sábado, 8 de agosto de 2015

CAPÍTULO IV


Como somos volúveis! Eu, que resolvera manter-me afastado de todo
contato com pessoas e agradecer aos céus ter, por fim, descoberto um lugar
onde poderia viver como um ermitão — eu, pobre-diabo, após lutar até o
anoitecer com o desânimo e a solidão, fui finalmente compelido a pedir
trégua; e, sob o pretexto de obter informações acerca das coisas necessárias
para me instalar, pedi à Sra. Dean, quando ela subiu com o jantar, que me fizesse companhia enquanto eu comia na esperança de que ela gostasse de falar e me animasse ou — ao contrário — me ninasse com a sua conversa.
— A senhora vive aqui há bastante tempo, não é? — comecei. —
Dezesseis anos, não foi o que me disse?
— Dezoito — corrigiu ela. — Vim para cá quando a patroa casou, e
depois que ela morreu o patrão conservou-me como governanta.
— Ah, sim?
Seguiu-se uma pausa. Receei que ela não fosse conversadeira — a não
ser a respeito da sua vida, o que não me interessava. Contudo, após um
intervalo de meditação, com as mãos nos joelhos e uma expressão pensativa
no rosto vermelho, exclamou:
— As coisas mudaram muito, deste então!
— Sem dúvida a senhora testemunhou muitas alterações, não?
— Muitas. . . Algumas, bem desagradáveis — respondeu ela.
Vou fazer a conversa descambar para a família do meu senhorio!",
pensei com os meus botões. "Um bom assunto, para começar. . . e gostaria de conhecer a história daquela bonita viuvinha: se ela é natural da região ou, o
que é mais provável, uma forasteira que os rudes nativos não reconhecem
como parente." Com esse intuito, perguntei à Sra. Dean por que razão
Heathcliff alugara a Granja Thrushcross e preferia viver numa residência tão
inferior.
— Não tem dinheiro suficiente para conservar a propriedade como
deve ser? — perguntei.
— Dinheiro! — retrucou ela. — Tem mais dinheiro do que se pode
contar, e todos os anos aumenta. O dinheiro dele dava para viver numa casa
muito melhor do que esta; mas ele é muito agarrado. . . avarento, mesmo; e,
mesmo que tivesse pensado em mudar-se para a Granja Thrushcross, tão logo
soubesse de um bom inquilino não perderia a oportunidade de ganhar mais
um dinheiro. É estranho que certas pessoas sejam tão ambiciosas, quando não
têm ninguém no mundo!
— Mas ele teve um filho, não teve?
— Teve. . . mas esse filho morreu.
— E a jovem Sra. Heathcliff, é a viúva?
— É.
— De onde veio ela?
— Bem, ela é filha do meu falecido patrão: Catherine Linton era o seu
nome de solteira. Eu a criei, pobrezinha! Bem que eu gostava de que o Sr.
Heathcliff se mudasse para cá, para podermos viver outra vez juntas sob o
mesmo teto.

— Como?! Catherine Linton? — repeti, espantado. Mas um minuto de
reflexão convenceu-me de que não se tratava da minha fantasmagórica
Catherine. — Quer dizer
— continuei — que o nome do meu predecessor era Linton?
— Era, sim, senhor.
— E quem é esse Earnshaw. . . Hareton Earnshaw, que mora com o
Sr. Heathcliff? São parentes?
— Não. Ele é sobrinho da falecida Sra. Linton.
— Primo da jovem, portanto?
— Isso mesmo; e o marido também era primo dela. Um por parte da
mãe, outro por parte do pai: Heathcliff casou com a irmã do Sr. Linton.
— Observei que a casa do Morro dos Ventos Uivantes tem o nome de
Earnshaw esculpido sobre a porta principal. Trata-se de uma família antiga?
— Muito antiga. E Hareton é o último representante da família, assim
como a nossa Cathy é a última representante da nossa família. . . isto é, dos
Linton. O senhor esteve no Morro dos Ventos Uivantes? Desculpe perguntar,
mas gostaria de saber como ela está!
— A Sra. Heathcliff? Pareceu-me estar muito bem e muito bonita,
embora não me parecesse muito feliz.
