internet sobre minha entrevista improvisada. Meu globo ocular esquerdo latejava um pouco, uma
leve ressaca de scotch barato, mas o restante de mim estava bastante satisfeito. Ontem à noite
lancei a primeira isca para atrair minha esposa de volta. Desculpe, vou me redimir, farei o que
você quiser a partir de agora, vou deixar o mundo saber quão especial você é.
Porque eu estava fodido a não ser que Amy decidisse aparecer. O detetive de Tanner (um
cara musculoso, de boa aparência, não o investigador noir bêbado que eu esperava) ainda não
havia encontrado nada — minha esposa dera um sumiço perfeito nela mesma. Eu tinha de
convencer Amy a voltar para mim, conquistá-la com elogios e capitulação.
Se os comentários serviam de indício, eu tomara a decisão certa, porque eles eram bons. Eles
eram muito bons:
O homem de gelo derreteu!
Eu SABIA que ele era um cara legal.
In vino veritas!
Talvez ele não tenha matado a esposa, no fim das contas.
Talvez ele não tenha matado a esposa, no fim das contas.
Talvez ele não tenha matado a esposa, no fim das contas.
E eles tinham parado de me chamar de Lance.
Na frente da minha casa, os cinegrafistas e os jornalistas estavam inquietos, queriam uma
declaração do cara que Talvez Não a Tivesse Matado, No Fim das Contas. Gritavam para minhas
persianas fechadas: Ei, Nick, venha aqui para fora e fale sobre Amy. Ei, Nick, conte sobre sua
caça ao tesouro. Para eles era apenas um novo artifício na busca de audiência, mas era muito
melhor do que Nick, você matou sua esposa?
E então, de repente, eles estavam gritando o nome de Go — eles adoravam Go, ela não tinha
uma expressão impenetrável, você sabia se Go estava triste, com raiva, preocupada; coloque uma
legenda embaixo e você tem a história inteira. Margo, seu irmão é inocente? Margo, fale
sobre... Tanner, seu cliente é inocente? Tanner...
A campainha tocou e abri a porta me escondendo atrás dela, pois ainda estava todo
desgrenhado; meus cabelos despenteados e minhas cuecas gastas contavam a própria história.
Ontem à noite, para a câmera, eu estava adoravelmente abalado, um tanto ébrio, in vino
veritástico. Agora parecia apenas um bêbado. Fechei a porta e esperei por mais dois comentários
empolgados sobre meu desempenho.
— Nunca mais, nunca mais, faça uma coisa dessas novamente — começou Tanner. — Que
merda, qual é o seu problema, Nick? Tenho a impressão de que preciso colocar uma daquelas
coleiras de criança em você. Como você pode ser tão burro?
— Você viu todos os comentários na internet? As pessoas adoraram. Estou mudando a
opinião do público, como você disse para fazer.
— Você não pode fazer esse tipo de coisa num ambiente sem controle — disse ele. — E se
ela trabalhasse para Ellen Abbott? E se começasse a fazer perguntas mais difíceis do que O que
você gostaria de dizer para sua esposa, queridinho?
Ele disse isso com um cantarolar de menininha. O rosto embaixo do spray de bronzeamento
laranja estava vermelho, dando a ele um tom radioativo.
— Confiei em meus instintos. Sou jornalista, Tanner, me dê o crédito de saber farejar
cretinice. Ela era genuinamente legal.
Ele se sentou no sofá, colocou os pés sobre o divã que nunca teria virado sozinho.
— É, bem, um dia sua esposa também foi — falou. — Andie também, um dia. Como está sua
bochecha?
Ainda doía; a mordida pareceu latejar quando ele me lembrou dela. Eu me virei para Go em
busca de apoio.
— Não foi esperto, Nick — disse ela, sentando-se em frente a Tanner. — Você teve muita,
muita sorte; deu muito certo, mas poderia não ter dado.
— Vocês estão exagerando muito. Podemos curtir as boas-novas um pequeno momento?
