quinta-feira, 13 de agosto de 2015

CAPÍTULO XXV


CAPÍTULO XXV
— Essas coisas aconteceram no inverno passado — disse a Sra. Dean
—, pouco mais do que há um ano atrás. No inverno passado, eu não poderia imaginar que, doze meses depois, eu distrairia uma pessoa estranha à família
contando-lhe esses fatos! Mas quem sabe até quando o senhor vai ser
estranho à família? É demasiado jovem para continuar a viver satisfeito
sozinho; e eu acho que ninguém pode conhecer Catherine Linton sem amá-la.
O senhor sorri, mas. . . por que mostra sempre tanto interesse quando eu falo
dela? E por que me pediu para pendurar o retrato dela sobre a sua lareira? E por que. . .
— Chega, minha amiga! — exclamei. — É possível que eu venha a amá-
la. Mas ela me amaria? A dúvida é demasiado grande para que eu arrisque a
minha tranqüilidade, caindo em tentação: além disso, eu não sou daqui.
Pertenço ao mundo apressado, ocupado, e a ele tenho de voltar. Mas
continue. Catherine obedeceu às ordens do pai?
— Obedeceu — prosseguiu a governanta. — O afeto por ele ainda
predominava em seu coração; além do mais, ele falara sem ira: falara com a
profunda ternura de alguém receoso de deixar o seu tesouro em meio a
perigos e inimigos, onde ele sabia que as palavras seriam a única ajuda que
poderia legar-lhe para orientá-la. Alguns dias mais tarde, disse-me:
— Gostaria de que meu sobrinho escrevesse, Ellen, ou viesse visitarnos.
Diga-me, sinceramente, o que acha dele: melhorou ou há probabilidades de que melhore à medida que se tornar, homem?

— Ele é muito delicado de saúde — respondi —, e não me parece que
vá chegar a homem; mas uma coisa lhe digo: é que ele não se parece com o
pai; se a Srta.
Catherine tivesse a pouca sorte de casar com ele, acho que conseguiria
controlá-lo, a não ser que ela fosse extrema e estupidamente indulgente. Mas,
patrão, o senhor vai ter muito tempo para conhecê-lo e verificar se ele
convém a ela: ainda lhe faltam quase cinco anos para a maioridade.
Edgar suspirou e, encaminhando-se para a janela, olhou na direção da
igreja de Gimmerton. A tarde estava nebulosa, mas o sol de fevereiro brilhava
por entre a neblina e podiam-se distinguir os dois ciprestes do cemitério e as
sepulturas, bem afastadas umas das outras.
— Muitas vezes rezei — falou ele, como que para si mesmo — para
que chegasse logo o que agora vem vindo. . . e agora começo a ter medo.
Pensava que a lembrança da hora em que desci aquele vale, recém-casado,
seria menos doce do que a expectativa de que em breve, dentro de alguns
meses ou, quem sabe? algumas semanas, eu fosse levado vale acima e deposto
no seu solitário regaço! Ellen, tenho me sentido muito feliz com a minha
pequena Cathy: através das noites de inverno e dos dias de estio, ela tem sido
uma esperança viva a meu lado. Mas tenho me sentido igualmente feliz
meditando, sozinho, entre aquelas sepulturas, abaixo daquela velha igreja;
jazendo, durante as longas noites de junho, sobre o musgo verde do túmulo
da mãe dela e ansiando pela hora em que pudesse jazer debaixo dele. Que
posso fazer por Cathy? Como posso deixá-la? Não me importaria de que
Linton fosse filho de Heathcliff, nem que a roubasse de mim, se ele pudesse
consolá-la da minha perda. Não me importaria de que Heathcliff conseguisse
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o que pretende e triunfasse, tirando-me a minha última bênção! Mas se Linton
for indigno (apenas um débil instrumento nas mãos do pai) não poderei
abandoná-la a ele! E, embora seja duro fazê-la sofrer, terei de continuar a
causar-lhe tristeza enquanto eu viver e deixá-la sozinha quando morrer.
Minha querida! Preferia entregá-la a Deus e enterrá-la antes de mim.
— Entregue-a a Deus assim mesmo — respondi. — E, se acaso a
perdermos (que Deus não o permita), com a ajuda da Divina Providência eu
ficarei ao lado dela até o fim. A Srta. Catherine é uma boa menina; não tenho
medo de que ela faça algo propositalmente errado; e as pessoas que cumprem
com o seu dever são sempre recompensadas.
A primavera chegou, mas as forças não voltaram ao meu amo, embora
ele retomasse os seus passeios pelo parque com a filha. Para a inexperiência
dela, aquilo em si já era um sinal de convalescença; além disso, ele tinha as
faces geralmente rosadas e olhos brilhantes: ela estava certa da sua
recuperação. No dia do seu décimo sétimo aniversário, ele não foi ao
cemitério. Estava chovendo e observei:
— Decerto o senhor não vai sair esta noite, não é? Ele respondeu:
— Não, este ano irei um pouco mais tarde. Escreveu novamente a
Linton, expressando o seu
grande desejo de vê-lo, e, estivesse o inválido apresentável, tenho a
certeza de que seu pai o teria deixado ir à granja. Como não estava, instruído
pelo pai, respondeu insinuando que o Sr. Heathcliff punha objeções a que ele
fosse à granja, mas que a atenção do tio lhe dera grande alegria e que esperava
encontrá-lo, alguma vez, nos seus passeios, e pedir-lhe, pessoalmente, licença
para ele e a prima não permanecerem por tanto tempo separados.
Essa parte da carta era escrita em tom simples, provavelmente por ele
mesmo. Heathcliff sabia que o filho era mais capaz do que ele de suplicar eloqüentemente a companhia de Catherine.
Não lhe peço, dizia, que ela me venha visitar aqui; mas nunca mais hei de poder vê-
la, só porque meu pai me proíbe de ir à casa dela e o senhor a proíbe de vir à minha? De
vez em quando, venha passear com ela na direção do Morro e deixe-nos trocar algumas
palavras, na sua presença! Nada fizemos para merecer esta separação e o senhor não está
zangado comigo; é o senhor mesmo quem diz não ter razão para não gostar de mim.
Querido tio, mande-me, por favor, um bilhete amanhã, dando-me permissão para me
encontrar com o senhor e Catherine, em qualquer lugar, exceto na granja. Creio que um
encontro o convenceria de que o caráter de meu pai não é, absolutamente, o meu: ele próprio
afirma que eu sou mais seu sobrinho do que filho dele; e, embora eu tenha defeitos que me
tornam indigno de Catherine, ela os perdoou e, por causa dela, o senhor também deveria
perdoá-los. Pergunta pela minha saúde — está melhor; mas, vivendo sem qualquer
esperança e condenado à solidão ou à companhia de quem nunca de mim gostou nem há de
gostar, como posso me sentir feliz e bem? 