— Oh, isso não me espanta! E que é que o senhor achou do patrão?
— Achei-o duro, Sra. Dean. Será esse o seu caráter?
— Duro é pouco, Sr. Lockwood. Quanto menos o senhor lidar com
ele, melhor.
— Deve ter sofrido um bocado, para ter ficado assim. A senhora sabe
algo a respeito dele?

— Sei tudo. . . exceto onde ele nasceu e quem eram seus pais e como
foi que ficou rico. Hareton é que ficou sem nada! O pobre rapaz é a única
pessoa desta paróquia que não desconfia de como foi espoliado.
— Bem, Sra. Dean, seria um ato de caridade se a senhora me contasse
alguma coisa a respeito dos meus vizinhos; sinto que não conseguirei dormir
se for para a cama, por isso peço-lhe que se sente para conversar um pouco
comigo.
— Muito bem, meu senhor! Vou buscar a minha costura e depois
ficarei o tempo que o senhor quiser. Mas vejo que já pegou um resfriado. Vou
fazer um bom mingau para curá-lo.
A boa mulher saiu do quarto e eu me aproximei mais do fogo; sentia a
cabeça quente e o resto do corpo frio; além do mais, meus nervos e cérebro
eram presa de uma excitação quase febril. Não me sentia propriamente mal,
mas temeroso (como ainda estou) de sérios efeitos causados pelos incidentes
daqueles dois dias. A Sra. Dean não demorou a voltar, trazendo uma caçarola
fumegante e um cesto de costura; e, após ter colocado a caçarola na beira da
lareira, puxou a cadeira para a frente, visivelmente satisfeita de me ver tão
sociável.
Antes de eu vir para cá — começou ela, sem esperar mais convites para
iniciar a sua história — eu estava quase sempre no Morro dos Ventos
Uivantes. Minha mãe criara o Sr. Hindley Earnshaw, pai de Hareton, e eu me
acostumara a brincar com as crianças. Também dava recados e ajudava a preparar o feno ou qualquer outro serviço que me dessem. Uma bela manhã de verão (era no princípio da colheita, bem me lembro), o Sr. Earnshaw, que
então era o patrão, desceu a escada vestido para viajar; e, depois de ter dito a
Joseph o que tinha de fazer naquele dia, voltou-se para Hindley, para Cathy e
para mim (pois eu estava comendo o meu mingau com eles), e disse, dirigindo-se
ao filho: — Vou a Liverpool, que é que você quer que eu lhe traga?
Pode escolher o que quiser, sob a condição de que seja uma coisa pequena,
porque irei e voltarei a pé: sessenta milhas cada trajeto é bem puxado! —
Hindley disse que queria uma rabeca e o patrão perguntou a Cathy o que ela
queria. A menina tinha apenas seis anos, mas montava qualquer cavalo e
pediu um chicote. Ele não se esqueceu de mim: tinha bom coração, embora
às vezes fosse muito severo. Prometeu trazer-me um saco de peras e maçãs.
Beijou os filhos, despediu-se de mim e partiu.
Pareceram-nos muito tempo os três dias em que ele esteve ausente, e a
pequena Cathy não se cansava de perguntar quando é que o pai viria. A Sra.
Earnshaw esperava-o para a hora do jantar do terceiro dia e foi adiando a
refeição. Mas nada de ele chegar; as crianças já estavam cansadas de correr
para o portão para ver se o viam. Não tardou que escurecesse. Ela queria pôr
os filhos na cama, mas eles lhe suplicaram que os deixasse esperar o pai; e,
pouco antes das onze horas, a porta principal abriu-se sem barulho e o patrão
entrou. Jogou-se numa cadeira, rindo e gemendo, e pediu que o deixassem,
pois estava mais morto do que vivo — nunca mais faria aquela caminhada,
nem que o rei lhe pedisse isso.
— Ainda por cima, estou morto com o carregamento que trouxe —
disse, abrindo o capote, que trazia, como um fardo, nos braços. — Veja só, mulher! Nunca vi coisa igual; mas você tem de encará-lo como uma dádiva do
Senhor, embora seja tão escuro que mais pareça vir do Diabo.