Apenas trinta segundos de boas-novas nos últimos nove dias? Por favor?
Tanner olhou incisivamente para seu relógio.
— Certo, já.
Quando comecei a falar, ele ergueu o indicador, fez o som de ahn-ahn que adultos fazem
quando crianças tentam interromper. Seu indicador desceu lentamente, depois pousou no
mostrador do relógio.
— Certo, trinta segundos. Aproveitou? — perguntou, fazendo uma pausa para ver se eu diria
algo; o silêncio penetrante que um professor permite após perguntar ao aluno bagunceiro: Acabou
de falar? — Agora precisamos conversar. Estamos em uma situação em que o timing perfeito é
absolutamente fundamental.
— Concordo.
— Nossa, obrigado — disse, erguendo uma sobrancelha para mim. — Quero procurar a
polícia, muito, muito em breve, e informá-la sobre o conteúdo do depósito. Enquanto o hoi polloi
está...
Apenas hoi polloi, sem artigo, pensei, não o hoi polloi. Algo que Amy havia me ensinado.
— ...adorando você novamente. Ou, perdão, não novamente. Finalmente. Os repórteres
descobriram a casa de Go, e não me sinto seguro de deixar aquele depósito e seu conteúdo
escondidos por muito mais tempo. Os Elliott estão...?
— Não podemos mais contar com o apoio dos Elliott — informei. — De modo algum.
Outra pausa. Tanner decidiu não me censurar nem perguntar o que havia acontecido.
— Então precisamos partir para o ataque — falei, sentindo-me intocável, pronto, corajoso.
— Nick, não deixe que um bom acontecimento faça com que você se sinta indestrutível —
orientou Go. Ela pegou alguns comprimidos de paracetamol superfortes em sua bolsa e os
colocou em minha mão. — Dê um jeito nessa ressaca. Você precisa estar bem hoje.
— Vai dar tudo certo — garanti a ela. Tomei os comprimidos e me virei para Tanner. — O
que vamos fazer? Vamos fazer um plano.
— Ótimo, o negócio é o seguinte — começou Tanner. — Isso não é nada ortodoxo, mas eu
sou assim. Amanhã daremos uma entrevista a Sharon Schieber.
— Uau, isso está... certo?
Sharon Schieber era tudo o que eu podia querer: a mais bem-avaliada (na faixa etária de
trinta a cinquenta e cinco anos) apresentadora (para provar que eu podia ter relações respeitosas
com pessoas que possuem uma vagina) de uma rede de TV (alcance maior que TV a cabo) em
atividade hoje. Era conhecida por muito ocasionalmente singrar as águas impuras do jornalismo
policial, mas, quando o fazia, era terrivelmente virtuosa. Havia dois anos ela colocara sob a
proteção de sua asa de seda uma jovem mãe presa por sacudir seu bebê até a morte. Sharon
Schieber apresentou toda uma defesa legal — e muito emocionada — ao longo de uma série de
noites. A mulher está hoje em casa em Nebraska, casada novamente e esperando um filho.
— Está certo, sim. Ela entrou em contato depois que o vídeo se tornou viral.
— Então o vídeo ajudou — comentei, não conseguindo resistir.
— Ele deu a você uma faceta interessante: antes do vídeo, era claro que você era culpado.
Agora há uma ligeira chance de que não seja. Não sei como, você finalmente pareceu
verdadeiro...
— Porque a noite passada serviu a um objetivo claro: trazer Amy de volta — disse Go. —
Foi uma jogada ofensiva. Quando antes era só emoção indulgente, imerecida e fingida.
Eu dei a ela um sorriso de agradecimento.
