Ela estava ali de pé sob o brilho laranja do poste, com um vestido leve de verão, seus
cabelos ondulados com a umidade. Andie. Passou apressada pelo umbral, os braços estendidos
para me abraçar, e sussurrei:
— Espere, espere! — E fechei a porta imediatamente antes que ela me abraçasse com o
corpo todo.
Ela apertou a bochecha contra meu peito, e eu coloquei a mão em suas costas nuas e fechei os
olhos. Senti uma mistura nauseante de alívio e horror: quando você finalmente para de coçar e se
dá conta de que foi porque abriu um buraco em sua pele.
Tenho uma amante. Este é o momento em que tenho de contar que tenho uma amante e você
para de gostar de mim. Se é que você gostava de mim antes. Tenho uma amante bonita, jovem,
muito jovem, e seu nome é Andie.
Eu sei. É ruim.
— Amor, por que você não me ligou, porra? — exclamou ela, o rosto ainda apertado contra
mim.
— Eu sei, querida, eu sei. Você não pode nem imaginar. Tem sido um pesadelo. Como me
encontrou?
Ela continuou presa a mim.
— Sua casa estava toda apagada, então pensei em tentar a de Go.
Andie conhecia meus hábitos, meus hábitats. Estamos juntos há algum tempo. Tenho uma
amante bonita, muito jovem, e estamos juntos há algum tempo.
— Estava preocupada com você, Nick. Desesperada. Estava sentada na casa de Madi, com a
TV, tipo, ligada, e de repente eu vejo na TV, tipo, um cara que parece você falando sobre a
esposa desaparecida. E então me dou conta: é você. Você tem noção de como surtei? E você nem
tentou falar comigo?
— Liguei para você.
— Não diga nada, fique quieta, não diga nada até falarmos. Isso é uma ordem, não é tentar
falar comigo.
— Não tenho passado muito tempo sozinho; as pessoas têm estado ao meu redor o tempo
todo. Os pais de Amy, Go, a polícia — expliquei, respirando nos cabelos dela.
— Amy simplesmente sumiu? — perguntou.
— Ela simplesmente sumiu — disse, me afastando dela e me sentando no sofá, e ela se sentou
ao meu lado, a perna colada na minha, seu braço roçando o meu. — Alguém a levou.
— Nick? Você está bem?
Seus cabelos cor de chocolate caíam em ondas sobre queixo, clavículas e seios, e vi uma
única mecha balançar na corrente de sua respiração.
— Não, na verdade, não — falei, fazendo o sinal de silêncio para ela e apontando para o
corredor. — Minha irmã.
Ficamos sentados lado a lado, em silêncio, a TV tremeluzindo com o velho programa
policial, os homens de chapéu de feltro prendendo alguém. Senti a mão dela se encaixar na
minha. Ela se inclinou na minha direção como se fôssemos nos acomodar para assistir a um
filme, um casal preguiçoso e despreocupado, e então puxou meu rosto para si e me beijou.
— Andie, não — sussurrei.
— Sim, eu preciso de você — disse, me beijando de novo e se sentando no meu colo,
montando em mim, seu vestido de algodão subindo até os joelhos, um de seus chinelos caindo no
chão. — Nick, eu estava tão preocupada com você... Preciso sentir suas mãos em mim, é só no
que tenho pensado. Estou com medo.
Andie era uma garota táctil, e isso não é código para só há sexo entre nós. Ela era de
abraçar, de tocar, gostava de correr os dedos por meus cabelos ou minhas costas em um carinho
amigável. O toque lhe trazia conforto e tranquilidade. E sim, tudo bem, ela também gostava de
sexo.
Com um gesto rápido, ela baixou a parte de cima do vestido e levou minhas mãos aos seus
seios. Minha lascívia, fiel como um cão, veio à superfície.
Eu quero foder você, eu quase disse em voz alta. Você é CALOROSO, minha esposa disse em
meu ouvido. Eu me afastei. Estava muito cansado, a sala rodando.
— Nick? — O lábio inferior molhado com minha saliva. — O que foi? Nós não estamos bem? É por causa de Amy?
