de propósito. Nem mesmo tinha estofamento.
- Fique à vontade - disse Newt antes de fechar a porta. Thomas virou-se para o seu novo
lar e ouviu o ferrolho sendo engatilhado e o dique da trava do cadeado atrás de si. A cabeça
de Newt apareceu na janelinha sem vidros, observando-o através das barras de ferro com um
sorriso afetado no rosto. - Uma bela recompensa por desrespeitar as regras. Você salvou
algumas vidas, Tommy, mas ainda assim precisa aprender.
- É, eu sei. Ordem.
Newt sorriu.
- Você não é de todo mau, trolho. Mas, amigos ou não, precisamos fazer as coisas direito,
tocar a vida para sobreviver. Pense nisso enquanto estiver sentado aí e olhando para as
malditas paredes.
Então foi embora.
A primeira hora passou e Thomas sentiu o tédio infiltrar-se sorrateiro como ratos por
baixo da porta. Na segunda hora, sentiu vontade de bater com a cabeça contra a parede. Duas
horas depois disso começou a pensar que jantar com Gally e os Verdugos seria melhor do que
ficar sentado dentro daquele estúpido Amansador. Sentado, tentou recompor as lembranças,
mas qualquer esforço evaporava-se numa névoa de esquecimento antes que alguma coisa se
formasse.
Felizmente, Chuck chegou com o almoço ao meio-dia, aliviando Thomas dos seus
pensamentos.
Depois de passar-lhe alguns pedaços de frango e um copo de água através da janela, ele
assumiu a sua função costumeira de tagarelar nos ouvidos de Thomas.
- Tudo está voltando ao normal - anunciou o garoto. - Os Corredores saíram para o
Labirinto, todo mundo está trabalhando, talvez a gente vá sobreviver no final das contas.
Ainda não há sinal de Gally. Newt disse para os Corredores voltarem imediatamente se
encontrarem o corpo dele. E, ah, sim, Alby levantou e está melhor. Parece bem e Newt sentese
melhor por não precisar mais ser o chefão.
A menção a Alby desviou a atenção de Thomas da comida. Visualizou o rapaz mais velho
debatendo-se, estrangulando-se no dia anterior. Então se lembrou de que ninguém mais sabia o
que Alby dissera depois que Newt saíra do quarto - antes de sofrer aquele ataque. Mas isso
não significava que Alby manteria aquilo entre eles agora que saíra da cama e já podia andar.
Chuck continuou a falar, dando uma guinada imprevista.
- Thomas, ando meio esquisito, cara. É estranho alguém sentir-se triste e com saudade de
casa, sem ter a menor ideia de para onde acha que poderia voltar, sabe? Tudo o que sei é que
não quero ficar aqui. Quero voltar para a minha família. Não importa onde seja, nem de onde
me tiraram. Quero me lembrar.
Thomas ficou um pouco surpreso. Nunca ouvira Chuck dizer algo tão profundo e tão
verdadeiro.
- Sei o que quer dizer - murmurou.
Chuck era baixo demais para que os seus olhos ficassem numa altura na qual Thomas
pudesse vê-los enquanto falava, mas, depois da afirmação seguinte, Thomas imaginou-os
cheios de uma tristeza desoladora, talvez mesmo com lágrimas. Ele disse:
- Antes eu chorava muito. Todas as noites.
Isso fez com que os pensamentos sobre Alby deixassem a mente de Thomas.
- Ah, é?
- Como um bebê mijão. Quase até o dia em que você chegou aqui. Depois me acostumei,
eu acho. Aqui tornou-se o meu lar, mesmo a gente tendo todos os dias esperança de sair.
- Eu só chorei uma vez desde que cheguei aqui, mas isso foi depois de quase ter sido
comido vivo. Devo ser apenas um idiota cara de mértila.
Thomas não teria admitido isso se Chuck não tivesse se aberto com ele.
- Você chorou? - Ele ouviu Chuck dizer através da janela. - Depois?
