quinta-feira, 23 de julho de 2015

9


Pela primeira vez em seus 12 anos de vida, Jonas se sentiu deslocado, diferente. Lembrou o
que a Anciã-Chefe dissera: faria seu treinamento sozinho e isolado dos outros.
Mas seu treinamento nem começara e, saindo do Auditório, ele já sentia o distanciamento.
Segurando a pasta que ela lhe dera, abriu caminho através da multidão, procurando por sua
unidade familiar e por Asher. As pessoas se afastavam para deixá-lo passar. Acompanhavamno
com os olhos. Pensou ouvir cochichos.
– Ash! – chamou, avistando o amigo perto das bicicletas enfileiradas. – Vamos voltar
juntos?
– Claro. – Asher deu seu sorriso de sempre, familiar e amigável. Mas Jonas captou um
momento de hesitação em seu amigo, uma incerteza.
– Parabéns! – disse Asher.
– Para você também – replicou Jonas. – Foi engraçado quando ela falou da troca de
palavras. Você foi praticamente o mais aplaudido de todos.
Os outros novos Dozes estavam reunidos ali por perto, guardando com cuidado suas pastas
no bagageiro das bicicletas. Naquela noite, em todas as residências, as instruções para o
início do treinamento seriam estudadas. A cada noite, durante anos, as crianças memorizariam
as lições da escola, muitas vezes bocejando de tédio. Nessa, porém, elas começariam
diligentemente a memorizar as regras de suas Atribuições adultas.
– Parabéns, Asher! – alguém disse. E em seguida, com aquela mesma hesitação outra vez: –
Para você também, Jonas!
Asher e Jonas parabenizaram, em retorno, seus companheiros de grupo. Jonas viu seus pais
olhando para ele do local onde tinham deixado suas bicicletas. Lily já havia sido instalada em
sua cadeirinha.
Ele acenou. Os pais acenaram de volta, sorrindo, mas ele reparou que Lily o observava com
ar sério, o dedo polegar enfiado na boca.
Jonas pedalou direto para casa, trocando apenas piadinhas e observações sem importância
com Asher.
– Até amanhã, Diretor de Recreação! – despediu-se, parando a bicicleta diante de sua porta.
– Combinado! Até amanhã! – respondeu Asher. E mais uma vez houve um breve instante em
que as coisas não foram bem as mesmas, não foram como sempre tinham sido durante a longa
amizade. Talvez fosse imaginação. Nada podia mudar com relação a Asher.
A refeição da noite foi mais silenciosa do que de costume. Lily tagarelou sobre seus planos
para o trabalho voluntário: pretendia começar, contou ela, no Centro de Criação, pois já se
tornara uma especialista em dar comida a Gabriel.
– Já sei – acrescentou Lily mais do que depressa quando seu pai lhe lançou um olhar de
advertência –, não vou mencionar o nome dele. Para todos os efeitos, não sei como ele se
chama. Mal posso esperar pelo dia de amanhã – disse em seguida, feliz da vida.
Jonas suspirou, inquieto.
– Pois eu posso – murmurou.
– Você recebeu uma grande honraria – comentou sua mãe. – Seu pai e eu estamos muito
orgulhosos.
– É o cargo mais importante da comunidade – reforçou seu pai.
– Mas, no outro dia mesmo, você disse que o cargo de quem escolhe as Atribuições era o
mais importante!
A Mãe assentiu.
– Esse é diferente. Não se trata de um cargo, de fato. Nunca pensei, nunca imaginei… – ela
fez uma pausa. – Existe apenas um Recebedor.
– Mas a Anciã-Chefe disse que tinham escolhido uma pessoa antes e que a escolha foi um
fracasso. O que aconteceu?
Os pais hesitaram. Então seu pai contou como havia sido a escolha anterior.
– Foi muito parecida com a de hoje, Jonas. O mesmo suspense, quando ela pulou um Onze
ao dar as Atribuições. Por fim houve a proclamação oficial, quando indicaram a pessoa…
Jonas o interrompeu:
– Como ele se chamava?
A Mãe respondeu:
– Ela, não ele. Era uma menina. Mas nunca mais podemos pronunciar seu nome nem usá-lo
outra vez numa criança-nova.
Jonas ficou muito impressionado. Um nome designado como Impronunciável constituía uma
desonra do mais alto grau.
– O que aconteceu com ela? – perguntou ele, nervoso.
Mas seus pais o olharam com ar inexpressivo.
– Não sabemos – disse o Pai, embaraçado. – Nunca mais a vimos.
Um pesado silêncio tomou conta do ambiente. Eles se entreolharam. Por fim, sua mãe se
levantou da mesa e repetiu:
– Você recebeu uma grande honraria, Jonas. Uma grande honraria.
                                                               ...
Sozinho em seu dormitório, pronto para se deitar, Jonas abriu finalmente sua pasta. Notara que
alguns dos outros Dozes haviam recebido pastas recheadas de papéis impressos. Visualizava
Benjamim, o cientista de seu grupo, começando a ler, deliciado, páginas de regras e
instruções. Imaginou Fiona sorrindo seu sorriso meigo, curvada sobre as listas de obrigações
e métodos que precisaria aprender dali em diante.
Mas sua pasta, espantosamente, estava quase vazia. Dentro dela havia apenas uma única
folha de papel impressa. Ele a leu duas vezes seguidas.
