segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Capítulo Vinte e Cinco


Acho que para os homens o amor é algo formado de lascívia e perplexidade
em partes iguais. A parte da perplexidade as mulheres entendem. A da
lascívia, apenas acham que entendem. Muito poucas — talvez uma em vinte
— têm algum tipo de conceito do que seja realmente a lascívia, ou quão
profunda ela corre. Talvez isso seja bom para o sono delas e sua paz de
espírito. Não estou falando da lascívia de libertinos, estupradores e
molestadores; falo da dos vendedores de sapatos e diretores de ensino
médio.
Sem mencionar a dos escritores e advogados.
Chegamos ao pátio de Mattie às 10h50. Enquanto estacionava meu
Chevy ao lado do enferrujado jipe dela, a porta do trailer se abriu e Mattie
surgiu no degrau de cima. Prendi a respiração e pude ver que John fazia o
mesmo a meu lado.
Mattie era provavelmente a moça mais bonita que eu já tinha visto
em minha vida, com seu short cor-de-rosa e blusa com gola de marinheiro
combinando. O short não era curto o suficiente para ser vulgar (palavra de
minha mãe), mas era curto o suficiente para ser provocante. Amarrada
com laços nos ombros, a blusa mostrava um pedaço certo de bronzeado
para fazer sonhar quem o olhasse. O cabelo de Mattie caía sobre os
ombros. Ela sorria e acenava. Pensei: Mattie venceu, levem-na para a sala
de jantar do country club agora, vestida como está, que ela ofuscará todo
mundo.
— Ah, meu Deus — disse John. Havia um desalentado desejo em sua
voz. — Tudo isso e um saco de batatas fritas.
— É — falei. — Ponha seus olhos de volta na cabeça, garotão.
Ele colocou as mãos em concha no rosto, como se fizesse
exatamente aquilo. Enquanto isso, George estacionava o Altima perto de
nós.
— Vamos — eu disse, abrindo a porta. — Hora da festa.
— Não posso tocar nela, Mike — disse John. — Vou derreter.
— Ande logo, seu idiota.
Mattie desceu os degraus e passou pelo vaso com o tomateiro. Atrás
dela, Ki vestia uma roupa semelhante à da mãe, só que num tom verde-
escuro. Vi que estava acometida outra vez de um acesso de timidez;
mantinha uma mão firme na perna de Mattie e um polegar na boca.
— Os rapazes chegaram! Os rapazes chegaram! — exclamou Mattie,
rindo, e se atirou nos meus braços. Abraçou-me apertado e beijou o canto
de minha boca. Respondi ao abraço e beijei-lhe o rosto. Então ela foi até
John, leu o que estava escrito em sua camiseta, bateu as mãos num
aplauso e o abraçou. Ele a apertou bastante para um cara que estava com
medo de derreter, pensei, levantando-a no ar e girando-a num círculo
enquanto ela pendia de seu pescoço e ria.
— Moça rica, rica, rica! — cantou John, e a colocou sobre as solas
de cortiça dos sapatos brancos.
— Moça livre, livre, livre! — cantou ela de volta. — Para o inferno
com os ricos!
Antes que ele pudesse responder, ela beijou-o firmemente na boca.
Os braços dele se ergueram para enlaçá-la, mas ela recuou antes que
pudessem completar o gesto. Ela se virou para Rommie e George, em pé
lado a lado e dando a impressão de sujeitos que quisessem explicar tudo
sobre a Igreja Mórmon.
Dei um passo à frente pretendendo fazer as apresentações, mas
John ocupou-se disso, e um de seus braços conseguiu realizar sua missão
finalmente — enlaçou a cintura de Mattie ao conduzi-la até os homens.
Enquanto isso, uma mãozinha deslizou para a minha. Olhei para baixo
e vi que Ki erguia os olhos para mim, o rosto grave e pálido e tão bonito
quanto o da mãe. O cabelo louro, brilhante e recém-lavado estava preso
atrás com uma presilha de veludo.
— Acho que o pessoal da geleira não gosta de mim agora — disse
ela. O sorriso e a despreocupação haviam sumido, pelo menos no momento.
Ki parecia à beira das lágrimas. — Minhas letras todas disseram tchau.
Levantei-a, sustentando-a sobre o braço dobrado como fiz no dia em
que a encontrei andando pelo meio da rota 68 de roupa de banho. Beijei sua
testa e depois a ponta do nariz. Sua pele era uma seda perfeita.
— Sei que disseram — falei. — Vou comprar outras para você.
— Promete? — Olhos azul-escuros e duvidosos fixaram-se nos
meus.
— Prometo. E vou te ensinar palavras especiais como zigoto e bíbulo.
Conheço um monte de palavras especiais.
— Quantas?
— Cento e oitenta.
Um trovão estrondeou no oeste. Não parecia mais alto do que os
outros, mas de algum modo mais preciso. Os olhos de Ki viraram naquela
direção, depois voltaram aos meus.
— Estou com medo, Mike.
— Medo? De quê?