Juntamo-nos à volta dele e, espiando por cima da cabeça de Cathy, vi
um garoto de cabelos pretos, sujo e esfarrapado. Era suficientemente grande
para andar e falar e, pelo rosto, parecia até mais velho do que Catherine; mas,
quando o puseram de pé, limitou-se a olhar em roda e a repetir, sem parar,
uma algaravia que ninguém conseguia entender. Senti medo e a Sra. Earnshaw
dava a impressão de que ia jogá-lo pela janela; ficou furiosa, perguntando ao
marido que idéia fora aquela de trazer um ciganinho para casa, quando já
tinham filhos para cuidar e alimentar. Acaso teria ele enlouquecido? O patrão
tentou explicar o que acontecera; mas estava semimorto de cansaço, e tudo o
que pude entender, por entre os ralhos dela, foi que ele o encontrara
perambulando pelas ruas de Liverpool, faminto e sem casa. Pegara-o ao colo
e perguntara de quem ele era. Ninguém lhe soubera dizer quem eram os pais,
e, como ele tivesse pouco dinheiro e pouco tempo, achara melhor levá-lo logo
para casa, pois estava resolvido a não o deixar abandonado. Bem, por fim a
minha patroa foi se acalmando, e o Sr. Earnshaw disse-me que lavasse a
criança e lhe desse roupa limpa, fazendo-o dormir depois junto com os filhos.
Hindley e Cathy contentaram-se com olhar e ouvir até, a paz ser
restaurada. Depois, ambos começaram a procurar, nos bolsos do pai, os
presentes que ele lhes prometera. Hindley era um garoto de catorze anos, mas
quando viu que a rabeca se estilhaçara toda, no bolso do capote, largou num
berreiro; e Cathy, ao ver que o pai perdera o chicote ao pegar no ciganinho,
pôs-se a cuspir para o menino, ganhando uma bofetada do pai pelas más
maneiras. Ambos se recusaram a partilhar a cama com o recém-chegado, ou mesmo o quarto, e eu não tive mais idéia do que pô-lo no alto da escada,
esperando já não encontrá-lo de manhã. Por acaso, ou então atraído pela sua
voz, o garoto encostou-se à porta do Sr. Earnshaw, onde ele o encontrou de
manhã, ao sair do quarto. Perguntou quem o tinha deixado de fora; fui
obrigada a confessar e, como paga pela minha covardia e desumanidade,
expulsaram-me da casa.
 Aquela foi a primeira apresentação de Heathcliff à família. Ao voltar,
alguns dias depois (pois não me considerei definitivamente banida), fiquei
sabendo que o tinham batizado de Heathcliff. Era o nome de um filho que
morrera pequenino, e que desde então lhe serviu tanto de nome como de
sobrenome. Cathy e ele já eram bons amigos, mas Hindley odiava-o e, para
dizer a verdade, eu também o detestava; ambos o atormentávamos vergonhosamente:
eu ainda não tinha entendimento suficiente para perceber a minha
injustiça, e a Sra. Earnshaw nunca o defendia nem interferia a favor dele.
Era uma criança taciturna e paciente, talvez endurecida pelos maustratos:
agüentava as pancadas de Hindley sem pestanejar ou derramar uma
lágrima, e os meus beliscões só o faziam assumir um ar de espanto, como se
se houvesse machucado acidentalmente e ninguém tivesse culpa disso. Esse
estoicismo enfureceu o velho Earnshaw, quando ele descobriu que o filho
perseguia o pobre órfão, como lhe chamava. Apegou-se estranhamente a
Heathcliff, acreditando em tudo quanto ele dizia (aliás, ele falava muito pouco
e geralmente dizia a verdade) e mimando-o muito mais do que a Cathy, que
era demasiado levada e desobediente para ser a favorita do pai.
Assim, desde o princípio, ele granjeou ódios na casa, e quando a Sra.