JONAS
RECEBEDOR DE MEMÓRIA
1. Todos os dias, ao final do horário escolar, dirija-se à entrada do prédio Anexo atrás da
Casa dos Idosos e apresente-se ao atendente.
2. Volte imediatamente para a sua residência após a conclusão do Horário de
Treinamento, todos os dias.
3. A partir deste momento você está isento da obediência às regras referentes à
descortesia. Poderá fazer qualquer pergunta a qualquer cidadão e receberá respostas.
4. Não converse sobre seu treinamento com nenhum outro membro da comunidade,
inclusive pais e Anciãos.
5. A partir deste momento você está proibido de relatar seus sonhos.
6. Com exceção de casos de doença ou ferimentos não relacionados com seu treinamento,
não solicite nenhum remédio.
7. Você está proibido de solicitar dispensa.
8. Você pode mentir.
Jonas ficou perplexo. O que aconteceria com suas amizades? Com suas horas
despreocupadas jogando bola, andando de bicicleta ao longo do rio? Aqueles haviam sido
momentos felizes e vitais para ele. Seriam completamente tirados dele agora? As instruções
logísticas simples – aonde ir e quando – eram esperadas. Todos os Dozes tinham de ser
informados, é claro, sobre o local e a hora em que deveriam se apresentar para o treinamento.
O que o desanimava era o seu programa aparentemente não deixar nenhum tempo livre para
recreação.
A desobrigação da cortesia o deixou pasmo. Lendo-a outra vez, porém, percebeu que a
instrução não o impelia a ser descortês, simplesmente lhe permitia optar. Tinha quase certeza
de que jamais se aproveitaria daquilo. Estava de tal maneira acostumado à cortesia dentro da
comunidade que a ideia de fazer uma pergunta indiscreta a um cidadão ou de chamar a atenção
de alguém para um assunto embaraçoso era assustadora.
A proibição de relatar os sonhos, refletiu, não seria problema. Sonhava tão raramente que o
processo de contar sonhos não costumava ser fácil para ele; ficou contente por estar liberado
daquela necessidade. Por alguns instantes, entretanto, ponderou como agir durante a refeição
da manhã. E se por acaso sonhasse? Deveria dizer à sua unidade familiar, como fazia com
frequência, que não tinha sonhado? Isso constituiria uma mentira. De qualquer forma, a regra
final dizia… bem, ainda não estava preparado para pensar na última regra da página.
A restrição aos remédios o aborreceu. Os cidadãos sempre tinham remédios à disposição;
até as crianças, através dos pais. Quando esmagara o dedo na porta, mais que depressa
avisara à Mãe, a voz arquejando no alto-falante; ela requisitara depressa um medicamento de
alívio à dor, que fora prontamente entregue em sua residência. Num instante, a dor excruciante
em sua mão reduzira-se a um mero latejar, a única coisa de que ele se recordava da
experiência. Relendo a regra número 6, deu-se conta de que um dedo esmagado caía na
categoria de “não relacionados com o treinamento”. Portanto, se acontecesse outra vez – o que
ele tinha quase certeza de que não aconteceria, pois passara a ter muito cuidado com portas
pesadas desde o acidente! –, ele poderia ser medicado.
A pílula que tomava agora todas as manhãs também não estava relacionada ao treinamento.
De modo que continuaria a recebê-la.
Mas lembrou com apreensão o que a Anciã-Chefe dissera sobre a dor que sentiria durante o
treinamento. Ela a definira como sendo indescritível.
Jonas engoliu em seco, tentando sem sucesso imaginar como poderia ser uma dor assim, sem
tomar remédio nenhum. Aquilo, porém, estava além de sua compreensão.
A regra número 7 não lhe causou nenhuma reação. Jamais lhe ocorrera que, sob qualquer
circunstância, qualquer que fosse, ele pudesse solicitar dispensa.
Finalmente encheu-se de coragem para ler de novo a última regra. Havia sido treinado
desde a mais tenra infância, desde que começara a aprender a falar, a nunca mentir. Isso era
parte integrante do aprendizado da precisão da linguagem. Certa vez, quando era um Quatro,
dissera, pouco antes da refeição do meio-dia na escola: “Estou morrendo de fome.”
Imediatamente fora chamado a um canto para uma breve aula particular de precisão da fala.
Ele não estava morrendo de fome, explicaram-lhe. Ele estava com fome. Ninguém na
comunidade morria de fome, nunca estava morrendo de fome, jamais morreria de fome. Dizer
“morrer de fome” era falar uma mentira. Mentira involuntária, claro. Mas a razão da exigência
de precisão de linguagem era garantir que mentiras involuntárias jamais fossem ditas.
Entendeu isso? – perguntaram-lhe. E ele entendera.
Nunca na vida, que se lembrasse, tivera a tentação de mentir. Asher não mentia. Lily não
mentia. Seus pais não mentiam. Ninguém mentia. A não ser que…
E naquele momento veio à cabeça de Jonas um pensamento que jamais lhe ocorrera antes.
Esse pensamento novo era assustador. E se os outros – os adultos –, ao se tornarem Dozes,
recebessem nas instruções deles a mesma frase apavorante? E se todos tivessem recebido a
instrução Você pode mentir?
Sua mente girou. Agora, autorizado a fazer perguntas da maior descortesia – e receber
respostas –, ele poderia, supostamente (embora fosse algo quase inimaginável), perguntar a
alguém, a algum adulto, seu pai, talvez: “Você mente?”
Mas não teria como saber se a resposta seria verdade.
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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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