— Bem, continue se lembrando de que isto serve a um objetivo — orientou Tanner. — Nick,
não estou de sacanagem: isto é além do heterodoxo. A maioria dos advogados estaria mandando
você ficar quieto. Mas é algo que eu tenho querido tentar. A mídia inundou o ambiente jurídico;
com internet, Facebook, YouTube não existe mais júri neutro. Nenhuma tábula rasa. Oitenta,
noventa por cento de um caso é decidido antes de você pisar no tribunal. Então por que não usá-
la? Controlar a história? Mas é um risco. Quero cada palavra, cada gesto, cada fragmento de
informação planejados com antecedência. Mas você tem de soar natural, amável, ou o tiro vai
sair pela culatra.
— Ah, isso parece simples — falei. — Cem por cento preparado, mas totalmente natural.
— Você vai precisar ser extremamente cuidadoso com suas palavras, e vamos dizer a Sharon
que você não vai responder a certas perguntas. Ela vai perguntar mesmo assim, mas vamos
ensinar você a dizer Por causa de certas ações prejudiciais da polícia envolvida neste caso, eu
realmente, infelizmente, não posso responder a isso neste instante, por mais que eu quisesse; e
dizer isso de forma convincente.
— Como um cachorro falante.
— Isso mesmo, como um cachorro falante que não quer ir para a cadeia. Se conseguirmos
fazer com que Sharon Schieber assuma você como uma causa, Nick, estamos feitos. Isso tudo é
inacreditavelmente heterodoxo, mas eu sou assim — repetiu Tanner.
Ele gostava da fala; era sua música-tema. Ele fez uma pausa e franziu a testa, em seu gesto de
quem finge pensar. Ia acrescentar algo de que eu não ia gostar.
— O quê? — perguntei.
— Você precisa contar a Sharon Schieber sobre Andie; porque vai vir à tona, o romance,
certamente.
— Logo quando as pessoas finalmente estão começando a gostar de mim. Quer que eu
desfaça isso?
— Juro a você, Nick... De quantos casos já cuidei? Sempre, de alguma forma, de algum
modo, a coisa sempre vaza. Deste jeito nós estamos no controle. Você conta a ela sobre Andie e
se desculpa. Pede desculpas como se sua vida dependesse disso. Você teve um caso, você é um
homem, um homem fraco e idiota. Mas você ama sua esposa, e você vai se redimir. Você dá a
entrevista, ela vai ao ar na noite seguinte. Todo o conteúdo está embargado, para a rede não
poder falar no caso Andie em suas chamadas. Só podem usar a palavra bomba.
— Então você já contou a eles sobre Andie?
— Meu Deus, não — respondeu ele. — Falei: temos uma grande bomba para vocês. Então
você dá a entrevista, e daí temos umas vinte e quatro horas. Antes de ela ir ao ar contamos a
Boney e Gilpin sobre Andie e nossa descoberta no depósito. Ah, meu Deus, juntamos tudo para
vocês: Amy está viva e está tentando incriminar Nick! Ela está louca, ciumenta e incriminando
Nick! Ah, minha nossa senhora!
— Então, por que não contar a Sharon Schieber? Sobre Amy estar tentando me incriminar?
— Motivo número um. Você se abre em relação a Andie, pede perdão, o país é compelido
em horário nobre a perdoá-lo, a sentir pena de você; os americanos adoram ver pecadores
pedindo perdão. Mas você não pode dizer nada que dê uma imagem ruim da sua esposa; ninguém
quer ver o marido traidor culpando a esposa por nada. Deixe outra pessoa fazer isso em algum
momento no dia seguinte: fontes ligadas à polícia revelam que a esposa de Nick, aquela que ele
jurou amar de todo o coração, está tentando incriminá-lo! Isso é TV boa.
— Qual o motivo número dois?
— É complicado demais explicar exatamente como Amy está incriminando você. Não dá
para fazer isso em uma única fala. Isso é TV ruim.
— Estou enojado — concluí.
— Nick, é... — começou Go.
— Eu sei, eu sei, tem de ser feito. Mas dá para imaginar: é o seu maior segredo e você tem de
contar ao mundo sobre ele? Sei que devo fazer isso. E no final das contas é bom para nós, acho.
É o único jeito que talvez faça Amy voltar. Ela quer que eu seja publicamente humilhado...