— De não sei o quê. Da mulher com o vestido de Mattie. Dos
homens que a gente viu. — Então olhou por cima de meu ombro. — Lá vem
mamãe. — Já ouvi atrizes pronunciarem a fala Não na frente das crianças
exatamente com aquele tom de voz. — Me põe no chão.
Coloquei-a no chão. Mattie, John, Rommie e George se juntaram a
nós. Ki correu para Mattie, que a pegou e então nos olhou como um general
supervisionando suas tropas.
— Trouxe a cerveja? — perguntou.
— Sim, senhora — falei. — Uma caixa de Budweiser e uma dúzia de refrigerantes variados. Além de limonada.
— Ótimo. Sr. Kennedy...
— George, senhora.
— Então, George. E se me chamar de senhora de novo eu lhe dou um
soco no nariz. Meu nome é Mattie. Você pode dar um pulo de carro no
Armazém Lakeview — ela apontou para a loja na rota 68, cerca de uns 800
metros de distância — e comprar gelo?
— Claro.
— Sr. Bissonette...
— Rommie.
— Há uma hortazinha na extremidade norte do trailer, Rommie. Pode
pegar umas duas alfaces com uma cara boa?
— Posso, sim.
— John, vamos pôr a carne na geladeira. Quanto a você, Michael... —
Ela apontou para a churrasqueira. — Os carvões são do tipo instantâneo,
deixe cair um fósforo e se afaste. Cumpra o seu dever.
— Pois não, minha senhora — eu disse, caindo de joelhos diante dela.
Aquilo finalmente arrancou uma risadinha de Ki.
Rindo, Mattie pegou minha mão e me levantou.
— Vamos, Sir Galahad — disse ela. — Vai chover. Quero estar
segura dentro de casa e tão cheia de comida que não possa dar um pulo quando a chuva começar.

Na cidade, as festas se iniciam com cumprimentos à porta, recolhimentos
de casacos e aqueles peculiares beijinhos no ar (quando exatamente terá
começado essa esquisitice social?). No campo, elas começam com tarefas.
Você vai buscar, carrega, parte à procura de coisas como pinças de
churrasco e luvas de cozinha. A anfitriã convoca dois homens para mudar
de lugar a mesa do piquenique, depois decide que, na verdade, ela ficava
melhor onde estava antes, e pede que a ponham no lugar anterior. De
repente, em determinado momento, você descobre que está se divertindo.
Empilhei os carvões até parecerem com a pirâmide no saco e então
joguei um fósforo neles. Incendiaram-se satisfatoriamente e me afastei,
enxugando a testa com o antebraço. O frio e o ar limpo podiam estar
chegando, mas certamente ainda não estavam ao alcance de um grito. O
sol tinha perfurado as nuvens e o dia passou de opaco a ofuscante; no
entanto, pesadas nuvens de cetim negro continuavam a se empilhar no
oeste. Era como se a noite tivesse estourado um vaso sanguíneo naquele
céu.
— Mike?
Procurei Kyra com os olhos.
— O que é, meu bem?
— Você vai cuidar de mim?
— Vou — respondi sem a menor hesitação.
Por um momento, algo na minha resposta — talvez só a rapidez com
que foi dada — pareceu perturbá-la. Então sorriu.
— Tá — disse. — Olha ali o homem do gelo!
George estava de volta do armazém. Estacionou o carro e saiu. Andei
até ele, com Kyra segurando minha mão e balançando-a possessivamente
para a frente e para trás. Rommie veio conosco, fazendo malabarismos
com três alfaces — não acho que ele era uma grande ameaça ao sujeito
que tinha fascinado Ki no parque, sábado à noite.
Abrindo a porta de trás do Altima, George retirou dois sacos de gelo.
— O armazém estava fechado — falou. — Tinha um cartaz dizendo
REABRIRÁ ÀS 17 HORAS. Era muito tempo para esperar; então peguei o
gelo e coloquei o dinheiro na fenda para a correspondência.
Haviam fechado para o funeral de Royce Merrill, claro. Tinham
desistido de quase um dia inteiro de clientes no auge da estação turística
para acompanhar o enterro do velho companheiro. Era um tanto tocante.
Achei também que era um tanto sinistro.
— Posso carregar o gelo? — perguntou Kyra.
— Acho que sim, mas não vá se congelizar — disse George, e
cuidadosamente colocou um saco com 2 quilos de gelo nos braços
esticados de Ki.
— Congelizar — disse Kyra, dando uma risadinha. Começou a andar
na direção do trailer, de onde Mattie acabava de sair. Atrás dela, John a
contemplava com olhos de um beagle. — Mamãe, olha! Estou congelizando!
Peguei o outro saco.
— Conheço a geladeira do lado de fora, mas não fica trancada a
cadeado?
— Sou amigo da maioria dos cadeados — disse George.
— Ah, entendo.
— Mike! Pegue! — John me atirou um frisbee vermelho, que flutuou
na minha direção, mas muito alto. Eu pulei e o peguei, e subitamente
Devore voltou à minha mente: O que há de errado com você, Rogette?
Você nunca lançou como uma garota. Pegue ele!