Andie sempre parecera jovem — ela tinha vinte e três anos, claro que parecia jovem —, mas
naquele exato instante me dei conta de quão grotescamente jovem ela era, quão
irresponsavelmente, desastrosamente jovem era. Prejudicialmente jovem. Ouvir o nome de minha
esposa nos lábios dela sempre me irritava. Ela o dizia muito. Gostava de discutir Amy, como se
Amy fosse a heroína de uma novela. Andie nunca fez de Amy a inimiga; fez dela uma
personagem. Fazia perguntas, o tempo todo, sobre nossa vida juntos, sobre Amy: o que vocês
faziam juntos em Nova York, tipo, o que vocês faziam no fim de semana? A boca de Andie fez
um O quando contei a ela sobre a ópera. Vocês iam à ópera? O que ela vestia? Longo? E uma
echarpe ou uma pele? E as joias e o cabelo? E também: Como eram os amigos de Amy? Sobre o
que vocês conversavam? Como era Amy, tipo, como ela era realmente? Era tipo a garota dos
livros, perfeita? Era a história da hora de dormir preferida de Andie: Amy.
— Minha irmã está no outro quarto, querida. Você não deveria nem estar aqui. Deus, como eu
quero você aqui, mas você realmente não deveria ter vindo, amor. Até sabermos com o que
estamos lidando.
VOCÊ É BRILHANTE VOCÊ TEM HUMOR VOCÊ É CALOROSO. Agora me beije!
Andie continuou em cima de mim, seus seios à mostra, mamilos endurecendo com o arcondicionado.
— Amor, estamos lidando agora com o fato de que eu preciso ter certeza de que estamos
bem. É só disso que preciso. — Ela apertou-se contra mim, quente e sensual. — É só disso que
preciso. Por favor, Nick, estou em pânico. Conheço você: sei que você não quer conversar agora,
e tudo bem. Mas eu preciso que você... esteja comigo.
E eu então quis beijá-la, do modo como eu a beijara na primeira vez: nossos dentes se
batendo, o rosto dela inclinado para o meu, seus cabelos fazendo cócegas em meus braços, um
beijo de língua molhado, eu sem pensar em nada além do beijo, porque seria perigoso pensar em
qualquer coisa além de quão gostoso era. A única coisa que me impediu de arrastá-la para o
quarto naquele instante não foi como aquilo era errado — foi tudo muito errado, desde sempre
—, mas como agora era realmente perigoso.
E porque havia Amy. Finalmente, havia Amy, aquela voz que se instalara em meu ouvido
havia meia década, a voz da minha esposa, mas agora não era crítica, era doce outra vez. Eu
odiava que três bilhetinhos de minha esposa pudessem fazer com que eu me sentisse assim,
meloso e sentimental.
Eu não tinha o menor direito de ser sentimental.
Andie estava se aninhando em mim, e eu me perguntando se a polícia estava vigiando a casa
de Go, se eu deveria esperar uma batida na porta. Tenho uma amante muito jovem, muito bonita.
Minha mãe sempre dissera aos filhos: se você está prestes a fazer algo, e se quer saber se é
má ideia, imagine impresso no jornal para o mundo todo ver.
Nick Dunne, ex-jornalista de revista, ainda com o orgulho ferido por uma demissão em
2010, concordou em dar aula de jornalismo na faculdade de North Carthage. O homem mais
velho e casado imediatamente se valeu de sua posição, mergulhando em um tórrido caso
sexual com uma de suas jovens alunas impressionáveis.
Era a encarnação do maior medo de todo escritor: um clichê.
Agora me deixe juntar mais clichês para sua diversão: aconteceu aos poucos. Eu nunca quis
magoar ninguém. Ficou mais sério do que eu esperava. Mas era mais que um caso. Era mais que
uma massagem no ego. Eu realmente amo Andie. Amo mesmo.
A minha turma — “Como iniciar uma carreira em revista” — tinha quatorze alunas com graus
de habilidade variados. Todas garotas. Eu diria mulheres, mas acho que garotas é factualmente
correto. Todas queriam trabalhar em revistas. Não eram garotas desmazeladas de jornal, eram
arrumadinhas. Elas haviam visto o filme: se imaginavam disparando por Manhattan, latte em uma
das mãos, celular na outra, adoravelmente quebrando um salto de sapato de estilista enquanto
chamavam um táxi e caíam nos braços de uma alma gêmea encantadora e sedutora com cabelos
irresistivelmente bagunçados. Elas não tinham ideia de como era tola, como era ignorante sua
escolha de curso. Eu estava planejando contar a elas, usando minha demissão como alerta.