— Castigado — interrompeu Tanner. — Humilhado dá a impressão de que você tem pena de
si mesmo.
— ...e peça perdão publicamente — continuei. — Mas vai ser horrível, porra.
— Antes de prosseguirmos, quero ser honesto — admitiu Tanner. — Contar à polícia a
história inteira sobre Amy tentar incriminar Nick é um risco. A maioria dos policiais escolhe um
suspeito, e não quer de modo algum mudar de direção. Eles não estão abertos a outras opções.
Então há o risco de contarmos e eles nos botarem para fora da delegacia às gargalhadas, e depois
prenderem você; e então teoricamente teremos dado a eles uma prévia de nossa tática de defesa.
Então poderão planejar exatamente como destruí-la no julgamento.
— Certo, espere, isso parece muito, muito ruim, Tanner — disse Go. — Tipo, ruim mesmo,
inaceitavelmente ruim.
— Deixe-me terminar — pediu Tanner. — Um, eu acho que você está certo, Nick. Acho que
Boney não está convencida de que você é um assassino. Acho que estaria aberta a uma teoria
alternativa. Ela tem boa reputação como uma policial que é de fato justa. Como uma policial com
bons instintos. Conversei com ela. Tive boa impressão. Acho que as provas a estão conduzindo
na sua direção, mas acho que o sexto sentido dela diz que algo está errado. Mais importante, se
formos a julgamento, eu de qualquer forma não usaria a armação de Amy como sua defesa.
— O que quer dizer?
— Como falei, é complicado demais, um júri não conseguiria acompanhar. Se não é TV boa,
acredite em mim, não é para um júri. Usaremos mais uma coisa no estilo O.J. Uma história
simples: a polícia é incompetente e está cismada com você, tudo é circunstancial, se a luva não
cabe, blá-blá-blá.
— Blá-blá-blá me dá muita confiança — arrematei.
Tanner deu um sorriso.
— Os júris me adoram, Nick. Eu sou um deles.
— Você é o oposto de um deles, Tanner.
— Vamos inverter: eles gostam de achar que são um de mim.
* * *
Tudo o que fazíamos agora, fazíamos na frente de pequenos cachos de paparazzi disparando
flashes, então Go, Tanner e eu saímos da casa sob luzes espocando e cliques de câmera. (“Não
olhe para o chão”, recomendou Tanner. “Não sorria, mas não pareça envergonhado. Também não
corra, apenas caminhe, deixe que eles fotografem e feche a porta antes de xingá-los. Depois pode
chamá-los do que quiser.”) Dirigíamo-nos a St. Louis, onde aconteceria a entrevista, para que eu
pudesse me preparar com a esposa de Tanner, Betsy, uma ex-apresentadora de noticiário
transformada em advogada. Ela era o outro Bolt em Bolt & Bolt.
Foi um desfile bizarro: Tanner e eu, seguidos por Go, seguidos por meia dúzia de vans de
reportagem, mas quando o Arco se ergueu no horizonte, eu já não pensava mais nos paparazzi.
Ao chegarmos à suíte de cobertura no hotel de Tanner, eu estava pronto para fazer o trabalho
que precisava para mandar bem na entrevista. Mais uma vez ansiei por minha própria músicatema:
uma montagem na qual me preparo para a grande luta. Qual é o equivalente mental de um
saco de pancadas?
Uma negra deslumbrante de um metro e oitenta abriu a porta.
— Oi, Nick, sou Betsy Bolt.
Em minha imaginação Betsy Bolt era uma loura pequenina, uma beldade branca do Sul.
— Não se preocupe, todos ficam surpresos quando me conhecem — disse Betsy rindo,
percebendo meu olhar e apertando minha mão. — Tanner e Betsy, soa como se devêssemos estar
na capa de The Official Preppy Guide, certo?
— Preppy Handbook — corrigiu Tanner enquanto a beijava na bochecha.
— Estão vendo? Ele até sabe — falou ela.
