Sei que isso soa como coisa de adolescente sonhadora, mas tenho vigiado o humor de Nick.
Em relação a mim. Só para ter certeza de que não estou maluca. Tenho um calendário, e coloco
corações nos dias em que Nick parece me amar outra vez, e quadrados negros nos outros. O ano
passado foi todo de quadrados negros, basicamente.
Mas agora? Nove dias de corações. Seguidos. Talvez ele só precisasse saber quanto eu o
amo e quão infeliz eu me tornara. Talvez ele tenha tido uma mudança de atitude. Nunca gostei
tanto de uma expressão.
Teste: Após mais de um ano de frieza, seu marido de repente parece amá-la novamente.
Você:
a) Não para de falar sobre quanto ele a magoou para que ele possa se desculpar um pouco mais.
b) Continua dando um gelo nele por um tempo — para que ele aprenda a lição!
c) Não o pressiona a respeito de sua nova atitude — sabe que ele se abrirá com você no momento certo, e, enquanto isso, o
cobre de afeto para que se sinta seguro e amado, pois é assim que essa coisa de casamento funciona.
d) Exige saber o que deu errado; exige que ele fale sobre isso de modo a acalmar as próprias neuroses.
Resposta: C
Em agosto, eu não poderia suportar mais quadrados negros, mas não, são apenas corações,
Nick agindo como meu marido, doce, amoroso e brincalhão. Ele encomenda para mim chocolates
da minha loja preferida em Nova York como presente, e escreve um poema bobo para
acompanhá-los. Um poeminha curto e engraçado, na verdade:
Um dia houve uma garota de Manhattan
Que só dormia em lençóis de cetim
Seu marido escorregava e deslizava
O corpo deles se chocava
Então eles faziam algo sujo em latim.
Seria mais engraçado se nossa vida sexual fosse tão despreocupada quanto a rima sugeria.
Mas semana passada nós... Trepamos? Transamos? Algo mais romântico que fodemos, porém
menos piegas que fizemos amor. Ele voltou para casa do trabalho, me beijou em cheio na boca e
me tocou como se eu realmente estivesse ali. Eu quase chorei, de tão sozinha que estivera. Ser
beijada na boca pelo seu marido é a coisa mais indecente.
O que mais? Ele me leva para nadar no mesmo lago ao qual vai desde que era criança. Eu
posso imaginar o pequeno Nick correndo loucamente, rosto e ombros vermelhos de sol porque
(exatamente como agora) ele se recusa a usar filtro solar, obrigando Mama Mo a correr atrás
dele com um creme que passa sempre que consegue alcançá-lo.
Ele tem me levado a uma excursão completa por todos os seus esconderijos de menino, como
peço há séculos. Ele me leva à beira do rio, me beija enquanto o vento açoita meus cabelos (“As
duas coisas no mundo para as quais eu mais gosto de olhar”, sussurra em meu ouvido). Ele me
beija em um pequeno forte de brinquedo engraçado que um dia considerou seu próprio clube
(“Sempre quis trazer uma garota aqui, uma garota perfeita, e olhe só para mim agora”, sussurra
em meu ouvido). Dois dias antes de o shopping fechar de vez, andamos nos coelhos do carrossel
lado a lado, nosso riso ecoando pelos quilômetros vazios.
Ele me leva para tomar um sundae em sua sorveteria preferida, e temos o lugar só para nós de
manhã, o ar pegajoso de doces. Ele me beija e diz que foi naquele lugar que ele gaguejou e sofreu
em tantos encontros, e gostaria de poder dizer a ele mesmo no ensino médio que um dia estaria
ali de volta com a garota dos seus sonhos. Tomamos sorvete até termos de rolar até em casa e
entrar sob as cobertas. A mão dele em minha barriga, um cochilo acidental.
A neurótica em mim, claro, está perguntando: qual é o porém? A reviravolta de Nick é tão
repentina e grandiosa que dá a sensação de que... dá a sensação de que ele quer alguma coisa. Ou
já fez algo e está sendo preventivamente gentil para quando eu descobrir. Eu me preocupo. Eu o
flagrei semana passada folheando minha grande caixa de arquivo marcada OS DUNNE! (escrito
com minha melhor letra cursiva em dias mais felizes), uma caixa cheia da estranha papelada que
forma um casamento, uma vida conjunta. Eu me preocupo que ele vá me pedir uma segunda
hipoteca sobre O Bar, ou um empréstimo tendo como garantia nossa apólice de seguro, ou para
vender algumas daquelas ações que-não-podem-ser-tocadas-antes-de-trinta-anos. Ele disse que
só queria ter certeza de que tudo estava em ordem, mas disse isso nervoso. Meu coração ficaria
partido se, no meio de uma colherada de sorvete sabor chiclete, ele se virasse para mim e
dissesse: Sabe, a coisa interessante sobre uma segunda hipoteca é...
Tive de escrever isso, tive de botar para fora. E só de ver, sei que parece maluquice. Parece
neurótico, inseguro e suspeito.
Não vou deixar o pior de mim arruinar meu casamento. Meu marido me ama. Ele me ama,
voltou para mim e por isso está me tratando tão bem. É a única razão.
Apenas isso. Eis minha vida. Ela finalmente voltou.

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