Olhei para baixo e vi Ki me olhando.
— Não pense nessa coisa triste — falou.
Sorri para ela e então lhe atirei o frisbee.
— Tá, nada de coisa triste. Continue, meu bem. Jogue o disco para
mamãe. Vamos ver se você pode.
Ela sorriu de volta, se virou e fez um lançamento rápido e acurado
para a mãe — um lançamento tão forte que Mattie quase o deixou escapar.
Fosse lá o que Kyra Devore pudesse ser além disso, era uma campeã em
potencial no lançamento de frisbee.
Mattie atirou o frisbee para George, que se virou, com a cauda do
absurdo paletó marrom alargando-se, e pegou-o com habilidade por trás das
costas. Mattie riu e aplaudiu, a borda da blusa flertando com seu umbigo.
— Que exibido! — gritou John dos degraus.
— A inveja é um sentimento feio — disse George para Rommie
Bissonette, atirando-lhe o frisbee. Rommie jogou-o para John, mas, atirado
longe demais, o disco bateu na lateral do trailer. Enquanto John corria
degraus abaixo para pegá-lo, Mattie virou-se para mim.
— Meu som está na mesinha da sala, junto de uma pilha de CDs. A
maioria deles é bem velha, mas pelo menos é música. Você os traz para
cá?
— Claro.
Entrei. Lá dentro estava quente, apesar dos três ventiladores
estrategicamente colocados e trabalhando em tempo integral. Contemplei a
lamentável mobília fabricada em massa e o nobre esforço de Mattie para
acrescentar-lhe alguma personalidade; a gravura de Van Gogh que não devia
combinar com uma quitinete de trailer, mas combinava; a reprodução de
Nighthawks, de Edward Hopper, acima do sofá; as cortinas tingidas que
teriam feito Jo rir. Havia ali uma coragem que me deixou triste por ela e
novamente furioso com Max Devore. Morto ou não, tive vontade de lhe dar
um chute no traseiro.
Entrei na sala de estar e vi o novo romance de Mary Higgins Clark na
mesinha junto ao sofá, com um marcador pendurado para fora. Ao lado
dele, duas fitas de cabelo de menina com algo que me pareceu familiar,
embora não conseguisse lembrar sequer de ter visto Ki usá-las. Fiquei ali
por mais um momento, franzindo as sobrancelhas; então peguei o rádio, os CDs e voltei para fora.
— Ei, rapazes! Vamos agitar!

Eu estava bem até que ela dançasse. Não sei se isso tem importância para
você, mas para mim tem. Eu estava bem até que ela dançasse. Depois eu
me senti perdido.
Levamos o frisbee para a parte de trás da casa, parcialmente para
não enfurecermos nenhum habitante da cidade a caminho do funeral com a
nossa barulheira e animação, mas principalmente porque o quintal de Mattie
era um bom lugar para jogar — solo nivelado e grama baixa. Após perder
uns dois lançamentos, Mattie jogou para longe os sapatos de festa, entrou
correndo na casa e voltou de tênis. Depois daquilo ela ficou muito melhor.
Brincamos com o frisbee, insultamo-nos uns aos outros, tomamos
cerveja, rimos um bocado. Ki não era grande coisa para pegar, mas tinha
um braço fenomenal para uma criança de 3 anos, e jogava com animação.
Rommie tinha colocado o rádio num degrau dos fundos do trailer, e o
aparelho soltou uma nuvem de músicas do final dos anos 1980 e início dos
1990: U2, Tears for Fears, Eurythmics, Crowded House, A Flock of Seagulls,
Ah-Hah, os Bangles, Melissa Etheridge, Huey Lewis e os News. Tive a
impressão de conhecer cada canção, cada refrão.
Suamos e corremos à luz do meio-dia. Contemplamos as pernas
longas e bronzeadas de Mattie movendo-se de cá para lá e escutamos os
alegres trinados do riso de Kyra. Em determinado momento, Rommie
Bissonette plantou bananeira, sendo todos os seus trocados cuspidos dos
bolsos. John riu até ter que sentar, as lágrimas lhe rolando dos olhos. Ki
correu e atirou-se sentada em seu colo indefeso. John parou de rir na hora.
“Uuf!”, gritou, me olhando com os olhos brilhantes e magoados, enquanto
seus colhões amassados tentavam sem dúvida voltar para dentro do corpo.
— Kyra Devore! — gritou Mattie, olhando apreensiva para John.
— Deúbei meu própio quarterbak — disse Ki com orgulho.
John sorriu debilmente para ela e levantou-se cambaleando.
— É — disse. — É verdade. E o juiz vai lhe tirar pontos por você
amassar o adversário.
— Tudo bem, cara? — perguntou George. Parecia preocupado, mas
sua voz sorria.
— Estou ótimo — disse John, e atirou-lhe o frisbee que flutuou
lentamente pelo pátio. — Vá em frente, jogue. Vamos ver o que consegue.