Ela nos conduziu até uma impressionante suíte de cobertura — uma sala de estar iluminada
pelo sol que brilhava através de janelas de parede a parede, com quartos dos dois lados. Tanner
jurara que não podia ficar em Carthage, no Days Inn, por respeito aos pais de Amy, mas Go e eu
suspeitávamos que ele não podia ficar em Carthage porque o hotel cinco estrelas mais próximo
ficava em St. Louis.
Começamos com as preliminares: papo furado sobre a família, a faculdade e a carreira de
Betsy (tudo estelar, classe A, impressionante), e drinques para todos (refrigerantes e Clamato, o
que Go e eu começáramos a acreditar ser uma afetação de Tanner, uma estranheza que ele achava
que lhe daria caráter, como eu usando óculos falsos na faculdade). Depois Go e eu afundamos no
sofá de couro, Betsy sentada à nossa frente, as pernas coladas uma à outra, de lado, como uma
barra diagonal tipográfica. Bonita/profissional. Tanner andava de um lado para outro atrás de
nós, escutando.
— Certo. Então, Nick, serei franca, sim? — disse Betsy.
— Sim.
— Você e TV. Com a exceção daquele treco de bar-blog, o treco do Whodunnit.com da noite
passada, você é péssimo.
— Houve uma razão para eu ter feito jornalismo impresso — disse. — Quando vejo uma
câmera, meu rosto congela.
— Exatamente — concordou Betsy. — Você parece um agente funerário de tão rígido. Mas
tenho um truque para dar um jeito nisso.
— Álcool? Funcionou comigo na coisa do blog.
— Não vai funcionar aqui — explicou ela, começando a montar uma câmera de vídeo. —
Acho que devemos tentar a seco antes. Serei Sharon. Farei as perguntas que ela provavelmente
fará, e você responde do modo como faria normalmente. Assim podemos saber quão longe da
marca você está — falou, e riu novamente. — Um momento.
Ela usava um vestido justo azul, e tirou um colar de pérolas de uma bolsa de couro enorme. O
uniforme Sharon Schieber.
— Tanner?
O marido fechou o colar para ela, e quando o acessório estava em seu devido lugar, Betsy
sorriu.
— Busco total autenticidade. A não ser por meu sotaque da Geórgia. E pelo fato de eu ser
negra.
— Só vejo Sharon Schieber na minha frente — falei.
Ela ligou a câmera, se sentou na minha frente, soltou o ar, baixou os olhos e depois os ergueu.
— Nick, tem havido muitas discrepâncias neste caso — começou Betsy com a pesada voz
televisiva de Sharon. — Para começar, poderia contar aos telespectadores como foi o dia em que
sua esposa desapareceu?
— Aqui, Nick, você fala apenas do café da manhã de aniversário de casamento que vocês
tiveram — interrompeu Tanner. — Pois isso já é sabido. Mas não ofereça uma cronologia, não
aborde o antes e o depois do café. Enfatize apenas o maravilhoso último café da manhã que
tiveram. Certo, continue.
— Sim — concordei, e pigarreei. A luz vermelha da câmera piscava; Betsy estava com sua
expressão de jornalista inquisidora. — Bem, como você sabe, era nosso aniversário de cinco
anos de casados, e Amy acordou cedo e estava fazendo crepes...
O braço de Betsy se lançou para a frente, e de repente senti uma pontada na bochecha.
— Que diabo? — reagi, tentando entender o que havia acontecido. Havia uma jujuba
vermelho-cereja em meu colo. Eu a peguei.
— Sempre que você ficar tenso, sempre que transformar esse belo rosto na máscara de um
coveiro, eu vou acertá-lo com uma jujuba — explicou Betsy, como se a coisa toda fosse muito
razoável.
— E isso deveria me deixar menos tenso?
— Funciona — respondeu Tanner. — Foi assim que ela me ensinou. Mas acho que comigo
ela usou pedras.
