sugava a vida do ar enquanto cada um dos Clareanos olhava para a fileira de janelas, para a
fileira de observadores. Thomas viu um deles baixar os olhos para escrever alguma coisa,
outro estender a mão e colocar os óculos. Todos usavam casaco preto sobre camisa branca,
uma palavra gravada no lado direito do peito - não fazia ideia do que estaria escrito. Nenhum
deles exibia alguma espécie de expressão facial discernível - eram todos lívidos e
descarnados, uma visão deploravelmente triste.
Eles continuaram a olhar para os Clareanos; um homem abanou a cabeça, uma mulher
concordou. Outro homem levantou a mão e coçou o nariz - a coisa mais humana que Thomas
vira algum deles fazer.
- Quem são aquelas pessoas? - sussurrou Chuck, mas a sua voz ecoou por toda a câmara
com um acento rouco.
- Os Criadores - falou Minho; depois pisoteou o chão. - Vou quebrar a cara de vocês! -
gritou, tão alto que Thomas quase tapou os ouvidos.
- O que vamos fazer? - indagou Thomas. - O que será que estão esperando?
- Devem ter reanimado os Verdugos - disse Newt. - Eles devem estar vindo diretamente...
Um bipe intermitente alto e lento o interrompeu, como o alarme de advertência de um
caminhão imenso em marcha a ré, mas muito mais potente. Não vinha de lugar nenhum,
estrondeava e ecoava por toda a câmara.
- E agora? - estranhou Chuck, sem esconder a preocupação na voz.
Por alguma razão, todos olharam para Thomas; ele encolheu os ombros em resposta - só se
lembrava do que já comentara e agora estava tão desorientado quanto os demais. E com medo.
Esticou o pescoço enquanto esquadrinhava o lugar de cima a baixo, tentando encontrar a fonte
dos bipes. Mas nada havia mudado. Então, com o canto do olho, notou os outros Clareanos
olharem na direção das portas. Fez o mesmo também; o coração acelerou-se quando viu que
uma das portas estava sendo aberta na direção deles.
Os bipes pararam e um silêncio tão profundo quanto o espaço sideral instalou-se na
cântara. Thomas esperou sem respirar, na expectativa de que alguma coisa horrível pudesse se
projetar da porta.
Em vez disso, duas pessoas entraram no salão.
Uma era mulher. Um adulto de verdade. Ela parecia muito comum, usando calças pretas e
uma camisa branca de botões com um logotipo no peito - CRUEL - gravado em letras
maiúsculas azuis. Usava o cabelo castanho cortado na altura dos ombros e tinha o rosto magro
e olhos escuros. Enquanto caminhava na direção do grupo, não sorria nem franzia o cenho -
quase como se não tivesse notado que estavam ali ou não se importasse com isso.
"Eu a conheço", pensou Thomas. Porém, era um tipo de lembrança nebulosa - não
conseguia lembrar-se do nome dela nem do que tinha a ver com o Labirinto, mas ela lhe
pareceu familiar. E não só pela aparência, mas pelo jeito de andar, pelos modos - rígida, sem
um pingo de alegria. Ela parou em frente aos Clareanos, a uns dois metros de distância deles,
e lentamente olhou da esquerda para a direita, observando um a um de maneira minuciosa.
A outra pessoa, parada ao lado dela, era um garoto usando um blusão grande demais, o
capuz sobre a cabeça, ocultando-lhe a face.
- Bem-vindos de volta - disse a mulher finalmente. - Depois de dois anos e tão poucos
mortos. Impressionante.
Thomas percebeu a sua boca se abrir - sentiu a raiva enrubescer-lhe a face.
- O quê? - falou Newt.
Os olhos dela varreram o grupo de novo antes de pousar em Newt.
- Tudo correu de acordo com o plano, Sr. Newton. Embora esperássemos que um pouco
mais de vocês desistissem pelo caminho.
Ela relanceou o olhar para o companheiro, depois estendeu a mão e puxou o capuz do
garoto. Ele olhou para cima, os olhos lavados em lágrimas. Todos os Clareanos presentes
ofegaram de surpresa. Thomas sentiu os joelhos cederem.
Era Gally.
Thomas piscou, depois esfregou os olhos, como se algo estivesse fora do lugar. Sentia-se
consumido pelo choque e pela raiva.
Era Gally.