Embora não tivesse interesse em ser a figura trágica. Imaginava contar a história
despreocupadamente, brincando — nada demais. Mais tempo para trabalhar no meu romance.
Mas então passei a primeira aula respondendo a tantas perguntas de meninas boquiabertas, e
me transformei tanto em um falastrão envaidecido, um escroto carente, que não tive coragem de
contar a história real: o chamado para o escritório do editor-executivo na segunda rodada de
demissões, a caminhada por aquela trilha soturna ao longo da comprida fila de cubículos, todos
os olhos se virando para mim, um condenado caminhando, eu ainda esperando ouvir algo
diferente — que a revista precisava de mim mais que nunca; isso! Seria um discurso
encorajador, um discurso de vamos-juntar-nossas-forças! Mas não, meu chefe simplesmente
disse: imagino que você saiba, infelizmente, por que o chamei aqui, esfregando os olhos sob os
óculos, para mostrar como estava cansado e deprimido.
Eu queria me sentir um vencedor superbacana, então não contei às minhas alunas sobre minha
derrocada. Contei a elas que havíamos tido uma doença na família que exigira minha atenção
aqui, o que era verdade, sim, disse a mim mesmo, totalmente verdade, e muito heroico. E a bela e
sardenta Andie estava sentada a pouca distância na minha frente, grandes olhos azuis sob ondas
de cabelo cor de chocolate, lábios carnudos apenas ligeiramente separados, seios de verdade
ridiculamente grandes e pernas e braços compridos e finos — uma boneca inflável de outro
mundo, deve ser dito, tão diferente quanto possível de minha elegante esposa aristocrata —, e
Andie irradiava calor humano e lavanda, digitando anotações em seu laptop, fazendo perguntas
com uma voz rouca do tipo “Como você faz para que uma fonte confie em você, se abra com
você?”, e pensei comigo mesmo naquele instante: De onde vem esta garota, porra? Isso é uma
piada?
Você se pergunta: Por quê? Sempre fui fiel a Amy. Eu era o cara que saía mais cedo do bar
se uma mulher começava a flertar demais, se seu toque começava a parecer muito agradável. Não
era um cara que traía. Não gosto (gostava?) de gente que traía: desonestos, desrespeitosos,
mesquinhos, mimados. Eu nunca sucumbira. Mas isso era quando eu era feliz. Odeio pensar que a
resposta é tão simples assim, mas fui feliz minha vida inteira, e agora não era, e Andie estava ali,
demorando depois da aula, fazendo perguntas sobre mim que Amy nunca fazia, não ultimamente.
Fazendo com que eu me sentisse um homem de valor, não o idiota que perdera o emprego, o
cretino que se esquecia de baixar o assento da privada, o desajeitado que nunca acertava, fosse o
que fosse.
Certo dia, Andie me levou uma maçã. Uma Red Delicious (título do livro de memórias de
nosso caso, se eu fosse escrevê-lo). Pediu que eu desse uma olhada em sua matéria. Era um perfil
de uma stripper de uma boate de St. Louis, parecia um texto da Penthouse, e Andie começou a
comer minha maçã enquanto eu lia, se inclinando sobre meu ombro, o suco repousando
grotescamente em seu lábio, e então pensei: Porra, essa garota está tentando me seduzir,
tolamente chocado, um Benjamin Braddock envelhecido.
Funcionou. Comecei a pensar emAndie como uma fuga, uma oportunidade. Uma opção. Eu ia
para casa e encontrava Amy enrolada no sofá, Amy olhando para a parede, em silêncio, nunca me
dirigindo a primeira palavra, sempre esperando, um interminável jogo de quebrar o gelo, um
desafio mental constante — o que fará Amy feliz hoje? Eu pensava: Andie não faria isso. Como
se eu conhecesse Andie. Andie riria dessa piada, Andie gostaria dessa história. Andie era uma
agradável, bonita garota irlandesa de seios fartos de minha cidade natal, despretensiosa e
divertida. Andie se sentava na primeira fila de minha turma, e ela parecia afável, e ela parecia
interessada.
Quando pensava emAndie, meu estômago não doía do modo como doía com minha esposa —
o medo constante de voltar para minha própria casa, onde eu não era bem-vindo.