- Sim. Quando o último deles caiu pelo Penhasco, eu não aguentei e solucei até a minha
garganta e o peito doerem. - Thomas lembrava-se de tudo muito bem. - Tudo desabou sobre
mim de uma vez só. Com certeza isso fez com que me sentisse melhor... Não se sinta mal por
chorar. Nunca.
- Quer dizer que isso faz você se sentir melhor? Estranho como funciona.
Alguns minutos se passaram em silêncio. Thomas viu-se torcendo para que Chuck não
tivesse ido embora.
- Ei, Thomas? - chamou Chuck.
- Estou aqui.
- Você acha que tenho pais? Pais de verdade?
Thomas deu uma risada, principalmente para afastar o acesso repentino de tristeza que a
pergunta lhe causara.
- Claro que tem, seu trolho. Você precisa que eu explique tudo, até o mais óbvio? - O
coração de Thomas doía; lembrava-se de ter recebido uma reprimenda como aquela, mas não
de quem a dera.
- Não foi o que eu quis dizer - falou Chuck, a voz completamente despida de alegria.
Falara em voz baixa e desolada, quase num murmúrio. - A maioria dos caras que passaram
pela Transformação lembra-se de coisas terríveis, sobre as quais nem quer comentar, o que
me faz duvidar se teria um bom motivo para voltar para casa. Então, quero dizer, você acha
que é possível que eu tenha uma mãe e um pai em algum lugar no mundo lá fora, sentindo a
minha falta? Você acha que eles choram à noite?
Thomas sentiu-se chocado ao perceber que os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Fora
tudo tão louco desde que chegara que nunca pensara nos Clareanos como pessoas com
famílias de verdade, sentindo a falta dos parentes. Era estranho, mas nem mesmo pensara
sobre si mesmo dessa maneira. Só sobre o que tudo aquilo significava, quem os mandara para
lá, como poderiam sair um dia.
Pela primeira vez, ele sentiu algo por Chuck que o deixou com tanta raiva que lhe deu
vontade de matar alguém. O garoto deveria estar na escola, em um lar, brincando com os
garotos da vizinhança. Ele merecia ir para casa à noite para estar com a família que o amava,
que se preocupava com ele. uma mãe que o mandasse tomar banho todos os dias e um pai que
o ajudasse na lição de casa.
Thomas odiou as pessoas que haviam tirado aquele pobre garoto inocente da família.
Odiou-as com um ardor que não sabia que um ser humano podia sentir. Quis que morressem,
até mesmo que fossem torturadas. Queria que Chuck fosse feliz.
Mas a felicidade fora arrancada da vida deles. O amor fora arrancado da vida deles.
- Ouça, Chuck... - Thomas fez uma pausa, acalmando-se o máximo que pôde, assegurandose
de que a voz não falhasse. - Tenho certeza de que você tem pais. Eu sei. Pode parecer
terrível, mas aposto que a sua mãe está sentada no seu quarto neste exato momento, abraçando
o seu travesseiro, olhando para o mundo que roubou você dela. E, sim, aposto que ela está
chorando. Muito. Com os olhos inchados, o nariz escorrendo. De verdade.
Chuck não disse nada, mas Thomas pensou tê-lo escutado fungar baixinho.
- Não desista, Chuck. Vamos dar um jeito nessa coisa, sair daqui. Sou um Corredor
agora... Juro pela minha vida que vou mandá-lo para aquele quarto na sua casa. Para que a sua
mãe pare de chorar. - E Thomas queria isso de verdade. Ele sentia aquilo arder no fundo do
coração.
- Tomara que você esteja certo - falou Chuck com a voz trêmula. Pela janela, mostrou o
polegar levantado, depois foi embora.
Thomas levantou-se e andou de um lado para o outro pelo cômodo apertado, fumegando
com o desejo intenso de cumprir o que prometera.
- Eu juro, Chuck - sussurrou para ninguém. - Juro que vou mandá-lo de volta pra casa.
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Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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