quinta-feira, 23 de julho de 2015

19


Jonas olhou rapidamente para o relógio. Havia sempre tanto trabalho a ser cumprido que ele e
o Doador raramente paravam para conversar como tinham acabado de fazer.
– Desculpe-me por ter desperdiçado tanto tempo com minhas perguntas – disse Jonas. – Só
perguntei sobre dispensa porque meu pai vai dispensar uma criança-nova hoje. Um gêmeo. Ele
tem de escolher um e dispensar o outro. Isso é feito pelo peso. – E olhou de novo para o
relógio. – Aliás, ele já deve ter acabado. Acho que ia ser esta manhã.
A fisionomia do Doador ficou séria.
– Gostaria que não fizessem mais isso – disse ele em voz baixa, quase para si mesmo.
– Ora, eles não podem ter duas pessoas idênticas andando por aí! Imagine só que confusão
não seria! – riu Jonas. – Tinha vontade de poder assistir – acrescentou, depois de refletir.
Agradava-lhe a ideia de ver seu pai realizar a cerimônia, de deixar o pequeno gêmeo limpo e
confortável. Seu pai era um homem tão bondoso!
– Você pode – disse o Doador.
– Não – objetou Jonas –, as crianças nunca participam. É muito particular.
– Jonas, sei que você leu suas instruções de treinamento com cuidado. Esqueceu que tem
autorização para pedir o que quiser a qualquer pessoa?
Jonas assentiu:
– Sim, mas…
– Jonas, quando o nosso período de treinamento terminar, você vai ser o novo Recebedor.
Vai poder ler os livros; terá as lembranças. Terá acesso a tudo. É parte de seu treinamento. Se
tem vontade de assistir a uma dispensa, é só pedir.
Jonas deu de ombros.
– Bem, já que é assim, eu quero. Mas não dá mais tempo de assistir a essa. Tenho certeza de
que iria ser esta manhã.
O Doador lhe contou, então, algo que ele não sabia.
– Todas as cerimônias particulares são gravadas. Ficam guardadas na Seção dos Registros
Fechados. Quer assistir à dispensa desta manhã?
Jonas hesitou. Receava que seu pai se aborrecesse, caso ele assistisse a algo tão particular.
– Acho que você deveria – disse-lhe o Doador com firmeza.
– Está bem, então – respondeu Jonas. – Diga-me como.
O Doador se levantou de sua cadeira, dirigiu-se ao equipamento na parede e virou o botão
de DESLIGADO para LIGADO.
Uma voz falou imediatamente:
– Sim, Recebedor. Em que posso ajudá-lo?
– Gostaria de assistir à dispensa desta manhã, a do gêmeo.
– Um momento, Recebedor. Obrigada por suas instruções.
Jonas fitou a tela de vídeo acima da fileira de botões; viu surgirem linhas tremulantes em
zigue-zague na superfície antes apagada; depois, alguns números, seguidos de data e de hora.
Espantado e ao mesmo tempo encantado, surpreendia-se por não ter sabido antes que tinha
acesso àquele recurso.
Num segundo viu um pequeno aposento sem janelas, vazio, a não ser por uma cama, uma
mesa com um aparelho em cima – Jonas reconheceu uma balança, que já tinha visto antes,
quando fizera trabalho voluntário no Centro de Criação – e um armário. Um tapete claro
cobria o chão.
– É um quarto comum – comentou ele. – Acho que deviam usar o Auditório, para que todo
mundo pudesse assistir. Todos os Idosos comparecem às Cerimônias de Dispensa. Mas
imagino que quando se trata de um recém-nascido eles não…
– Psiu – disse o Doador, com os olhos fixos na tela.
O pai de Jonas, em seu uniforme de trabalho, entrou no quarto carregando nos braços uma
criança-nova minúscula embrulhada num cobertor macio. Uma mulher uniformizada entrou
atrás dele carregando uma segunda criança-nova envolta num cobertor parecido.
– É meu pai – Jonas deu por si sussurrando, como se pudesse acordar os pequenos se
falasse em voz alta. – E a outra Criadora é a assistente dele. Ainda está em treinamento, mas
vai terminar em breve.
Os dois Criadores tiraram os cobertores e deitaram os recém-nascidos idênticos na cama.
Estavam nus. Jonas viu que eram meninos.
Jonas viu, fascinado, seu pai levá-los delicadamente para a balança e pesá-los.
Ouviu seu pai rir.
– Ótimo – disse ele para a mulher. – Quase cheguei a pensar que pudessem ter exatamente o
mesmo peso. Então teríamos um problema. Mas este aqui – e entregou um deles à sua
assistente, depois de voltar a embrulhá-lo – tem 2,7kg exatos. Portanto, pode limpá-lo, vestilo
e levá-lo para o Centro.
A mulher pegou a criança-nova e saiu pela mesma porta por onde tinha entrado.
Jonas olhou seu pai curvar-se para o pequeno que esperneava na cama.