O trovão soou mais alto, mas as nuvens negras ainda estavam todas
a oeste de nós; o céu lá em cima continuava de um inofensivo e úmido
azul. Os pássaros ainda gorjeavam e os grilos cantavam na grama. Havia
um tremor de calor sobre a churrasqueira, e logo chegaria a hora de
atacarmos os filés nova-iorquinos de John. O frisbee ainda voava, vermelho
contra o verde da grama e das árvores e o azul do céu. Ainda me sentia
tomado pela luxúria, mas tudo ainda estava bem — os homens estão
sempre com tesão pelo mundo afora, e praticamente o tempo inteiro, e as
calotas polares nem por isso derretem. Mas Mattie dançou, e tudo se
modificou então.
Era uma velha canção de Don Henley, conduzida por um estribilho de
guitarra realmente desagradável.
— Nossa, eu adoro essa — exclamou Mattie. O frisbee voou para ela,
que o pegou, deixou-o cair, pisou nele como se fosse um quente holofote
vermelho mirado sobre um palco de boate e começou a dançar. Colocou as
mãos atrás do pescoço, depois nos quadris, e depois atrás das costas.
Dançava em pé, com as pontas dos tênis no frisbee. Dançava sem se
mover. Dançava como falam naquela canção — como uma onda no oceano.
“The government bugged the men’s room in the local disco lounge,
And all she wants to do is dance...
to keep the boys from selling all the weapons they can scrounge,
And all she wants to do is dance, dance.”
[O governo grampeou o banheiro dos homens / na sala de estar da
discoteca local / E só o que ela quer é dançar, dançar... / Para impedir os
rapazes de vender / todas as armas que podem filar, / E só o que ela quer
é dançar, dançar.]

As mulheres ficam sexy quando dançam — tremendamente sexy —,
mas não foi só a isso que eu reagi. Com a luxúria eu podia lidar. Aquilo,
porém, era mais do que a luxúria, e nada fácil de administrar. Era algo que
sugava meu ar e fazia com que me sentisse, literalmente, à mercê dela.
Naquele momento, ela era a coisa mais bela que eu já tinha visto, não uma
mulher bonita de short e blusa de marinheiro dançando num frisbee sem
sair do lugar, e sim Vênus revelada. Era tudo que eu perdi durante os
últimos quatro anos, quando estive tão mal que sequer tinha noção de estar
perdendo alguma coisa. Mattie me despojou das últimas defesas que eu
possa ter tido. A diferença de idade não tinha importância. Se para os
outros eu parecia ter a língua pendurada para fora mesmo de boca fechada,
então que fosse. Se perdesse minha dignidade, orgulho, senso de
individualidade, então que fosse. Quatro anos sozinho tinham me ensinado
que há coisas piores a se perder.
Quanto tempo ela ficou lá, dançando? Não sei. Provavelmente não
muito tempo, nem mesmo um minuto, e então percebeu que a
contemplávamos extasiados — porque, em algum grau, todos viam o que eu
via e sentiam o que eu sentia. Por aquele minuto, ou seja lá quanto tempo
foi, acho que nenhum de nós conseguiu respirar muito.
Mattie desceu do frisbee, rindo e enrubescendo ao mesmo tempo,
confusa, mas não pouco à vontade de fato.
— Desculpe — disse. — Eu simplesmente... adoro essa música.
— Ela só quer é dançar — disse Rommie.
— É, às vezes é só isso que ela quer — disse Mattie, e enrubesceu
mais do que nunca. — Desculpe, tenho que ir lá dentro. — Ela me atirou o
frisbee e disparou para o trailer.
Respirei profundamente, tentando voltar à estável realidade, e vi John
fazendo o mesmo. George Kennedy tinha uma expressão suavemente
atônita, como se alguém lhe tivesse dado um sedativo leve que agora
finalmente fazia efeito.
Um trovão retumbou. Desta vez parecia mais perto.
Lancei o frisbee para Rommie.
— O que é que você acha?
— Acho que estou apaixonado — respondeu, e então pareceu se dar
uma pequena sacudida mental, como pude ver em seus olhos. — Também
acho que já é hora de prepararmos esses filés, se vamos comer aqui fora.
Quer me ajudar?
— Claro.
— Eu ajudo também — disse John.
Voltamos ao trailer, deixando George e Kyra brincando com o disco.
Kyra lhe perguntava se ele já tinha pegado algum “crinimoso”. Na cozinha,
em pé junto à geladeira, Mattie empilhava os filés numa travessa.
— Obrigada por terem vindo, rapazes. Eu estava a ponto de desistir
e engolir um bife desses exatamente como está. São as coisas mais
bonitas que eu já vi na vida.
— Você é a coisa mais bonita que eu já vi na vida — disse John.
Estava sendo totalmente sincero, mas o sorriso que Mattie lhe lançou era
distraído e um tanto divertido. Anotei mentalmente: jamais elogie a beleza
de uma mulher quando ela tem dois filés na mão. Simplesmente não
funciona.
— Você é um bom churrasqueiro? — perguntou-me ela. — Diga a
verdade, porque essa carne aqui é boa demais para ser estragada.
— Posso dar conta do recado.