- O que ele está fazendo aqui! - gritou Minho.
- Vocês estão em segurança agora - respondeu a mulher, como se não o tivesse escutado. -
Por favor, fiquem à vontade.
- À vontade? - bradou Minho. - Quem é você para nos dizer para ficar à vontade?
Queremos ver a polícia, o prefeito, o presidente... alguém!
Thomas preocupou-se com o que Minho poderia fazer - então, de novo, meio que quis que
ele desse um murro na cara dela.
Ela semicerrou os olhos enquanto olhava para Minho.
- Você não faz ideia do que está falando, garoto. Eu esperaria mais maturidade de alguém
que passou pelas Provas do Labirinto. - O tom condescendente dela chocou Thomas.
Minho fez menção de retrucar, mas Newt deu-lhe uma cotovelada na barriga.
- Gally - falou Newt. - O que está acontecendo?
O garoto de cabelos escuros olhou para ele; seus olhos faiscaram por um instante, a
cabeça balançando ligeiramente. Mas ele não respondeu. "Ele parece meio fora de si", pensou
Thomas. Pior do que antes.
A mulher inclinou a cabeça como se estivesse orgulhosa dele.
- Um dia, vocês todos serão gratos pelo que fizemos por vocês. Só posso prometer isso, e
confiar que suas mentes aceitem isso. Ou então a coisa toda terá sido um erro. São tempos
tenebrosos, Sr. Newton. Tempos tenebrosos. - Ela fez uma pausa. - Há, é claro, uma Variável
final. - Deu um passo atrás.
Thomas concentrou a atenção em Gally. O corpo todo do garoto tremia, seu rosto estava
branco leitoso, todo úmido, os olhos vermelhos destacando-se como manchas de sangue sobre
um pedaço de papel. Estava com os lábios apertados; a pele ao redor deles se retorcia, como
se estivesse tentando falar mas não pudesse.
- Gally? - Thomas chamou, tentando eliminar a raiva absoluta que sentia por ele.
Palavras brotaram da boca de Gally.
- Eles... podem me controlar... eu não... - Os seus olhos incharam, a mão foi para a
garganta como se estivesse sufocando. - Eu... tenho... de... - Cada palavra era como um acesso
de tosse. Então ele se calou, a face se acalmando, o corpo relaxando.
Era exatamente como Alby na cama, na Clareira, depois de passar pela Transformação. O
mesmo tipo de coisa tinha acontecido com ele. O que será...
Mas Thomas não teve tempo de terminar o pensamento. Gally estendeu a mão atrás de si,
puxou alguma coisa comprida e brilhante do bolso de trás. As luzes da câmara se refletiram na
superfície prateada - um punhal com um aspecto ameaçador, fortemente seguro pelos dedos
dele. Com uma rapidez inesperada, ele recuou um pouco e atirou a faca em Thomas. Quando
fez isso, Thomas ouviu um grito à sua direita, sentiu um movimento. Na direção dele.
A lâmina girava como as pás de um moinho de vento, Thomas vendo cada uma das suas
voltas, como se o mundo tivesse ficado em câmera lenta. Como se isso acontecesse assim com
o único propósito de permitir-lhe sentir o terror de ver o que acontecia. A faca se aproximava,
girando sem parar, direto sobre ele. Um grito estrangulado estava se formando na sua garganta;
ele se apressou a se mover mas não conseguia.
Então, inexplicavelmente, Chuck apareceu, mergulhando na frente dele. Thomas sentiu
como se os seus pés estivessem congelados em blocos de gelo; só podia observar a cena de
horror desenrolando-se à sua frente, totalmente impotente.
Com um baque violento e oco, o punhal chocou-se contra o peito de Chuck, enterrando-se
até o cabo. O garoto gritou, caiu no chão, o corpo já em convulsões. O sangue jorrava do
ferimento, vermelho-escuro. Suas pernas se debateram contra o chão, os pés chutando sem
destino enquanto a morte se instalava. Um respingo vermelho vazou dos seus lábios
entreabertos. Thomas sentiu como se o mundo estivesse desmoronando ao seu redor,
esmagando o seu coração.
Ele jogou-se no chão e puxou o corpo trêmulo de Chuck para os seus braços.
- Chuck! - gritou, a voz saindo como um ácido que dilacerava a sua garganta. - Chuck!