Eles trocaram sorrisos companheiros de ah, só você mesmo. Já dava para ver: eles eram um
daqueles casais que sempre pareciam estrelar o próprio programa de entrevistas matinal.
— Agora recomece, mas dedique mais tempo aos crepes — retomou Betsy. — Eram os seus
preferidos? Ou os dela? O que você estava fazendo naquela manhã para sua esposa enquanto ela
preparava crepes para você?
— Estava dormindo.
— Que presente você tinha comprado para ela?
— Ainda não tinha.
— Ai, caramba — exclamou ela, voltando os olhos para o marido. — Então seja muito,
muito, muito elogioso em relação aos crepes, certo? E em relação ao presente que você ia
comprar para ela naquele dia. Porque eu sei que você não ia voltar para casa sem um presente.
Nós recomeçamos, e eu descrevi nossa tradição de crepes que na verdade não existia,
descrevi como Amy era cuidadosa e maravilhosa ao escolher presentes (nesse momento outra
jujuba acertou meu nariz, e imediatamente relaxei o maxilar), e como eu, sujeito burro
(“Definitivamente dê ênfase à coisa do marido otário”, recomendou Betsy), ainda estava tentando
pensar em algo fantástico.
— E ela nem gostava de presentes caros ou extravagantes — comecei, e fui atingido por
Tanner com uma bola de papel.
— O que foi?
— Passado. Pare de usar verbos no passado para falar da sua esposa, que droga.
— Soube que você e sua esposa tiveram alguns contratempos — continuou Betsy.
— Os últimos anos haviam sido difíceis. Ambos perdemos nossos empregos.
— Bom, isso! — exclamou Tanner. — Ambos perderam.
— Tínhamos nos mudado para cá para ajudar a cuidar do meu pai, que tem Alzheimer, e de
minha falecida mãe, que tinha câncer, e além disso eu estava ralando muito em meu novo
trabalho.
— Bom, Nick, bom — elogiou Tanner.
— Lembre-se de mencionar como você era ligado à sua mãe — orientou Betsy, embora eu
não tivesse mencionado minha mãe para ela. — Não vai aparecer ninguém contestando isso,
certo? Nenhuma história trágica entre mãe e filho aí?
— Não, minha mãe e eu éramos muito ligados.
— Bom — continuou Betsy. — Então a mencione muito. E que você é dono do bar com sua
irmã; sempre mencione sua irmã quando falar do bar. Se você é dono de um bar sozinho, você é
um mulherengo; se tem um bar junto com sua irmã gêmea querida, você é...
— Irlandês.
— Continue.
— Então as coisas esquentaram... — comecei.
— Não — disse Tanner. — Esquentar implica que depois pegaram fogo.
— Então perdemos o rumo um pouco, mas eu estava vendo nosso aniversário de cinco anos
de casados como uma oportunidade de reviver nossa relação...
— Revigorar nossa relação — corrigiu Tanner. — Reviver significa que algo estava morto.
— Revigorar nossa relação...
— E então, como trepar com uma garota de vinte e três anos se encaixa nesse quadro
rejuvenescedor? — perguntou Betsy.
Tanner lançou uma jujuba na direção dela.
— Saiu um pouco do personagem, Bets.
— Desculpem-me, rapazes, mas sou mulher, e isso me cheira a mentira, o tipo de mentira que
a gente vê de longe. Revigorar a relação, por favor. A garota já estava envolvida quando Amy
desapareceu. As mulheres vão odiar você, Nick, a não ser que você seja humilde. Seja franco,
não embrome. Você pode ir acumulando: Perdemos nossos empregos, nos mudamos, meus pais
estavam morrendo. E então eu fiz merda. Fiz uma merda muito grande. Perdi a noção de quem
eu era e, infelizmente, só quando perdi Amy me dei conta disso. Você tem de admitir que tudo
foi culpa sua e que você é um babaca.
— Como todos os homens — falei.
Betsy lançou um olhar irritado para o teto.
— E essa daí é uma postura, Nick, com a qual você deveria ter muito cuidado.

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