— Certo, está contratado. John, você é o assistente. Rommie, me
ajude com as saladas.
— Com todo prazer.
George e Ki tinham ido para a frente do trailer e estavam agora
sentados em espreguiçadeiras como dois velhos companheiros num clube
londrino. George contava a Ki como trocou tiros com Rolfe Nedeau e a
Gangue do Mal na rua Lisbon em 1993.
— George, o que aconteceu com o seu nariz? — perguntou John. —
Está ficando tão comprido.
— Quer me dar licença? — falou George. — Estou tendo uma
conversa aqui.
— George prendeu um monte de crinimosos — disse Kyra. —
Prendeu a Gangue do Mal e pôs eles na prisão de segurança máxima.
— É — eu disse —, e também ganhou o Oscar por atuar num filme
chamado Rebeldia Indomável.
— Exatamente — disse George. Ergueu a mão direita e cruzou dois
dedos. — Eu e Paul Newman. Assim.
— Temos o molho dispuguete dele — acrescentou Ki gravemente, e
isso fez John rir de novo. Embora não me pegasse da mesma maneira, o
riso é contagioso; só ver John rir foi suficiente para me fazer rir também
depois de alguns segundos. Estávamos urrando como um par de idiotas
quando colocamos os filés na churrasqueira. Foi surpreendente não termos
queimado as mãos.
— Por que estão rindo? — Ki perguntou a George.
— Porque são homens bobos com cérebros pequenininhos — disse
George. — Agora escute, Ki, peguei todos eles, a não ser o Louco. Ele pulou
no carro dele, eu pulei no meu. Os detalhes dessa perseguição não são de
jeito nenhum para os ouvidos de uma garotinha...
Mesmo assim George a regalou com eles enquanto John e eu
sorríamos um para o outro dos dois lados da churrasqueira de Mattie.
— É ótimo, não é? — disse John, e concordei com a cabeça.
Mattie saiu com milho embrulhado em folhas de alumínio, seguida
por Rommie com uma grande saladeira aninhada nos braços e descendo os
degraus com cuidado, tentando espiar por cima da tigela enquanto descia.
Sentamos à mesa de piquenique, George e Rommie de um lado, John
e eu ladeando Mattie do outro. Ki sentou-se à cabeceira, empoleirada sobre
uma pilha de revistas velhas, numa cadeira de jardim. Mattie amarrou um
pano de prato à volta do pescoço da filha, um ultraje a que Ki se submeteu
apenas porque: a) estava usando roupas novas e b) o pano de prato não era
um babador de bebê, pelo menos tecnicamente.
Comemos muito — salada, filé (John tinha razão, era realmente o
melhor que eu já tinha comido), espiga de milho assada e totinha de
molango de sobremesa. No momento em que tínhamos chegado à totinha
os trovões rolavam nitidamente mais próximos e uma brisa irregular e
quente soprava no quintal.
— Mattie, se eu nunca mais comer tão bem quanto hoje, não vou
ficar surpreso — disse Rommie. — Muito obrigado por me convidar.
— Obrigada a você — disse ela. Seus olhos estavam marejados. Ela
pegou minha mão e a de John. Apertou as duas. — Obrigada a vocês todos.
Se soubessem como as coisas iam para Ki e para mim antes dessa última
semana... — Balançou a cabeça, deu um aperto final na mão de John e na
minha e soltou-as. — Mas já acabou.
— Olhem a criança — disse George, divertido.
Ki se jogou para trás na cadeira, nos olhando com olhos vidrados. A
maior parte de seu cabelo tinha saído do prendedor e pendia em mechas
junto às faces. Tinha uma manchinha de chantili na ponta do nariz e um
grão de milho amarelo no meio do queixo.
— Joguei o frisbee 6 mil vezes — disse Kyra. Falava num tom
distante, declamatório. — Cansei.
Mattie começou a se levantar. Pus a mão em seu braço.
— Posso?
Ela assentiu com a cabeça.
— Se você quiser.
Levantei Kyra no colo e carreguei-a até os degraus. O trovão roncou
de novo, um ronco longo e baixo, parecendo o rosnado de um cão
gigantesco. Olhei para as nuvens que se acotovelavam lá em cima e,
enquanto o fazia, um movimento atraiu minha visão. Era um velho carro
azul indo para oeste pela estrada Wasp Hill, na direção do lago. Só o notei
porque exibia um daqueles idiotas adesivos de para-choques do Village
Café: BUZINA QUEBRADA — AGUARDE PELO DEDO.
Carreguei Ki degraus acima e passei pela porta, virando-a para que
não batesse com a cabeça.
— Toma conta de mim — disse ela em seu sono. Sua voz tinha uma
tristeza que me arrepiou. Era como se soubesse que estava pedindo o
impossível. — Toma conta de mim, eu sou pequena, mamãe disse que sou
pequenininha.
— Vou tomar conta de você — eu disse, beijando o sedoso espaço
entre seus olhos de novo. — Não se preocupe, Ki, durma.
