quinta-feira, 23 de julho de 2015

17


DECLARA-SE QUE HOJE É FERIADO NÃO PROGRAMADO.
Jonas, seus pais e Lily, todos se viraram surpresos para o alto-falante da parede, de onde
saíra o aviso. Um feriado daqueles acontecia muito raramente e era um deleite para a
comunidade inteira quando acontecia. Os adultos ficavam desobrigados do dia de trabalho; as
crianças, da escola, do treinamento e das horas de trabalho voluntário. Os Operários teriam
um outro dia de feriado e, como substitutos, assumiam naquele dia as tarefas indispensáveis:
cuidar das crianças-novas e dos Idosos, entregar alimentos; e a comunidade ficava livre.
Jonas deu vivas e pôs de lado sua pasta do dever de casa. Estivera prestes a sair para a
escola. Para ele, agora a escola se tornara menos importante e logo seu aprendizado formal
estaria encerrado, não faltava muito tempo. Os Dozes, entretanto, apesar de já terem iniciado
seu treinamento adulto, ainda precisavam decorar as intermináveis listas de regras e dominar a
tecnologia de ponta.
Desejou aos pais, à irmã e a Gabe um dia feliz e saiu pedalando pela ciclovia à procura de
Asher.
Fazia quatro semanas que não tomava as pílulas. Os Atiçamentos tinham voltado, e ele se
sentia um tanto culpado e encabulado com os sonhos prazerosos que tinha quando dormia. Mas
sabia que não podia mais voltar para o mundo de ausência de sentimentos em que vivera por
tantos anos.
Além do mais, seus novos sentimentos intensificados permeavam uma esfera muito maior do
que seus sonhos apenas. Mesmo sabendo que o seu estado de espírito se devia em parte ao
fato de não estar tomando as pílulas, achava que o que sentia vinha também das lembranças. Já
enxergava todas as cores e conseguia mantê-las também, de modo que as árvores, o capim e
os arbustos permaneciam verdes em sua visão. As faces rosadas de Gabriel continuavam
rosadas, mesmo quando ele dormia. E as maçãs eram sempre, sempre vermelhas.
Nas lembranças, vira mares, lagos nas montanhas e rios que corriam pelos bosques; passara
a enxergar de maneira diferente o rio largo que o caminho margeava. Via toda a luminosidade,
cor e história que ele continha e carregava em suas águas que seguiam lentamente e sabia que
havia um Alhures de onde vinha e um outro Alhures para onde ia.
Nesse feriado inesperado, aleatório, sentia-se feliz, como sempre que havia um feriado; mas
a felicidade era mais profunda do que jamais fora. Pensando na precisão da linguagem, como
sempre fazia, Jonas percebeu que experimentava uma nova intensidade de sentimentos. De
certa forma, não eram iguais aos sentimentos que todas as noites, em todas as residências,
todos os cidadãos analisavam em conversas infindáveis.
“Fiquei zangada porque alguém desobedeceu às regras da área de recreação”, Lily dissera
um dia, fechando o pequeno punho para indicar que estava furiosa. Sua família, Jonas
inclusive, tinha conversado sobre as possíveis razões para o descumprimento das regras,
sobre a necessidade de compreensão e paciência, até Lily relaxar o punho cerrado e sua raiva
se dissipar.
Lily, porém, não sentira raiva, agora Jonas sabia. Impaciência e exasperação superficiais,
nada mais do que isso, fora o que sentira. Tinha certeza disso porque sabia o que era raiva de
fato. Nas lembranças, vivenciara a injustiça e a crueldade e reagira com uma raiva que subira
com tamanha força dentro de si que a ideia de discuti-la calmamente na hora da refeição da
noite seria impensável.
“Eu me senti triste hoje”, ouvira sua mãe dizer, e eles a consolaram.
Mas Jonas experimentara tristeza de verdade. Sentira um grande pesar. E sabia que não
havia consolo rápido para emoções assim.
Eram mais profundas e não precisavam ser expressadas. Eram sentidas.
Hoje, ele se sentia feliz.
– Asher!
Jonas avistou a bicicleta de seu amigo encostada numa árvore, na beira do campo de jogos.
Outras bicicletas estavam espalhadas pelo chão nas proximidades. Num feriado, as regras
habituais de ordem podiam ser negligenciadas.
Parou com uma derrapada intencional e deixou sua bicicleta caída ao lado das outras.
– Ei, Ash! – gritou, olhando em torno. Aparentemente não havia ninguém na área de
recreação. – Onde você está?
– Tchiiiiuu! – Uma voz de criança vinda do arbusto mais próximo produzira o barulho. –
Pou! Pou! Pou!