Comecei a imaginar como aquilo poderia acontecer. Comecei a ansiar pelo toque dela —
sim, era exatamente assim, como a letra de uma canção ruim dos anos oitenta —, eu ansiava pelo
toque dela, ansiava por toque em geral, porque minha esposa evitava o meu: em casa ela
deslizava por mim como um peixe, passando longe o suficiente para evitar que nos
esbarrássemos na cozinha ou na escada. Assistíamos à TV calados nos dois assentos do sofá,
separados um do outro como se fôssemos balsas. Na cama, ela me dava as costas, colocava
cobertores e lençóis entre nós. Certa vez acordei no meio da noite e, sabendo que ela estava
dormindo, baixei a alça da sua camiseta um pouco e pressionei minha bochecha e a palma da mão
sobre seu ombro nu. Não consegui voltar a dormir naquela noite, de tão enojado que estava de
mim mesmo. Saí da cama e me masturbei no chuveiro, imaginando Amy, o modo lascivo como
costumava olhar para mim, aqueles olhos de lua nascendo com pálpebras pesadas me avaliando,
fazendo com que eu me sentisse visto. Quando terminei, sentei na banheira e olhei para o ralo
através da água. Meu pênis repousava pateticamente sobre minha coxa esquerda, como um
animalzinho jogado na praia. Fiquei sentado no fundo da banheira, humilhado, tentando não
chorar.
* * *
Então aconteceu. Em uma estranha e repentina tempestade de neve no começo de abril. Não
abril deste ano, abril do ano passado. Eu estava trabalhando sozinho no bar porque Go estava
tendo uma Noite com Mamãe; nós nos revezávamos sem trabalhar, ficando em casa com nossa
mãe e assistindo a programas ruins na TV. Ela estava definhando rápido, não ia durar até o fim
do ano, nem perto disso.
Eu estava até me sentindo bem naquele momento — minha mãe e Go aninhadas em casa
vendo um filme de praia com Annette Funicello, e O Bar tivera uma noite movimentada, agitada,
uma daquelas noites em que todos pareciam chegar ao fim de um dia bom. Garotas bonitas
estavam sendo legais com caras comuns. Pessoas pagavam rodadas para estranhos sem razão.
Era festivo. E então era o final da noite, hora de fechar, todos para fora. Estava prestes a trancar
a porta quando Andie a escancarou e entrou, quase em cima de mim, e pude sentir uma leve
doçura de cerveja em seu hálito, o cheiro de madeira queimada em seus cabelos. Fiquei parado
durante aquele momento perturbador em que você tenta assimilar alguém que só viu em um
ambiente, colocar a pessoa em um novo contexto. Andie n’O Bar. Certo. Ela deu um riso de
pirata sexy e me empurrou de volta para dentro.
— Acabei de ter o encontro mais fantasticamente medonho e você tem de tomar uma bebida
comigo.
Flocos de neve se acumulavam nas ondas escuras de seus cabelos, suas adoráveis sardas
reluziam, suas bochechas estavam em um tom rosa-brilhante, como se alguém a tivesse
estapeado. Ela tinha uma voz fantástica, uma voz grasnada indistinta que começava ridiculamente
meiga e terminava totalmente sensual.
— Por favor, Nick, eu preciso tirar aquele gosto de encontro ruim da minha boca.
Lembro-me de nós dois rindo e eu pensando que alívio era estar com uma mulher e ouvi-la
rir. Ela vestia calça jeans e uma blusa de caxemira com gola em V; é uma daquelas garotas que
ficam melhores de calça jeans do que de vestido. Seu rosto, seu corpo são descontraídos da
melhor forma. Assumi meu posto atrás do bar e ela subiu em um banco, os olhos avaliando todas
as garrafas de bebida atrás de mim.
— O que você quer, moça?
— Surpreenda-me — respondeu.
— Buu — disse, a palavra deixando meus lábios em posição de beijo.
— Agora me surpreenda com um drinque.
Ela se inclinou para a frente, e seu decote apoiou no bar, os seios pularam. Usava um
pingente em uma fina corrente de ouro; o pingente deslizou para o espaço entre os seios sob o
suéter. Não seja esse cara, eu pensei. O cara que arfa pensando onde o pingente termina.
— Você está a fim de que sabor? — perguntei.
— O que você me der, eu vou gostar.
Foi essa frase que me fisgou, a simplicidade dela. A ideia de que eu podia fazer algo e deixar
uma mulher feliz, e que seria fácil. O que você me der, eu vou gostar. Senti uma enorme onda de
alívio. E então soube que já não amava Amy.
