domingo, 16 de agosto de 2015

NICK DUNNE SEIS DIAS SUMIDA


Go me empurrou para dentro do carro e dirigiu em disparada para longe do parque.
Passamos por Noelle, que caminhava com Boney e Gilpin até o carro de polícia, seus trigêmeos
cuidadosamente vestidos cambaleando atrás dela como a rabiola de uma pipa. Zunindo para além
da multidão: centenas de rostos, um pontilhismo carnoso de raiva dirigida diretamente a mim.
Nós fugimos, basicamente. Tecnicamente.
— Uau, que emboscada — murmurou Go.
— Emboscada? — repeti, aturdido.
— Você acha que foi por acaso, Nick? A Piranha dos Trigêmeos já deu seu depoimento à
polícia. Nada sobre gravidez.
— Ou eles estão jogando as bombas uma de cada vez.
Boney e Gilpin já sabiam que minha esposa estava grávida e decidiram fazer disso uma
estratégia. Claramente, eles acreditavam de verdade que eu a matara.
— Noelle estará em todos os noticiários da TV a cabo durante a próxima semana, falando
sobre como você é um assassino e ela, a melhor amiga de Amy em busca de justiça. Piranha
querendo atenção da mídia. Maldita piranha querendo atenção da mídia.
Apertei o rosto contra a janela, desmontei no assento. Vários carros de canais de TV nos
seguiam. Dirigimos em silêncio, a respiração de Go desacelerando. Observei o rio, um galho de
árvore boiando a caminho do sul.
— Nick? — chamou finalmente. — Isso é... Hã... Você...
— Não sei, Go. Amy não me disse nada. Se ela estava grávida, por que contaria a Noelle e
não contaria a mim?
— Por que ela tentaria conseguir uma arma e não contaria a você? — retrucou Go. — Nada
disso faz sentido.
* * *
Nós fomos para a casa de Go — as equipes de televisão estariam sitiando minha casa —, e
assim que passei pela porta meu celular tocou, o de verdade. Eram os Elliott. Respirei fundo, me
enfiei em meu antigo quarto, depois atendi.
— Preciso perguntar isso, Nick — disse Rand, a TV tagarelando ao fundo. — Preciso que
você me diga. Você sabia que Amy estava grávida?
Fiz uma pausa, tentando descobrir a forma certa de dizer aquilo, a improbabilidade de uma
gravidez.
— Responda, caramba!
O volume da voz de Rand fez com que eu falasse mais baixo. Falei em uma voz suave,
tranquilizadora, uma voz que vestia um cardigã.
— Amy e eu não estávamos tentando engravidar. Ela não queria engravidar, Rand, não sei se
um dia iria querer. Nós nem sequer estávamos... Não estávamos sequer tendo relações com muita
frequência. Eu ficaria... muito surpreso se ela estivesse grávida.
— Noelle disse que Amy foi ao médico para confirmar a gravidez. A polícia já pediu uma
intimação para os registros. Saberemos esta noite.
Encontrei Go na sala de estar, sentada com uma xícara de café frio à mesa de carteado de
minha mãe. Ela se virou apenas o suficiente para mostrar que sabia que eu estava ali, mas não me
deixou ver seu rosto.
— Por que você fica mentindo, Nick? — perguntou. — Os Elliott não são seus inimigos.
Você não deveria pelo menos dizer a eles que era você que não queria filhos? Por que fazer Amy
parecer a vilã?
Engoli a raiva novamente. Meu estômago queimava com ela.
— Estou exausto, Go. Caramba. A gente tem que fazer isto agora?
— A gente vai encontrar um momento melhor?
— Eu queria filhos, sim. Tentamos por um tempo, sem sorte. Começamos até a pesquisar
sobre tratamentos de fertilidade. Mas então Amy decidiu que não queria filhos.
— Você me disse que você não queria.
— Eu estava tentando ser positivo.