Embora sentisse pena do rapaz, Edgar não podia consentir no que ele
lhe pedia, por não poder acompanhar Catherine. Respondeu que, no verão,
talvez pudessem encontrar-se: entretanto, desejava que ele lhe continuasse a
escrever, prometendo dar-lhe conselhos e confortá-lo no que pudesse, por
carta, pois bem sabia como era dura a sua vida. Linton aquiesceu e, deixado
por sua conta, sem dúvida teria estragado tudo, enchendo as suas cartas de
queixas e lamentações; mas seu pai não relaxava a vigilância e, naturalmente, insistia para que ele lhe mostrasse tudo o que o meu amo lhe escrevia; assim,
em vez de desabafar todos os seus sofrimentos físicos e morais, temas sempre
presentes no seu pensamento, ele repisava sempre na cruel obrigação de se
manter separado da sua única amiga e amada, e gentilmente teimava em que o
Sr. Linton lhes permitisse que se encontrassem sem mais demora, ou ele
acabaria achando que estava sendo enganado com promessas vãs.
Por seu lado, Cathy não cessava de suplicar a mesma coisa; e ambos
acabaram persuadindo o meu amo a deixá-los passear a pé ou a cavalo juntos,
uma vez por semana, sob a minha guarda e na charneca vizinha à granja, pois
junho veio encontrá-lo ainda mais fraco, e, embora tivesse posto de lado uma
parte do seu rendimento anual para o futuro da filha, ele alimentava o desejo
natural de que ela viesse a conservar a casa dos seus antepassados e achava
que a sua única probabilidade de o fazer era através de uma união com o seu
herdeiro; não sabia que Linton definhava quase tão depressa quanto ele
próprio, e nem eu, pois nenhum médico ia ao Morro e ninguém visitava o
jovem em casa, para poder saber do seu verdadeiro estado de saúde. Quanto a
mim, comecei a pensar que os meus pressentimentos eram falsos e que ele
devia estar muito melhor, ao vê-lo sugerir passeios a pé e a cavalo pela charneca,
aparentemente entusiasmado. Não podia imaginar que um pai tratasse
um filho moribundo de maneira tão tirânica e perversa como soube, mais
tarde, que Heathcliff o tratara, a fim de incitá-lo a esse aparente entusiasmo
— e seus esforços duplicavam de intensidade ao ver os seus planos de cobiça

ameaçados de fracasso pela morte.
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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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