Levei-a para o quarto dela e a coloquei na cama. A essa altura
estava totalmente apagada. Limpei o chantili de seu nariz e peguei o grão
de milho de seu queixo. Dei uma olhada ao relógio e vi que eram 13h50.
Eles estariam se reunindo na igreja batista nesse momento. Bill Dean
usando uma gravata cinza. Buddy Jellison de chapéu. Buddy estava de pé
atrás da igreja, com alguns outros homens que fumavam antes de entrar.
Eu me virei e dei com Mattie à entrada.
— Mike — disse ela. — Venha cá, por favor.
Fui até ela. Não havia nenhum tecido entre sua cintura e minhas
mãos desta vez. Sua pele era quente, e tão sedosa quanto a da filha. Ela
ergueu os olhos para mim, os lábios entreabertos. Seus quadris se
impeliram para a frente, e quando ela sentiu o que estava duro ali,
pressionou ainda mais.
— Mike — disse ela de novo.
Fechei os olhos. Eu me sentia como alguém que tinha acabado de
chegar à entrada de uma sala brilhantemente iluminada, cheia de gente
rindo e conversando. E dançando. Porque às vezes é só isso que queremos
fazer.
Quero entrar, pensei. É isso que eu quero fazer, é só o que eu quero
fazer. Me deixa fazer o que eu quero. Me deixa...
Percebi que falava aquilo alto, sussurrando rapidamente no ouvido
dela, as mãos subindo e descendo por suas costas, percorrendo sua
espinha, tocando suas omoplatas e depois envolvendo seus pequenos seios.
— Sim — disse ela. — O que nós dois queremos. Sim. Isso é bom.
Lentamente, ela ergueu os polegares e enxugou os locais úmidos sob
meus olhos. Eu me afastei dela.
— A chave...
Ela sorriu ligeiramente.
— Você sabe onde ela está.
— Vou aparecer esta noite.
— Ótimo.
— Eu ando... — Tive que clarear a garganta. Olhei para Kyra, que
dormia profundamente. — Eu ando solitário. Acho que não sabia disso, mas
ando.
— Eu também. E sabia disso por nós dois. Me dá um beijo, por favor.
Beijei-a. Acho que nossas línguas se tocaram, mas não tenho
certeza. Lembro-me com mais clareza é da vivacidade de Mattie. Era como
um dreidel, o pião hebreu de quatro faces, girando levemente em meus
braços.
— Ei! — gritou John do lado de fora. Nós nos afastamos. — Não
querem dar uma ajudinha? Vai chover!
— Obrigada por finalmente se decidir — disse Mattie para mim em
voz baixa. Virou-se e voltou apressada para o estreito corredor do trailer.
Na próxima vez em que ela falou comigo, não acho que soubesse o que
dizia. Na próxima vez em que falou comigo ela estava morrendo.
— Não acorde a criança — ouvi-a dizer a John, e a resposta dele: — Ah,
desculpe, desculpe.
Fiquei onde estava por mais um momento, recuperando o fôlego, e
então entrei no banheiro e molhei o rosto com água fria. Lembro-me de ver
uma baleia de plástico azul na banheira quando me virei para tirar a toalha
do suporte e de pensar que provavelmente esguichava bolhas de seu furo, e
me lembro até de ter tido o momentâneo vislumbre de uma ideia — uma
história infantil sobre uma baleia esguichante. Que tal pôr nela o nome de
Willie? Não, óbvio demais. Mas Wilhelm — este, sim, tinha um som bem
redondo, simultaneamente grandioso e divertido. Wilhelm, a baleia
esguichante.
Lembro-me do estrondo de trovões lá no alto. Lembro-me de como
eu estava feliz, com a decisão afinal tomada e com a noite pela qual
esperar ansiosamente. Lembro-me do murmúrio dos homens e do murmúrio
de Mattie em resposta, dizendo a eles onde colocar as coisas. Depois ouvi
todos saindo novamente.
Olhei para a parte de baixo do meu corpo e vi certo volume
diminuindo. Lembro-me de pensar que nada tinha uma aparência tão
absurda quanto um homem sexualmente excitado, e sabia que o mesmo
pensamento já tinha me ocorrido antes, talvez num sonho. Saí do banheiro,
chequei Kyra novamente — ela tinha rolado para o lado e adormecido logo
— e então entrei no corredor. Tinha acabado de chegar à sala de estar
quando ouvi os tiros lá fora. Nem por um momento confundi esse som com
o dos trovões. Por um momento ainda passou por minha cabeça que
pudessem ser estampidos de cano de descarga — o carro envenenado de
algum garoto —, e então eu soube. Parte de mim já esperava que algo
desse tipo acontecesse... mas esperava fantasmas e não armas de fogo.
Um lapso fatal.
Foi o rápido pa! pa! pa! de uma arma automática — uma Glock de
nove milímetros, como soube depois. Mattie deu um grito alto e perfurante
que gelou o meu sangue. Ouvi John gritar de dor e George Kennedy berrar:
— Abaixe, abaixe! Pelo amor de Deus, abaixe-a.