Earnshaw morreu, o que ocorreu menos de dois anos depois, o jovem patrão aprendera a olhar o pai como opressor, em vez de amigo, e Heathcliff como
um usurpador do afeto do pai e dos seus próprios privilégios. Tudo isso fez
com que ele fosse ficando amargurado e rancoroso. Eu lhe dava razão; mas,
quando as crianças adoeceram com sarampo e eu tive de cuidar delas,
transformando-me, de uma hora para a outra, em mulher, mudei de idéia.
Heathcliff esteve entre a vida e a morte e, quando se sentia pior, não queria
que eu saísse do seu lado. Via que eu cuidava dele e não podia perceber que o
fazia por obrigação. Contudo, a bem da verdade, devo dizer que não poderia
haver criança que menos trabalho desse. A diferença entre ele e os outros
forçou-me a ser menos parcial. Cathy e seu irmão não me deixavam em paz;
ele, porém, nunca se queixava, embora não fosse por mansidão, e sim por
estoicismo.
Conseguiu salvar-se, e o médico afirmou ter sido eu, em grande parte, a
responsável. Senti-me lisonjeada e inclinei-me para o ser que me fizera
receber tantos elogios, perdendo Hindley a sua última aliada. Mas, apesar
disso, eu não podia simpatizar com Heathcliff e não entendia o que meu
patrão via naquele garoto taciturno, que nunca, ao que me lembre, lhe
mostrou gratidão. Não era insolente para com o seu benfeitor; apenas
insensível, mesmo sabendo perfeitamente bem que ocupava um lugar especial
no seu coração e tendo consciência de que bastava falar, para que toda a casa
se tivesse que dobrar aos seus caprichos. Como exemplo, lembro-me de uma
vez em que o Sr. Earnshaw comprara um par de potros na feira local e dera
um a cada um dos rapazes. Heathcliff escolheu o mais bonito, mas, ao ver que
mancava, disse a Hindley:

— Você tem de trocar de cavalo comigo; não gosto do meu. Se você
não fizer isso contarei a seu pai que você me deu três surras esta semana e
mostro-lhe o meu braço, que está todo preto até o ombro. — Hindley
mostrou-lhe a língua e deu-lhe um bofetão nas orelhas. — É melhor você
fazer logo o que eu lhe digo — persistiu Heathcliff, correndo para a varanda
(estavam na cavalariça). — Você vai ter que obedecer de qualquer jeito. Se eu
falar das surras, você vai recebê-las em dobro. — Fora, cachorro! — gritou
Hindley, ameaçando-o com uma balança de ferro, que usávamos para pesar
batatas e feno.
— Jogue-a — replicou Heathcliff, sem pestanejar —, que eu contarei
que você disse que me expulsaria desta casa assim que o seu pai morresse!
Veremos se não é você que é logo expulso! — Hindley jogou a balança e
acertou-lhe no peito, fazendo-o cair, mas Heathcliff logo se levantou,
arquejante e branco. Não fosse eu intervir, ele teria ido falar com o patrão,
mostrando-lhe o que o filho havia feito e conseguindo, assim, a sua vingança.
— Pode ficar com o meu potro, seu cigano! — disse o jovem Earnshaw.
— Queira Deus que ele lhe parta o pescoço. Fique com ele e vá para o
inferno, seu intrigante. Tire do meu pai tudo o que ele tem, até que ele se
convença do que você e, filho do Diabo! Tome, espero que ele lhe arrebente
os miolos!
Heathcliff fora buscar o potro, a fim de levá-lo para a sua baia. Estava
passando por trás dele, quando Hindley, juntando o gesto à palavra, o
empurrou para debaixo das patas do potro e, sem esperar para ver se o seu
desejo se tinha realizado, fugiu o mais depressa que pôde. Fiquei espantada de
ver o garoto levantar-se e continuar o que estava fazendo. Trocou as selas e depois sentou-se num feixe de feno, para vencer o abalo que o violento
empurrão lhe causara, antes de entrar em casa. Não me foi difícil persuadi-lo a
pôr a culpa das manchas negras no cavalo; pouco lhe importava isso, uma vez
que conseguira o que queria. Na verdade, tão pouco se queixava das pancadas
que recebia que eu julgava não ser ele vingativo. Estava completamente
enganada, como o senhor vai ver.
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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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