— Ah, que máximo, outra mentira — disse Go. — Eu não sabia que você era tão... O que
você está dizendo não faz sentido, Nick. Eu estava lá, no jantar para festejar O Bar, e mamãe
entendeu mal, pensou que vocês iam anunciar que estavam grávidos, e isso fez Amy chorar.
— Bem, não posso explicar tudo o que Amy fez na vida, Go. Não sei por que, um maldito ano
atrás, ela chorou daquele jeito. Está bem?
Go ficou sentada em silêncio, a luz laranja do poste na rua criando uma aura de estrela do
rock ao redor de seu perfil.
— Isso vai ser um verdadeiro teste para você, Nick — murmurou, sem olhar para mim. —
Você sempre teve problemas com a verdade, sempre apelou para uma pequena mentira se achava
que podia evitar uma discussão de verdade. Você sempre fez as coisas do jeito mais fácil. Dizer
à mamãe que foi para o treino de beisebol quando na verdade tinha saído do time; dizer à mamãe
que foi à igreja quando estava no cinema. É uma espécie de compulsão estranha.
— Isto é muito diferente de beisebol, Go.
— É bastante diferente. Mas você continua a mentir como um garotinho. Ainda quer
desesperadamente que todos pensem que você é perfeito. Você nunca quer ser o vilão. Então
você diz aos pais de Amy que ela não queria filhos. Você não me diz que está traindo sua esposa.
Você jura que os cartões de crédito em seu nome não são seus, jura que estava na praia sendo que
você odeia praia, jura que seu casamento era bom. Simplesmente não sei no que acreditar no
momento.
— Você está brincando, não é?
— Desde que Amy desapareceu, tudo o que você fez foi mentir. Isso faz com que eu me
preocupe. Com o que está acontecendo.
Silêncio total por um momento.
— Go, você está dizendo o que eu acho que está dizendo? Porque se está, algo morreu entre
nós, porra.
— Lembra-se da brincadeira que você sempre fazia com mamãe quando éramos pequenos?
Você ainda me amaria se? Você ainda me amaria se eu socasse Go? Você ainda me amaria se
eu roubasse um banco? Você ainda me amaria se eu matasse alguém?
Eu não disse nada. Minha respiração estava ficando acelerada demais.
— Eu ainda o amaria — disse Go.
— Go, você realmente precisa que eu diga?
Ela permaneceu em silêncio.
— Eu não matei Amy.
Ela permaneceu em silêncio.
— Você acredita em mim? — perguntei.
— Eu amo você.
Ela colocou a mão em meu ombro e foi para seu quarto, fechou a porta. Esperei para ver a luz
se acender no quarto, mas ele permaneceu escuro.
* * *
Dois segundos depois, meu celular tocou. Dessa vez era o descartável do qual eu precisava
me livrar e não conseguia, porque sempre, sempre, sempre tinha de atender por causa de Andie.
Uma vez por dia, Nick. Precisamos nos falar uma vez por dia.
Eu me dei conta de que estava trincando os dentes.
Respirei fundo.
* * *
Nos limites da cidade havia os restos de um forte do Velho Oeste que agora era mais um
parque ao qual ninguém nunca ia. Tudo o que restava era a torre de vigilância de dois andares em
madeira, cercada por balanços e gangorras enferrujados. Andie e eu havíamos nos encontrado ali
uma vez, nos agarrando à sombra da torre.
Dei três voltas compridas pela cidade no velho carro de minha mãe para ter certeza de que
não estava sendo seguido. Era loucura ir — não eram nem dez horas da noite —, mas eu não tinha
mais escolha quanto aos nossos encontros. Preciso ver você, Nick, esta noite, agora mesmo, ou
juro que vou surtar. Enquanto chegava ao forte, eu me dei conta do seu isolamento e do que
aquilo significava: Andie ainda estava disposta a me encontrar em um lugar solitário e sem
iluminação, eu, o assassino da esposa grávida. Enquanto andava até a torre sobre a grama alta e
irregular, podia ver apenas a silhueta dela na pequena janela da torre de madeira.