– Quanto a você, rapazinho, você tem apenas 2,3kg. Um pinguinho!
– Essa é a vozinha que ele usa para falar com Gabriel – observou Jonas sorrindo.
– Olhe – disse o Doador.
– Agora vai limpá-lo e deixá-lo confortável – disse-lhe Jonas. – Ele já me contou.
– Cale a boca, Jonas – ordenou o Doador. – Olhe.
Obediente, Jonas se concentrou na tela, esperando para ver o que aconteceria em seguida.
Estava especialmente curioso para assistir à parte que se referia à cerimônia.
Seu pai se virou e abriu o armário. Tirou de lá uma seringa e um pequeno frasco. Com
cuidado, enfiou a agulha no frasco e começou a encher a seringa com um líquido claro.
Jonas se encolheu, num gesto de compreensão e simpatia. Esquecera que as crianças-novas
tinham de tomar injeções. Ele detestava injeções, apesar de saber que eram necessárias.
Para sua surpresa, seu pai direcionou a agulha cautelosamente para o alto da testa da
criança, espetando o ponto onde se via uma pulsação sob a pele frágil. O recém-nascido se
contorceu e choramingou fracamente.
– Por que ele…
– Psiu! – fez o Doador, áspero.
Seu pai estava falando, e Jonas se deu conta de que escutava a resposta para a pergunta que
havia começado a fazer.
– Eu sei que dói, rapazinho. Mas tenho de pegar uma veia, e as dos seus braços ainda são
muito miudinhas.
Pressionou o êmbolo bem devagar, injetando o líquido na veia da cabeça até esvaziar a
seringa.
– Pronto. Até que não foi tão mal assim, hein? – Jonas escutou seu pai dizer em tom jovial e
o viu virar-se de lado e jogar a seringa num recipiente de lixo.
Agora ele vai limpá-lo e deixá-lo confortável, disse Jonas para si mesmo, consciente de
que o Doador não queria conversar durante a pequena cerimônia.
Enquanto ele continuava a olhar, a criança-nova, sem chorar mais, mexeu os braços e pernas
num movimento convulsivo. Depois, seu corpo amoleceu. A cabeça tombou para um lado, com
os olhos entreabertos. E ficou parado.
Com uma estranha sensação de choque, Jonas reconheceu os gestos, a pose, a expressão.
Eram familiares. Já os vira antes. Só não se lembrava onde.
Jonas não tirava os olhos da tela, esperando que alguma coisa acontecesse. Mas nada
aconteceu. O pequeno gêmeo jazia imóvel. Seu pai estava guardando coisas. Dobrando o
cobertor. Fechando o armário.
Mais uma vez teve a sensação de sufocar, a mesma que o acometera no campo de jogos. De
novo viu o rosto do soldado de cabelo claro, todo ensanguentado, enquanto a vida lhe fugia
dos olhos. A lembrança voltou.
Ele o matou! Meu pai o matou!, Jonas disse em seu íntimo, atordoado com o que estava
presenciando. Continuou com os olhos fixos na tela, entorpecido.
Seu pai arrumou o quarto. Depois apanhou uma pequena caixa de papelão que estava no
chão, pousou-a em cima da cama e colocou o corpo inerte dentro dela. Fechou a tampa,
ajustando-a bem.
Pegou a caixa e levou-a para o outro lado do quarto. Abriu uma portinhola na parede; Jonas
viu escuridão por trás da abertura. Parecia uma calha de escoamento igual à de se jogar lixo
na escola.
Seu pai pôs na calha a caixa que continha o corpo e deu-lhe um empurrão.
– Adeusinho, pequeno – Jonas ouviu seu pai dizer antes de sair do quarto. E a tela se
apagou.
O Doador virou-se para ele. Com bastante calma, contou:
– Quando o Locutor me informou que Rosemary solicitara dispensa, eles ligaram a gravação
para me mostrar o processo. Lá estava ela esperando. – Foi minha última visão daquela linda
criança. Trouxeram a seringa e disseram-lhe para levantar a manga. Você insinuou, Jonas, que
talvez ela não fosse corajosa o suficiente? Não entendo de coragem: o que é, o que significa.
O que sei é que fiquei sentado aqui paralisado de horror. Miseravelmente infeliz de tanta
impotência. E escutei Rosemary dizer a eles que preferia aplicar a injeção em si mesma. E
assim o fez. Não olhei. Desviei o rosto.
O Doador olhou para Jonas.
– Muito bem, Jonas, aí está. Você estava conjeturando sobre dispensa – disse, a voz cheia
de amargura.
Jonas sentiu que algo se dilacerava dentro dele, uma dor terrível que abria caminho com
suas garras para emergir num grito.

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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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