Alguma coisa atingiu o trailer como uma forte chuva de granizo —
um chocalhar de sons matraqueados correndo de oeste para leste. Algo
cortou o ar na frente de meus olhos — eu o escutei. Isso foi acompanhado
por um sproing quase musical, como alguém dedilhando uma corda de
violão. Na mesa da cozinha, a tigela de salada que um deles acabara de
trazer se espatifou.
Corri para a porta e quase mergulhei pelos degraus de cimento. Vi a
churrasqueira derrubada, com os fumegantes carvões já fazendo manchas
na grama escassa que ardia no pátio da frente. Vi Rommie Bissonette
sentado com as pernas estendidas, olhando estupidamente o próprio
tornozelo ensopado de sangue. Mattie estava de quatro junto à
churrasqueira, o cabelo caído sobre o rosto — era como se pretendesse
varrer os carvões quentes antes que pudessem causar realmente um
problema. John cambaleou em minha direção, a mão esticada. O braço
ligado a ela estava encharcado de sangue.
Então vi o carro que tinha notado antes — o indefinido sedã com o
adesivo brincalhão. Subiu a estrada — os homens nele dando o primeiro
passo para nos aferir —, depois virou e voltou. O atirador ainda se
debruçava à janela do passageiro da frente. Eu podia ver a arma compacta
e fumegante em sua mão, a coronha feita de filamentos de metal. Os
traços do homem eram só um azul vazio interrompido apenas por enormes
olhos arregalados — uma máscara de esquiador.
Lá em cima, os trovões deram um longo rugido que acordou todo
mundo.
George Kennedy caminhava em direção ao carro sem se apressar,
chutando os carvões quentes cuspidos da churrasqueira enquanto andava,
sem se preocupar com a mancha vermelho-escura espalhando-se pelo
tecido que cobria sua coxa direita, com a mão para trás, sem se apressar
mesmo quando o atirador recuou e gritou “Vá, vá, vá!” para o motorista que
também usava uma máscara azul, mesmo assim George continuava
andando sem se apressar, sem se apressar nem um pouquinho, e mesmo
antes que eu visse a pistola em sua mão soube por que ele não tirou o
paletó, porque até brincou com o frisbee sem tirá-lo.
O carro azul (soube-se depois que era um Ford 1987 registrado em
nome da sra. Sonia Belliveau, de Auburn, e cujo roubo tinha sido comunicado
no dia anterior) passou para o acostamento e não desligou o motor. Agora
acelerava, cuspindo poeira marrom e seca com os pneus traseiros, num
zigue-zague, derrubando a caixa de correspondência de Mattie do poste e
fazendo-a voar até a estrada.
Mesmo assim George não se apressou. Juntou as mãos, segurando a
arma com a direita e apoiando-a na esquerda, e deliberadamente disparou
cinco tiros. Os dois primeiros acertaram na mala — vi os buracos
surgirem. O terceiro estourou a janela de trás do Ford que partia, e ouvi
alguém dar um grito de dor. O quarto foi parar não sei onde. O quinto
estourou o pneu esquerdo traseiro. O Ford deu uma guinada para a
esquerda. O motorista quase conseguiu trazê-lo de volta, mas perdeu
completamente o controle do carro, que mergulhou na vala 30 metros
depois do trailer de Mattie e caiu de lado. Ouviu-se um huumpf! e a
traseira do veículo foi consumida pelas chamas. Um dos tiros de George
deve ter atingido o tanque de gasolina. O atirador começou a lutar para sair
pela janela do passageiro.
— Ki... leve Ki... embora... — Uma voz murmurada e rouca.
Mattie estava se arrastando na minha direção. Um lado de sua
cabeça — o direito — ainda parecia bem, mas o esquerdo estava destruído.
Um ofuscado olho azul espiava por entre tufos de cabelo ensanguentado.
Fragmentos de cérebro salpicavam seu ombro bronzeado como pedacinhos
de cerâmica quebrada. Como eu adoraria dizer a você que não lembro nada
disso, como adoraria que alguém lhe contasse que Michael Noonan morreu
antes de ver isso, mas não posso. Ai de mim é a expressão para isso
usada nas palavras cruzadas, e que significa grande tristeza.
— Ki... Mike, leve Ki...
Ajoelhei e a abracei. Ela lutou comigo. Era jovem e forte, e mesmo
com a massa cinzenta de seu cérebro surgindo da parede quebrada do
crânio, ela lutou comigo, chorando pela filha, querendo chegar até ela,
protegê-la, colocá-la em segurança.
— Mattie, tudo bem — eu disse. Na igreja batista da Graça, na
extremidade longínqua da zona em que eu me encontrava, eles cantavam
“Blessed Assurance”... mas a maioria dos olhos estavam tão vazios como o
olho que agora me espiava através do emaranhado de cabelo
ensanguentado. — Mattie, pare, descanse, está tudo bem.
— Ki... pegue Ki... não deixa eles...
— Eles não vão fazer mal a ela, Mattie, eu prometo.