Eu não amo mais minha esposa, pensei, me virando para apanhar dois copos. Nem um
pouquinho. Fui extirpado de amor, estou limpo. Preparei meu drinque preferido, Manhã de
Natal: café quente e licor de hortelã gelado. Tomei um com ela, e quando ela estremeceu e riu —
aquela gargalhada alta — servi outra rodada. Bebemos juntos durante uma hora depois da hora
de fechar, e mencionei a palavra esposa três vezes, porque estava olhando para Andie e me
imaginando tirar suas roupas. Um aviso para ela, o mínimo que eu podia fazer: eu tenho uma
esposa. Faça o que quiser com isso.
Ela ficou sentada na minha frente, queixo apoiado nas mãos, sorrindo para mim.
— Anda comigo até minha casa? — perguntou.
Ela havia mencionado como morava perto do centro, como precisava passar n’O Bar um dia
e dizer oi, e ela mencionou como morava perto d’O Bar? Minha mente havia sido treinada: eu
muitas vezes caminhara os poucos quarteirões na direção do prédio de tijolos sem graça onde ela
morava. Então, quando de repente estava do lado de fora, levando-a para casa, aquilo não
pareceu de modo algum estranho — não houve nenhum alerta que me dissesse: Isso é estranho,
nós não fazemos isso.
Eu a levei para casa, contra o vento, neve voando por todo lado, ajudando-a a enrolar o
cachecol de tricô uma, duas vezes; na terceira eu o estava colocando bem para dentro e nossos
rostos estavam próximos, as bochechas dela tinham um tom de rosa alegre de deslizar de trenó
nas férias, e era o tipo de coisa que nunca teria acontecido em cem outras noites, mas naquela
noite foi possível. A conversa, o álcool, a tempestade, o cachecol.
Nós nos agarramos ao mesmo tempo, eu a empurrando contra uma árvore para ter mais apoio,
os galhos secos derrubando um monte de neve sobre nós, um momento chocante, cômico, que
apenas me deixou com mais desejo de tocar nela, tocar em tudo ao mesmo tempo, uma das mãos
subindo por dentro de seu suéter, a outra entre suas pernas. E ela deixando.
Ela se afastou de mim, os dentes batendo.
— Suba comigo.
Parei.
— Suba comigo — repetiu. — Quero ficar com você.
* * *
O sexo não foi tão bom, não na primeira vez. Éramos dois corpos acostumados a ritmos
diferentes, nunca pegando bem o jeito um do outro, e fazia tanto tempo que eu não estava dentro
de uma mulher que gozei primeiro, rápido, e continuei me mexendo, trinta segundos cruciais
enquanto começava a murchar dentro dela, apenas tempo suficiente para que ela chegasse lá antes
que eu ficasse totalmente mole.
Foi legal mas decepcionante, um anticlímax, o que as garotas devem sentir quando perdem a
virgindade: então o bafafá todo era por isso? Mas gostei quando ela me envolveu com seu
corpo, e gostei que ela fosse tão macia quanto eu imaginara. Pele nova. Jovem, pensei
vergonhosamente, imaginando Amy e sua constante aplicação de hidratante, sentada na cama se
estapeando, raivosa.
Fui ao banheiro de Andie, dei uma mijada, me olhei no espelho e me obriguei a dizer: você é
um homem que trai. Você foi reprovado em um dos testes masculinos mais básicos. Você não é
um homem bom. E quando isso não me incomodou, pensei: Você realmente não é um homem
bom.
A coisa horripilante foi que, se o sexo tivesse sido escandalosamente fantástico, aquela
poderia ter sido minha única falta. Mas foi apenas decente, e como eu já era um traidor, não
podia destruir meu histórico de fidelidade com algo apenas mediano. Então soube que haveria
uma próxima vez. Não prometi a mim mesmo o nunca mais. Assim, a próxima foi muito, muito
boa, e a próxima depois dessa foi ótima. Logo Andie se tornou um contraponto físico a todas as
coisas Amy. Ela ria comigo e me fazia rir, ela não me contradizia ou criticava imediatamente.
Nunca me censurava. Ela era fácil. Tudo era fácil para caralho. E pensei: O amor faz você
querer ser um homem melhor — certo, certo. Mas talvez amor, amor de verdade, também lhe
dê permissão para ser apenas o homem que é.