Uma Onze chamada Tanya saiu cambaleando de seu esconderijo. Dramaticamente, apertou o
estômago com os braços e andou em zigue-zague, trôpega, gemendo.
– Você me acertou! – exclamou e caiu no chão fazendo uma careta.
– Blam!
Jonas, parado num dos lados do campo, reconheceu a voz de Asher. Viu seu amigo correr de
trás de uma árvore para trás de outra, fazendo mira com uma arma imaginária na mão.
– Blam! Você está na minha linha de emboscada, Jonas! Cuidado!
Jonas recuou. Passou pela bicicleta de Asher e ajoelhou-se para não ser visto. Já tinha
brincado muitas vezes daquilo com outras crianças, uma brincadeira de “gente do bem” contra
“gente do mal”, um passatempo inofensivo em que gastavam o excesso de energia e que só
terminava quando todos estavam caídos no chão, em poses esquisitas.
Nunca o conhecera antes como um jogo de guerra.
– Atacar! – O grito veio dos fundos do pequeno depósito onde eram guardados os
apetrechos dos jogos. Três crianças irromperam de lá, suas armas imaginárias em posição de
atirar.
Do lado oposto do campo veio um grito contrário:
– Contra-atacar!
De seus esconderijos, um bando de crianças – e Jonas reconheceu Fiona no grupo – saiu
correndo, todas abaixadas, atirando para o outro lado do campo. Muitas se detiveram e,
agarrando os próprios ombros e peitos com gestos exagerados, fingiram que tinham sido
atingidas. Caíram no chão e lá ficaram, reprimindo as risadas.
Jonas foi tomado por ondas de sentimentos. Deu por si andando para dentro do campo.
– Você foi atingido, Jonas! – berrou Asher detrás da árvore. – Pou! Acertei você outra vez!
Jonas ficou parado sozinho no meio do campo. Várias crianças levantaram as cabeças e
olharam para ele, embaraçadas. Os atacantes diminuíram a marcha, aprumaram o corpo para
ver o que ele estava fazendo.
Em sua mente, Jonas viu de novo o rosto do rapaz que estava morrendo no campo de batalha
e que lhe pedira água. Sentiu uma sufocação repentina, como se fosse difícil respirar.
Uma das crianças ergueu um rifle imaginário e simulou uma tentativa de destruí-lo, emitindo
um ruído de tiro.
– Tchiiiiuu!
Então todos se calaram, parados, constrangidos, e o único som que se ouvia era o da
respiração arquejante de Jonas, que fazia um esforço enorme para não chorar.
Aos poucos, quando nada aconteceu, nada mudou, as crianças se entreolharam, nervosas, e
foram embora. Ele ouviu-as endireitarem as bicicletas e começarem a percorrer o caminho
que saía do campo.
Só Asher e Fiona ficaram.
– O que houve, Jonas? Era só uma brincadeira – disse Fiona.
– Você estragou tudo – reclamou Asher com voz irritada.
– Não brinquem mais disso – suplicou ele.
– Sou eu quem está em treinamento para Diretor-Assistente de Recreação – salientou Asher,
zangado. – Brincadeiras não pertencem à sua área de contepência.
– Competência – Jonas corrigiu-o automaticamente.
– Isso aí. Você não pode vir aqui nos dizer do que brincar ou não brincar, mesmo que vá ser
o novo Recebedor. – Asher lançou-lhe um olhar cauteloso. – Peço desculpas por não respeitá-
lo como merece – murmurou.
– Asher – disse Jonas, tentando falar com cuidado e com delicadeza para dizer exatamente o
que queria. – Você não tinha como saber. Eu mesmo só soube recentemente. Mas essa
brincadeira é cruel. No passado houve…
– Já pedi desculpas, Jonas.
Jonas suspirou. Não adiantava. Claro que Asher não podia compreender.
– Aceito suas desculpas, Asher – disse ele, esgotado.
– Quer dar um passeio na beira do rio, Jonas? – perguntou Fiona, mordendo o lábio, aflita.
Jonas virou-se para ela. Era tão bonita! Por um breve instante pensou que nada lhe agradaria
mais do que passear tranquilamente de bicicleta pelo caminho da margem do rio, rindo e
conversando com sua doce amiga. Mas tinham tirado dele aquelas oportunidades. Sacudiu a
cabeça. Logo depois seus dois amigos lhe deram as costas e foram apanhar suas bicicletas.
Ele os acompanhou com os olhos enquanto se afastavam.