O garoto tremia descontrolado, havia sangue por toda a parte, umedecendo as mãos de
Thomas. Os olhos de Chuck rolaram nas órbitas, brancas e sem vida. O sangue escorria-lhe do
nariz e da boca.
- Chuck... - disse Thomas, dessa vez num sussurro. Devia ser possível fazer alguma coisa.
Eles poderiam salvá-lo. Eles...
O garoto parou de se contorcer, aquietou-se. Os olhos voltaram à posição normal,
focalizados em Thomas, presos à vida.
- Thom... mas - Foi a única palavra que ele mal balbuciou.
- Aguente firme, Chuck - disse Thomas. - Não morra... resista. Alguém procure ajuda!
Ninguém se moveu, e no fundo Thomas sabia por quê. Nada podia ajudar agora. Era o fim.
Pontos negros dançaram diante dos olhos de Thomas; o salão girou e oscilou. "Não", ele
pensou. "Não Chuck. Não Chuck. Qualquer um menos Chuck."
- Thomas - Chuck sussurrou. - Encontre... a minha mãe. - Uma tosse rouca irrompeu dos
seus pulmões, lançando um jato de sangue. - Diga a ela... - Ele não terminou. Os seus olhos se
fecharam, o corpo imobilizou-se. Um último suspiro escapou da sua boca.
Thomas olhou para ele, olhou para o corpo sem vida do amigo.
Alguma coisa aconteceu dentro de Thomas. Começou no fundo do seu peito, uma semente
de raiva. De vingança. De ódio. Algo tenebroso e terrível. E então explodiu, vazando com
violência dos seus pulmões, através do pescoço, correndo pelos braços e pelas pernas. Por
toda a sua mente.
Ele largou Chuck, levantou-se, trêmulo, virou a face para os seus novos visitantes.
E então reagiu. Reagiu total e completamente.
Correndo a toda velocidade à frente, atirou-se sobre Gally, as mãos encurvadas como
garras. Encontrou a garganta do rapaz, apertou-a, caiu ao chão sobre ele. Montado sobre o
corpo do garoto, prendia-o com as pernas para que não pudesse escapar. Começou a esmurrá-
lo.
Com a mão esquerda, Thomas mantinha Gally de encontro ao solo, prendendo o pescoço
do garoto, enquanto o punho direito desferia-lhe golpes na face, um após outro. Mais um golpe
e mais outro e mais outro, batendo com os nós dos dedos contra o rosto e o nariz do garoto.
Ouviu-se um som de algo esmagado, o sangue jorrou, os gritos foram horríveis. Thomas não
sabia quais gritos eram mais altos - os de Gally ou os seus. Ele bateu - bateu nele como se
liberasse cada gota de raiva acumulada em toda a sua vida.
E então foi puxado dali por Minho e Newt, os braços ainda se agitando mesmo quando só
atingiam o ar. Eles o arrastaram pelo chão; ele resistiu, se debateu, gritou para que o
largassem. Não desviava os olhos de Gally, estirado lá, imóvel; Thomas sentia a raiva
descarregar, como se a linha visível de uma chama os unisse.
E então, sem mais nem menos, tudo desapareceu. Só restaram os pensamentos sobre
Chuck.
Ele se livrou das mãos de Minho e Newt, correu para o corpo imóvel e sem vida do
amigo. Agarrou-o, puxou-o para os braços, ignorando o sangue, ignorando o semblante
congelado da morte no rosto do garoto.
- Não! - Thomas gritou, consumido pela tristeza. - Não!
Teresa estava lá, pousou a mão sobre o seu ombro. Ele a repudiou com um movimento.
- Eu prometi a ele! - gritou, percebendo no mesmo instante que a sua voz estava
entremeada de algo errado. Quase insanidade. - Eu prometi que o salvaria, que o levaria para
casa! Prometi a ele!
Teresa não respondeu, apenas inclinou a cabeça, os olhos presos no chão.
Thomas abraçou Chuck contra o peito, apertou-o o mais forte possível, como se de algum
modo pudesse trazê-lo de volta, ou mostrar-se grato por salvar a sua vida, por ter sido seu
amigo quando ninguém mais queria sê-lo.
Thomas chorou, soluçou como nunca soluçara antes. Os seus soluços altos e roucos
ecoaram por toda a câmara como os sons de uma dor torturada.

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