Eu ia contar a Amy. Eu sabia que tinha de acontecer. Mas continuei a não contar, durante
meses e meses. E depois mais meses. Foi sobretudo covardia. Não podia suportar ter a conversa,
ter de me explicar. Não conseguia imaginar ter de discutir o divórcio com Rand e Marybeth, já
que eles certamente iriam se meter. Mas na verdade foi também meu forte pragmatismo — era
quase grotesco quão prático (interesseiro?) eu podia ser. Eu não pedira o divórcio a Amy
também porque o dinheiro de Amy financiara O Bar. Ela basicamente era dona dele, e certamente
o tomaria de volta. E eu não poderia suportar olhar para minha gêmea tentando ser corajosa
enquanto perdia mais dois anos de sua vida. Então me permiti permanecer naquela situação
infeliz, supondo que em algum momento Amy iria assumir o comando, Amy exigiria o divórcio, e
então eu poderia bancar o cara bonzinho.
Esse desejo — de sair da situação sem culpa — era desprezível. Quanto mais desprezível eu
me tornava, mais desejava Andie, que sabia que eu não era tão ruim quanto parecia, se minha
história fosse publicada nos jornais para que estranhos lessem. Amy vai se divorciar de você, eu
ficava pensando. Ela não pode deixar isso se arrastar durante muito mais tempo. Mas à medida
que a primavera acabava e chegava o verão, depois o outono e depois o inverno, e eu me tornava
um traidor de todas as estações — um traidor com uma amante agradavelmente impaciente —,
ficou claro que algo teria de ser feito.
— Quer dizer, eu amo você, Nick — admitiu Andie ali, surrealmente, no sofá de minha irmã.
— Não importa o que aconteça. Eu realmente não sei mais o que dizer, eu me sinto bem... —
disse, jogando as mãos para o alto antes de concluir: — Burra.
— Não se sinta burra — falei. — Também não sei o que dizer. Não há nada a dizer.
— Você pode dizer que me ama, não importa o que aconteça.
Eu pensei: Não posso mais dizer isso em voz alta. Eu o dissera uma ou duas vezes, um
murmúrio salivoso junto ao pescoço dela, com saudade de algo. Mas as palavras estavam ali à
mostra, assim como muitas outras coisas. Então pensei na trilha que havíamos deixado, nosso
romance agitado, semiescondido, com o qual não me preocupara o suficiente. Se o prédio dela
tinha câmera de segurança, eu estava nela. Eu comprara um telefone descartável apenas para suas
ligações, mas todas aquelas mensagens de voz e texto iam para o celular muito permanente dela.
Eu lhe escrevera um cartão de dia dos namorados safadinho, que já podia ver no noticiário,
rimando caceta com boceta. E mais: Andie tinha vinte e três anos. Eu supunha que minhas
palavras, minha voz, até mesmo fotos minhas tivessem sido capturadas por uma variedade de
aparelhos eletrônicos. Certa noite, eu ficara olhando fotos no celular dela, ciumento, possessivo,
curioso, e vira muitas imagens de um ou dois ex-namorados sorrindo orgulhosos em sua cama, e
imaginei que em algum momento eu entraria para o clube — eu meio que queria entrar para o
clube —, e por alguma razão aquilo não me preocupara, embora pudesse ser baixado e enviado
para um milhão de pessoas no espaço de um segundo vingativo.
— Esta é uma situação extremamente bizarra, Andie. Só preciso que você tenha paciência.
Ela se afastou de mim.
— Você não pode dizer que me ama, não importa o que aconteça?
— Eu amo você, Andie. Mesmo.
Eu sustentei seu olhar. Dizer eu amo você era perigoso naquele momento, mas não dizer
também era.
— Então trepa comigo — sussurrou.
Ela começou a puxar meu cinto.
— Temos de ser muito cuidadosos agora. Eu... É uma situação muito, muito ruim para mim se
a polícia descobrir sobre nós. Parece mais que ruim.
— É com isso que você está preocupado?
— Sou um homem com uma esposa desaparecida e uma... namorada secreta. É, isso parece
ruim. Parece criminoso.
— Dito assim parece uma safadeza — disse, os seios ainda à mostra.
— As pessoas não nos conhecem, Andie. Elas irão pensar que é safadeza.
— Jesus, parece um filme noir ruim.
