quinta-feira, 13 de agosto de 2015

CAPÍTULO XXII


O verão chegou ao fim, dando lugar ao princípio do outono, mas a
colheita estava atrasada aquele ano, e alguns dos nossos campos ainda tinham
gente trabalhando. O Sr. Linton e sua filha iam ver o trabalho e muitas vezes
ficavam até a noitinha. Como o tempo estivesse frio e úmido, o meu amo
apanhou um forte resfriado, que lhe atacou os pulmões, obrigando-o a ficar
todo o inverno confinado ao seu quarto, quase sem sair.
A pobre Cathy, desde o término do seu pequeno romance, perdera
muito da sua alegria e boa disposição, e seu pai insistia para que ela lesse
menos e fizesse mais exercício. Já não tinha a companhia dele e eu achava ser
meu dever substituí-lo, no que fosse possível, com a minha
— substituição pouco satisfatória, pois só podia tirar duas ou três horas
da minhas várias ocupações diárias para acompanhá-la, e a minha companhia
era bem menos apreciada do que a dele.
Numa tarde de outubro ou do começo de novembro
— uma tarde fresca e úmida, em que a grama e os caminhos se cobriam
de folhas secas e molhadas e o céu azul e frio estava semi-escondido pelas
nuvens: enormes nuvens escuras, correndo rapidamente de oeste e
prenunciando chuvas abundantes — pedi à minha jovem ama que desistisse
de sair, pois estava certa de que ia chover. Ela recusou, forçando-me a vestir
uma capa e a pegar no meu guarda-chuva, a fim de acompanhá-la num
passeio até o fundo do parque, um passeio tradicional, que ela geralmente
fazia quando deprimida — como ela estava sempre que o Sr. Linton passava pior do que de costume, coisa que ele nunca dizia, mas que tanto eu como ela
adivinhávamos, pelo seu silêncio e pela melancolia em seu rosto. Cathy
caminhava tristemente: nada de correrias nem saltos, embora o vento frio
pudesse lhe ter dado vontade de correr. De vez em quando, pelo canto do
olho, eu a via levantando a mão e limpando algo da face. Olhei em volta, à
procura de alguma coisa que lhe distraísse o pensamento. A um lado da
estrada havia uma pequena elevação, onde algumas aveleiras e carvalhos
retorcidos, com as raízes meio expostas, a custo se seguravam: o solo era
demasiado solto; os últimos e fortes ventos tinham tornado alguns quase
horizontais. No verão, Catherine adorava subir pelos troncos e sentar-se nos
galhos, balançando-se sete metros acima do chão, enquanto eu, satisfeita de
ver a sua agilidade e o seu espírito ainda infantil, ainda assim achava conveniente
ralhar com ela, por trepar tão alto, embora ela soubesse que não havia
necessidade de descer. Desde o fim do almoço até a hora do chá, ela ficava no
seu berço ninado pela brisa, sem fazer nada a não ser cantar velhas canções
— que eu lhe ensinara —, ou ver os passarinhos alimentando os filhotes e
ensinando-os a voar; ou aninhar-se com as pálpebras cerradas, meio a pensar,
meio a sonhar, numa felicidade inexprimível.
— Veja, senhorita! — exclamei, apontando para um lugar debaixo das
raízes de uma das árvores retorcidas. — O inverno ainda não chegou. Ainda
há uma florzinha, ali, daquelas campânulas que em julho cobriam a relva de
uma colcha lilás. Que tal subir lá e colhê-la, para mostrá-la a seu pai?
Cathy olhou durante algum tempo para a flor solitária, que estremecia ao vento, e por fim respondeu:

— Não, não vou apanhá-la; mas o seu aspecto é melancólico, não é,
Ellen?
— É, sim — falei —, quase tanto como o seu; suas faces estão sem cor;
que tal darmos as mãos e corrermos? Você está tão embaixo que talvez eu
possa acompanhá-la.
— Não — repetiu ela, e continuou a avançar, parando de vez em
quando para contemplar um pedaço de musgo, um tufo de relva ressecada
pelo frio ou um cogumelo que espalhava a sua cor de laranja por entre os
montes de folhagem castanha, e, também de vez em quando, erguendo a mão
ao rosto.
— Catherine, por que é que você está chorando, meu bem? —
perguntei, aproximando-me e pondo-lhe a mão no ombro. — Você não
precisa chorar só porque seu pai tem um resfriado; dê graças a Deus por não
ser algo pior.
Ela não conteve mais as lágrimas; os soluços sufocaram-na.
— Sim, mas vai piorar — chorou ela. — E que será de mim quando
você e papai morrerem e eu ficar sozinha? Não posso esquecer as suas
palavras, Ellen; estão sempre nos meus ouvidos. Como a minha vida vai
mudar, como vai ser horrível o mundo, quando você e papai se forem!
— Ninguém pode garantir que você não morra antes de nós —
repliquei. — Não se devem antecipar desgraças. Devemos é esperar que ainda
faltem muitos anos para o nosso dia: seu pai é jovem, eu sou forte e tenho
apenas quarenta e cinco anos. Minha mãe chegou aos oitenta, cheia de energia até o fim. E se o Sr. Linton viver até os sessenta ainda terá de vida mais do que os anos que você tem agora. Não acha bobagem estar chorando por algo
que talvez só aconteça daqui a vinte anos?
— Mas a tia Isabella era mais jovem do que papai — observou ela,
erguendo os olhos numa esperança tímida de consolação.
— Sua tia não tinha a você nem a mim para tomar conta dela —
respondi. — Não era feliz como o seu pai: não tinha muita coisa que a
prendesse à vida. O que você precisa fazer é cuidar bem do seu pai e animá-
lo, mostrando-se animada. Evite dar-lhe preocupações, sejam quais forem;
lembre-se disso, Cathy! Não duvido de que você pudesse matá-lo de desgosto,
sendo insensata e desobediente, nutrindo um sentimento louco, imaginário,
pelo filho de uma pessoa cujo maior prazer seria vê-lo morto e permitindo-lhe
descobrir que sofreu com a separação que ele achou necessário efetuar.
— Nada me faz sofrer, neste mundo, senão a doença de papai —
respondeu Cathy. — Nada me importa, em comparação com papai. E nunca.
. . nunca, nunca. . . enquanto estiver no meu juízo, farei ou direi algo que lhe
cause preocupação. Amo-o mais do que a mim mesma, Ellen, e tenho a
certeza por isto: todas as noites rezo para que Deus me leve depois dele, pois
prefiro sofrer com a falta dele a ele sofrer com a minha perda. Isso prova que
o amo mais do que a mim mesma.
— Belas palavras — retruquei. — Mas é preciso prová-lo também por
ações. Depois que seu pai ficar bom, não se esqueça das decisões tomadas
num momento de medo.
Enquanto falávamos, aproximamo-nos de uma cancela que se abria
para a estrada; e a minha jovem ama, novamente alegre, subiu por ela e
sentou-se no topo do muro, estendendo os braços para colher uns frutos silvestres, os quais se destacavam, escarlates, nos galhos mais altos das
roseiras bravas que ensombreciam o caminho; os frutos mais baixos tinham
desaparecido, mas só os pássaros podiam alcançar aqueles, ou então Cathy,
no lugar onde se encontrava. Ao estender o braço, porém, o chapéu caiu-lhe
da cabeça; e, como a cancela estivesse trancada, resolveu descer para apanhá-
lo. Pedi-lhe que tomasse cuidado para não cair e ela desapareceu agilmente.
Mas a volta não foi tão fácil: as pedras do muro eram lisas e bem cimentadas e
as roseiras e espinheiros não a ajudavam a subir. Como uma boba, não me
lembrei disso, até que a ouvi rindo e exclamando:
— Ellen, você vai ter de ir buscar a chave da cancela ou eu terei de dar
a volta até a casa do guarda. Não posso subir o muro por este lado!
— Fique onde está — respondi. — Tenho o meu molho de chaves no
bolso: talvez consiga abrir. Senão irei buscar a chave.
Catherine, para passar o tempo, pôs-se a dançar de um lado para outro,
diante da cancela, enquanto eu experimentava todas as chaves. Por fim, vi que
nenhuma servia e, repetindo-lhe que ficasse ali, à espera, ia correr para casa a
fim de apanhar a chave, quando o trotar de um cavalo me fez parar. Cathy
parou também de dançar.
— Quem é? — sussurrei.
— Ellen, oxalá você pudesse abrir a cancela — respondeu, num
murmúrio aflito, a minha jovem ama.
— Olá, Srta. Linton! — gritou uma voz profunda (a do cavaleiro). —
Ainda bem que a encontro. Não tenha pressa de entrar, pois quero lhe perguntar uma coisa.

— Não lhe responderei, Sr. Heathcliff — replicou Catherine. — Papai
diz que o senhor é um homem perverso e que nos odeia, a mim e a ele. . . e
Ellen diz o mesmo.
— Isso não vem ao caso — disse Heathcliff. (Era ele.) — Certamente
não odeio o meu filho e é a respeito dele que quero falar com a senhorita.
Sim, você tem motivo para corar. Há dois ou três meses atrás, você
costumava escrever a Linton. . . cartinhas de amor? Tanto você como ele
mereciam umas boas palmadas! Você principalmente, a mais velha e menos
sensível, ao que parece. Tenho as suas cartas em meu poder e, se você me vier
com impertinências, juro que as enviarei a seu pai. Suponho que se tenha
cansado da brincadeira e resolvido não mais escrever, não foi? Pois bem, com
esse seu gesto precipitou Linton num abismo de tristeza. Ele não estava
brincando; estava realmente apaixonado, E agora você pode ter a certeza de
que ele está morrendo por sua causa, com o coração partido pela sua
leviandade. Embora Hareton troce dele e eu tenha tomado medidas mais
sérias e tentado meter-lhe medo para tirá-lo da sua idiotice, ele piora de dia
para dia; e, a menos que você faça alguma coisa, repousará debaixo da terra
antes do verão!
— Como pode o senhor mentir tão descaradamente para a pobre
menina? — exclamei, do outro lado do muro. — Pelo amor de Deus,
continue o seu caminho! Como é possível que o senhor diga,
deliberadamente, tais falsidades? Srta. Cathy, vou partir a tranca com uma
pedra e peço-lhe que não acredite em tão vil absurdo. Pense em como é impossível alguém morrer pelo amor de uma desconhecida.