Ela deslizou contra mim, escorregadia como um peixe, e gritou o
nome da filha, estendendo as mãos ensanguentadas para o trailer. O short
e blusa cor-de-rosa tingiram-se de um vermelho vivo. O sangue pingava na
grama enquanto ela se debatia e empurrava. Da colina houve uma explosão
gutural quando o tanque de gasolina do Ford explodiu. Uma fumaça negra
subiu ao céu negro. O trovão rugiu extenso e alto, como se o céu dissesse:
Querem barulho, é? Eu vou lhes dar barulho.
— Diz que Mattie está bem, Mike! — John gritou numa voz hesitante.
— Ah, pelo amor de Deus, diz que ela está...
Ele caiu de joelhos a meu lado, os olhos rolando para cima até
mostrarem apenas o branco. Estendeu a mão para mim, agarrou meu
ombro e então rasgou quase a metade de minha camisa enquanto perdia a
batalha para se manter consciente, caindo de lado próximo a Mattie. Um
coágulo de substância branca e viscosa borbulhou num canto de sua boca. A
uns 4 metros de distância, perto da churrasqueira derrubada, Rommie
tentava ficar em pé, os dentes cerrados de dor. George estava em pé no
meio da estrada de Wasp Hill, recarregando a arma de uma bolsa que
aparentemente levava no bolso do paletó e observando o atirador se
esforçar para se livrar do Ford virado antes de o carro ser engolido pelas
chamas. Toda a perna direita da calça de George estava vermelha agora.
Ele pode sobreviver, mas jamais usará aquele terno de novo, pensei.
Abracei Mattie. Abaixei meu rosto até ela, levei a boca até a orelha
que ainda estava lá e disse:
— Kyra está bem. Está dormindo. Ela está bem, juro que está.
Mattie pareceu entender. Parou de se debater contra mim e
desmoronou na grama, o corpo inteiro tremendo.
— Ki... Ki... — Foi a última palavra que pronunciou neste mundo. Uma
de suas mãos estendeu-se às cegas, agarrou um tufo de grama e arrancouo.
— Aqui — ouvi George dizer. — Vem até aqui, filho da puta, nem
pense em virar as costas para mim.
— Ela está muito mal? — perguntou Rommie, mancando, o rosto
branco como papel. E antes que eu pudesse responder: — Ah, meu Jesus.
Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de
nossa morte. Abençoado o fruto de Vosso ventre, Jesus. Ó Maria, concebida
sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós. Ah, não, não, Mike, não.
— Começou novamente, desta vez recaindo no francês de rua de Lewiston,
que a velha guarda chama de La Parle.
— Deixe isso para lá — falei, e ele deixou. Era como se apenas
esperasse a ordem. — Entre no trailer e dê uma checada em Kyra. Pode
fazer isso?
— Posso. — Começou a andar na direção do trailer, segurando a
perna e cambaleando pelo caminho. Com cada guinada, dava um ganido
agudo de dor, mas de alguma forma conseguiu continuar. Eu sentia o cheiro
de tufos de grama queimando. Sentia o cheiro da chuva elétrica no vento
que se levantava. E sob minhas mãos podia sentir o leve girar do dreidel lentamente se esvaindo enquanto Mattie ia embora.
Eu a virei, segurei-a em meus braços e embalei-a. Na igreja batista
da Graça, o ministro lia agora o Salmo 139 para Royce: “Se eu dissesse: pelo menos as trevas me ocultarão, e a noite, como se fora luz, me há de
envolver.” O ministro estava lendo e os marcianos ouviam. Balancei-a em
meus braços para a frente e para trás sob as nuvens negras de trovões e
relâmpagos. Eu iria ao seu encontro naquela noite, pegaria a chave sob o
vaso e iria ao seu encontro. Ela tinha dançado na ponta dos pés de tênis
brancos em cima do frisbee vermelho, dançou como uma onda no oceano e
agora estava morrendo em meus braços, enquanto a grama queimava em
pequenos trechos e o homem que tinha ficado tão encantado com ela
quanto eu jazia inconsciente a seu lado, o braço direito todo pintado de
vermelho, da manga curta da camiseta SOMOS OS CAMPEÕES até o pulso
ossudo e sardento.
— Mattie — eu disse. — Mattie, Mattie, Mattie. — Embalei-a e
acariciei sua testa, que no lado direito estava miraculosamente limpa do
sangue que a tinha ensopado. Seu cabelo caía pelo lado esquerdo destruído
do rosto. — Mattie — falei. — Mattie, Mattie, ah, Mattie.
Um relâmpago estourou — o primeiro que eu via. Ele iluminou o céu
do poente num brilhante arco azul. Mattie tremia com força em meus
braços — do pescoço aos pés seu corpo inteiro tremia. Os lábios apertados.
A testa franzida como numa concentração. Sua mão subiu e pareceu querer
segurar minha nuca, como uma pessoa caindo de um rochedo pode agarrar
cegamente qualquer coisa para se segurar um pouco mais. Então a mão se
afastou e caiu frouxamente na grama, a palma para cima. Mattie estremeceu mais uma vez — todo o delicado peso tremeu em meus braços
—, e então se imobilizou.

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Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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