Sorri. Eu apresentara Andie ao noir — a Bogart e À beira do abismo, Pacto de sangue,
todos os clássicos. Era uma das coisas de que mais gostava entre nós, que eu pudesse ensinar
coisas a ela.
— Por que simplesmente não contamos à polícia? — sugeriu. — Isso não seria melhor do
que...
— Não. Andie, nem pense nisso. Não.
— Eles vão descobrir...
— Por quê? Por que descobririam? Você contou a alguém sobre nós, querida?
Ela me lançou um olhar inquieto. Eu me senti mal. A noite não estava indo como ela achava
que seria. Ela ficara animada em me ver, ficara imaginando um encontro lascivo, um consolo
físico, e eu estava ocupado demais protegendo meu próprio rabo.
— Querida, desculpe-me, eu só preciso saber — declarei.
— Não pelo nome.
— Como assim, não pelo nome?
— Quer dizer — falou, finalmente levantando o vestido —, meus amigos, minha mãe, sabem
que estou saindo com alguém, mas não pelo nome.
— E não por qualquer tipo de descrição, certo? — perguntei, com mais urgência do que
pretendia, com a sensação de estar segurando um teto que desabava. — Duas pessoas sabem
sobre isto, Andie. Você e eu. Se você me ajudar, se você me ama, seremos apenas nós a saber, e
a polícia nunca irá descobrir.
Ela percorreu meu maxilar com um dedo.
— E se... E se eles nunca encontrarem Amy?
— Você e eu, Andie, ficaremos juntos não importa o que aconteça. Mas só se tivermos
cuidado. Se não tivermos cuidado, é possível... A situação parece ruim o bastante para que eu vá
para a prisão.
— Talvez ela tenha fugido com alguém — disse ela, apoiando a bochecha em meu ombro. —
Talvez...
Eu podia ver seu cérebro de garota zumbindo, transformando o desaparecimento de Amy em
um romance efervescente e escandaloso, ignorando qualquer realidade que não se encaixasse na
narrativa.
— Ela não fugiu. É muito mais sério que isso — afirmei, colocando um dedo sob seu queixo
para que ela olhasse para mim. — Andie? Preciso que você leve isso muito a sério, está bem?
— Claro que estou levando isso a sério. Mas preciso poder falar mais com você. Ver você.
Estou pirando, Nick.
— Precisamos ficar quietos por ora — disse, segurando seus ombros para que ela olhasse
para mim. — Minha esposa está desaparecida, Andie.
— Mas você nem...
Eu sabia o que ela estava prestes a dizer — você nem a ama —, mas ela foi suficientemente
inteligente para se interromper.
Andie colocou os braços em volta de mim.
— Olha, não quero brigar. Sei que você gosta de Amy, e sei que deve estar realmente
preocupado. Também estou. Sei que você está sob... Não posso nem imaginar a pressão. Então,
não me incomodo em ser ainda mais discreta do que antes, se é que isso é possível. Mas lembrese
de que isso também me afeta. Preciso saber de você. Uma vez por dia. Ligue quando puder,
mesmo que só por alguns segundos, para que eu possa ouvir sua voz. Uma vez por dia, Nick.
Todo dia. Senão, vou enlouquecer. Eu vou enlouquecer.
Ela sorriu para mim e sussurrou:
— Agora me beije.
Eu a beijei bem de leve.
— Eu amo você — declarou ela, e eu beijei seu pescoço e murmurei minha resposta.
Ficamos sentados em silêncio, a TV tremeluzindo.
Deixei meus olhos se fecharem. Agora me beije, quem dissera isso?
* * *
Acordei sobressaltado pouco depois das cinco da manhã. Go estava acordada, eu podia ouvila
no final do corredor, água correndo no banheiro. Sacudi Andie — são cinco da manhã, são
cinco da manhã —, e, com promessas de amor e telefonemas, empurrei-a rapidamente para a
porta como um caso envergonhado de uma noite.
— Lembre-se: telefone todo dia — sussurrou Andie.
Ouvi a porta do banheiro sendo aberta.
— Todo dia — falei, e me escondi atrás da porta enquanto a abria e Andie saía.
Quando me virei, Go estava de pé na sala. Sua boca estava aberta, chocada, mas o resto do
corpo estava em fúria total: mãos nos quadris, sobrancelhas em V.
— Nick. Seu imbecil.

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