— Não sabia que havia bisbilhoteiros à escuta — resmungou o vilão.
— Cara Sra. Dean, simpatizo com a senhora, mas não gosto das suas
maquinações — acrescentou, em voz alta. — Como é que a senhora pode
mentir tão descaradamente, a ponto de afirmar que eu odiava a "pobre
menina" e inventar histórias da carochinha para afastá-la da minha porta?
Catherine Linton (só o nome já me faz bem), minha menina bonita, ficarei
toda esta semana fora de casa; vá até lá e veja se não falei a verdade: vá, peçolhe!
Imagine o seu pai no meu lugar e Linton no seu: pense como você ficaria
decepcionada se a pessoa a quem você amasse se negasse a dar um passo para
confortá-la, quando o seu próprio pai lhe houvesse suplicado que fosse; e não
caia no mesmo erro, por pura estupidez. Juro, pela minha salvação, que ele
está morrendo e que ninguém, a não ser você, pode salvá-lo! A fechadura
cedeu e eu saí.
— Juro que Linton está morrendo — repetiu Heathcliff, olhando firme
para mim. — A dor e a desilusão estão apressando a sua morte. Nelly, se você
não a quiser deixar ir, pode ir você mesma. Mas eu não voltarei até a próxima
semana; e pense que nem o seu amo objetaria a que ela fosse visitar o primo!
— Entre — disse eu, pegando em Cathy pelo braço e quase forçando-a
a entrar, pois ela se demorava, estudando, com olhar preocupado, o rosto do
seu interlocutor, demasiado grave para demonstrar o logro a que a induzia.
Aproximou mais o cavalo e, inclinando-se, comentou:
— Catherine, confesso que tenho pouca paciência com Linton. . .
Hareton e Joseph ainda têm menos. Confesso que ele, conosco, está mal
servido. Precisa de meiguice, além de amor; uma palavra meiga que você lhe dissesse seria o melhor remédio para ele. Não ligue para as cruéis instigações da Sra. Dean; seja generosa e procure ir vê-lo. Ele sonha com você noite e dia
e não se convence de que você não o odeia, já que não escreve nem o visita.
Fechei o portão e rolei uma pedra, para ajudar a fechar a porta; abri o
meu guarda-chuva e tratei de cobrir a minha menina, pois a chuva começava a
cair por entre os gementes galhos das árvores, prevenindo-nos para que não
demorássemos a entrar. A pressa fez com que não comentássemos o
encontro com Heathcliff, a caminho de casa; mas adivinhei, instintivamente,
que o coração de Catherine estava agora duplamente pesado. Tinha o rosto
tão triste, que não parecia a mesma; evidentemente, acreditava em tudo o que ouvira.
O meu amo subira para descansar, antes da nossa chegada. Cathy
entrou no quarto dele, para saber como o pai estava; ele adormecera. Pediume,
então, que lhe fizesse companhia na biblioteca. Tomamos o chá juntas e
depois ela se deitou no tapete e pediu-me que não falasse, pois estava cansada.
Peguei num livro e fingi ler. Tão logo ela me julgou distraída, recomeçou a
chorar em silêncio: aquilo parecia ser, no momento, o seu divertimento predileto.
Deixei-a chorar à vontade por algum tempo, mas depois achei
conveniente intervir, ridicularizando tudo o que o Sr. Heathcliff dissera a
respeito do filho, como se estivesse certa de que ela concordaria comigo.
Infelizmente, não consegui contrabalançar o efeito que as suas palavras
tinham produzido: ao contrário, fiz o jogo dele.
— Talvez você tenha razão, Ellen — replicou ela —, mas eu não
sossegarei enquanto não tiver certeza. E tenho de dizer a Linton que não foi por minha culpa que não lhe escrevi e convencê-lo de que meus sentimentos não mudaram.

De que me adiantou zangar-me e protestar contra a sua tola
credulidade? Separamo-nos, nessa noite, hostis; mas, no dia seguinte, lá fui eu
a caminho do Morro dos Ventos Uivantes, ao lado do pônei da minha jovem
e caprichosa ama. Não podia ver o seu sofrimento, contemplar o seu rosto
pálido e infeliz, os seus olhos pisados; e cedi, na débil esperança de que o
próprio Linton provasse, ao receber-nos, quão pouco verdadeira era a história
que seu pai nos contara.
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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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