Jonas, desalentado, foi sentar-se num banco ao lado do Depósito, atormentado por
sentimentos de perda. Sua infância, suas amizades, sua despreocupada sensação de segurança
– parecia que tudo lhe fugia. Com sua nova e mais aguçada capacidade de sentir as coisas,
uma tristeza esmagadora se apossara dele ao ver os outros rirem e gritarem brincando de
guerra. Tinha consciência de que não poderiam compreender o motivo daquela tristeza sem as
lembranças. Sentia um amor tão grande por Asher e Fiona! Mas os dois não podiam sentir o
mesmo por ele sem as lembranças. E Jonas não podia transmiti-las. Ele se convenceu de que
não podia mudar nada

                                                                             ...
Em sua residência, naquela noite, Lily tagarelou, toda alegre, sobre o feriado maravilhoso que
tivera brincando com seus amigos, fazendo a refeição do meio-dia ao ar livre e, confessou ela,
experimentando um pouquinho a bicicleta de seu pai.
– Mal posso esperar para ter a minha própria bicicleta no mês que vem. A do Pai é grande
demais para mim. Eu caí – explicou, sem rodeios. – Ainda bem que o Gabe não estava na
cadeirinha!
– Ainda bem mesmo – concordou a Mãe, fazendo uma cara feia ao pensar na possibilidade.
Gabriel agitou os braços ao ouvir pronunciarem seu nome. Começara a andar na semana
anterior. Os primeiros passos de uma criança-nova eram sempre uma ocasião muito
comemorada no Centro de Criação, o Pai comentou, mas também assinalavam o início da
utilização de uma vara disciplinar. Agora, toda noite, o Pai trazia para casa o fino instrumento
para a eventualidade de Gabriel se comportar mal.
O pequeno, porém, era bem-humorado e tranquilo. No momento, cruzava a sala com seu
andar vacilante, rindo.
– Ga! – gorjeava ele. – Ga! – Era a maneira como pronunciava o próprio nome.
Jonas se reanimou. Havia sido um dia deprimente para ele, depois de um começo tão
promissor. Pôs de lado os pensamentos sombrios. Pensou em começar a ensinar Lily a andar
de bicicleta para que ela pudesse sair pedalando orgulhosa depois de sua Cerimônia dos
Nove, que se aproximava. Custava a acreditar que estavam quase em dezembro outra vez, que
quase um ano se passara desde que se tornara um Doze.
Sorriu vendo a criança-nova apoiar no chão um pequenino pé depois do outro, rindo
deliciada da tentativa de dar seus próprios passos.
– Quero dormir cedo hoje – disse o Pai. – Amanhã vou ter um dia cheio. Os gêmeos vão
nascer e os exames mostraram que são idênticos.
– Um para cá, outro para Alhures – cantarolou Lily. – Um para cá, outro para A…
– Vocês o levam realmente para Alhures, Pai? – perguntou Jonas.
– Não, só tenho de fazer a escolha. Eu os peso, entrego o maior para um Criador que está à
espera, depois limpo e arrumo o menorzinho para que se sinta confortável. Então realizo uma
pequena Cerimônia de Dispensa e… – baixou os olhos para Gabriel, sorrindo – … dou um
adeusinho para ele – disse, no tom de voz carinhoso que usava para falar com a criança-nova,
a mão fazendo o aceno familiar.
Gabriel deu sua risadinha e acenou de volta para ele.
– E alguém vem buscá-lo? Alguém de Alhures?
– Isso mesmo, Jonas-boinas.
Jonas revirou os olhos, encabulado com o uso daquele apelido bobo.
Lily estava imersa em seus pensamentos.
– E se em Alhures derem ao gemeozinho um nome, hum, deixe-me ver, como Jonathan, por
exemplo? E aqui, em nossa comunidade, na Nomeação, o gêmeo que ficar também receber o
nome de Jonathan e existirem duas crianças com o mesmo nome e serem exatamente iguais e,
um dia, quem sabe quando forem Seis, um grupo de Seis for de ônibus visitar outra
comunidade e lá, nessa outra comunidade, no outro grupo de Seis, existir um Jonathan
exatamente igual ao outro Jonathan e, aí, talvez eles se confundam e tragam para casa o
Jonathan errado e pode ser que os pais não percebam e aí…
Ela parou para respirar.
– Lily – disse a Mãe –, tive uma ideia maravilhosa. Que tal, quando você for uma Doze,
receber a Atribuição de Contadora de Histórias? Acredito que faz um tempo enorme que não
temos uma Contadora de Histórias na comunidade. Se eu estivesse no Comitê, com toda
certeza escolheria você para esse cargo!
Lily abriu um sorriso radiante:
– Tenho uma ideia melhor ainda para outra história – anunciou. – E se na realidade todos
nós fôssemos gêmeos e não soubéssemos, e em Alhures tivesse outra Lily, outro Jonas, outro
Pai, outro Asher, outra Anciã-Chefe, outra…
O Pai deu um gemido.

– Lily, está na hora de dormir…
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Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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