Ela vai acabar com você, Nick. Acelerei pelo resto do caminho.
* * *
Uma hora depois eu estava aninhado em minha casa infestada de paparazzi, esperando. Rand
disse que eles saberiam antes da meia-noite se minha esposa estava grávida. Quando o telefone
tocou, eu o agarrei imediatamente apenas para descobrir que era da maldita Comfort Hill. Meu
pai sumira novamente. A polícia havia sido notificada. Como sempre, eles fizeram parecer que
eu era o babaca. Se isso acontecer novamente, teremos de encerrar a estadia de seu pai. Senti
um arrepio nauseante: meu pai indo morar comigo — dois desgraçados patéticos e raivosos —,
isso certamente daria a pior comédia sobre companheiros do mundo. O fim seria um assassinato
seguido de suicídio. Ba-dum-dum! Risos gravados.
Eu estava desligando o telefone, olhando para o rio pela janela dos fundos — fique calmo,
Nick —, quando vi uma figura encolhida junto à casa de barcos. Achei que devia ser um repórter
perdido, mas então reconheci algo naqueles punhos cerrados e nos ombros tensos. Comfort Hill
ficava a uma distância de trinta minutos a pé pela River Road. Ele de alguma forma se lembrava
de nossa casa, quando não conseguia se lembrar de mim.
Saí para a escuridão e o vi balançando um pé sobre a margem, olhando fixamente para o rio.
Menos maltrapilho que antes, embora tivesse um cheiro azedo de suor.
— Pai? O que você está fazendo aqui? Todo mundo está preocupado.
Ele olhou para mim com olhos castanho-escuros, olhos penetrantes, não os de cor leitosa que
alguns idosos adquirem. Teria sido menos desconcertante se estivessem leitosos.
— Ela me disse para vir — falou, irritado. — Ela me disse para vir. Esta é minha casa, posso vir sempre que quiser.
— Você caminhou até aqui?
— Posso vir aqui a qualquer hora. Você pode me odiar, mas ela me ama.
Eu quase ri. Até meu pai estava reinventando uma relação com Amy.
Alguns fotógrafos no meu gramado da frente começaram a disparar suas câmeras. Eu tinha de
levar meu pai de volta para a casa de repouso. Podia imaginar a matéria que eles teriam de fazer
para acompanhar essas imagens exclusivas: que tipo de pai era Bill Dunne, que tipo de homem
ele havia criado? Bom Deus, se meu pai começasse uma de suas arengas contra as piranhas...
Telefonei para a Comfort Hill, e após alguma reticência eles mandaram um funcionário para
resgatá-lo. Eu fiz toda uma cena ao conduzi-lo gentilmente até o sedã, murmurando
tranquilizadoramente enquanto os fotógrafos obtinham suas imagens.
Meu pai. Eu sorri enquanto ele partia. Tentei dar uma aparência bem filho orgulhoso. Os
repórteres me perguntaram se eu matara minha esposa. Eu estava entrando em casa quando um
carro da polícia estacionou.
* * *
Era Boney que ia à minha casa, enfrentando os paparazzi, para me contar. Ela fez isso
gentilmente, com uma voz mansa de pontinha do dedo.
Amy estava grávida.
Minha esposa desaparecera com um bebê meu dentro dela. Boney me observou, esperando
minha reação — para incluir isso no relatório policial —, então eu disse a mim mesmo, Aja da
forma certa, não estrague tudo, aja do modo como um homem age ao receber essa notícia.
Enfiei a cabeça nas mãos e murmurei Meu Deus, Meu Deus, e enquanto fazia isso, vi minha
esposa no chão de nossa cozinha, as mãos na barriga e a cabeça esmagada.
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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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