quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CAPÍTULO XLII


Suponho que deviam ser dez horas da noite. Meu primeiro sentido que funcionou
após a última aventura foi a audição. Quase que imediatamente ouvi - foi um ato
de verdadeira audição silêncio voltar à galeria e substituir os mugidos que
há muitas horas enchiam meus ouvidos. Finalmente as palavras de meu tio
chegaram-me como um murmúrio:
- Estamos subindo!
- O que o senhor está querendo dizer? - exclamei.
- Estamos subindo, sim, estamos subindo!
Estiquei o braço e toquei a muralha; minha mão ficou ensangüentada. Subíamos
com extrema rapidez.
- A tocha! A tocha! - exclamou o professor.
Hans conseguiu acendê-la com bastante dificuldade, e a chama, mantendo-se de
baixo para cima, apesar do movimento ascencional, iluminou bastante todo o
cenário.
- É exatamente o que eu estava pensando - disse meu tio.
- Estamos num poço estreito, que não tem nem quatro toesas de diâmetro. Tendo
chegado ao fundo do abismo, a água está subindo para voltar ao seu nível e faz
com que subamos com ela.
- Para onde?
- Não sei, e devemos estar preparados para qualquer acontecimento. Subimos a
uma velocidade que avalio ser de duas toesas por segundo, ou seja, cento e vinte
toesas por minuto e mais de três léguas e meia por hora. A esse ritmo, estamos
andando bastante.
- Sim, se nada nos detiver, se houver uma saída nesse poço!
Mas se estiver bloqueado, se o ar se comprimir gradualmente devido à pressão
da coluna de água, se formos esmagados!
- Axel - respondeu o professor na maior calma -, a situação é quase
desesperadora, mas há algumas chances de salvação e faço questão de
examinálas. Se a cada minuto podemos perecer, a cada momento podemos ser
salvos. Estejamos prontos para aproveitar as menores circunstâncias.
- Mas o que podemos fazer?
- Recuperar nossas forças comendo.
Olhei para meu tio com um ar desvairado. Devia finalmente dizer o que não
quisera confessar:
- Comer? - repetia.
- Sim, imediatamente.
O professor acrescentou alguns termos em dinamarquês. Hans balançou a
cabeça.
- Como! - exclamou meu tio. - Perdemos nossas provisões?
- Sim, só nos resta um pedaço de carne-seca para três.
Meu tio encarava-me sem querer compreender o que eu dizia.
- Então o senhor continua achando que podemos nos salvar?
Não obtive resposta. Passou-se uma hora. Começava a sentir uma fome violenta.
Meus companheiros também sofriam, mas nenhum de nós ousou tocar naquele
miserável resto de alimento. Entrementes, continuávamos a subir com extrema
rapidez. Por vezes, o ar nos cortava a respiração, como acontece com os
aeronautas cuja ascensão é rápida demais. Mas se eles sentem um frio cada vez
maior à medida que se elevam nas camadas atmosféricas, sofríamos um efeito
absolutamente contrário. O calor aumentava de forma preocupante e com
certeza devia atingir quarenta graus naquele momento.
O que significava aquela mudança? Até então, os fatos haviam dado razão às
teorias de Davy e Lidenbrock; até então as condições particulares das rochas
refratárias, de eletricidade e de magnetismo haviam modificado as leis gerais da
natureza, concedendo-nos uma temperatura moderada, pois, na minha opinião, a
teoria do fogo central continuava a ser a única verdadeira e explicável.
Estávamos voltando para um ambiente onde esses fenômenos aconteciam com
todo o rigor e no qual o calor reduzia as rochas a um estado de fusão total? Era o
que eu temia e o disse ao professor:
- Se não naufragarmos ou formos despedaçados, se não morrermos de fome,
ainda poderemos ser queimados vivos.
Ele contentou-se em dar de ombros e voltar a suas reflexões. Mais uma hora se
passou sem que qualquer incidente modificasse a situação, a não ser um leve
aumento da temperatura. Finalmente, meu tio rompeu o silêncio:
- Bem, temos de tomar alguma atitude.
- Atitude? - repliquei.
- Sim. Temos de recuperar nossas forças. Se tentarmos prolongar nossas vidas
por algumas horas poupando esse resto de comida, ficaremos fracos até o fim.
- Sim, até o fim, que não tardará.
- Muito bem. E se aparecer uma chance de salvar-nos, se for necessário agir,
onde encontraremos as forças necessárias, se nos deixarmos enfraquecer pela
inanição?
- Ah, meu tio, se devorarmos esse pedaço de carne, o que nos restará?
- Nada, Axel, nada. Mas você se sente mais bem nutrido devorando-a com os
olhos? Isso é raciocínio de um homem sem vontade, sem energia!
- Então o senhor está desesperado? - exclamei, irritado.
- Não! - replicou o professor com firmeza.
- O quê! O senhor ainda tem esperanças de salvar-se?
- Claro que sim! Enquanto o coração bater e a carne palpitar, não admito que um
ser dotado de vontade ceda lugar ao desespero!
Que palavras! E o homem que as pronunciava em tais circunstâncias tinha com
certeza um caráter pouco comum.
- Mas o que fazer? - perguntei.
- Comer até a última migalha o resto da comida para recuperar as forças que
perdemos. Mesmo que seja a nossa última refeição! Mas ao menos, em vez de
permanecer esgotados, voltaremos a ser homens!
Meu tio pegou o pedaço de carne e os poucos biscoitos que escaparam do
naufrágio; dividiu em três porções iguais e distribuiu-as. Dava cerca de uma libra
de alimento para cada um. Meu tio comeu com avidez, com uma espécie de
arrebatamento febril; eu, sem prazer apesar de minha fome, quase com nojo;
Hans, tranqüilamente, com moderação, mastigando sem ruído os pedacinhos,
saboreando-os com a calma de um homem nada preocupado com os problemas
futuros. Depois de muito procurar, encontrara um cantil cheio, até a metade, de
genebra; ofereceu-nos, e aquele licor tão benéfico conseguiu reanimar-me um
pouco.
- Förtraffkg! - disse Hans, bebendo.
- Excelente! - volveu meu tio.
Voltara a ter alguma esperança. Mas nossa última refeição terminara. Eram
cinco horas da manhã.
O homem é feito de tal forma que sua saúde é um efeito puramente negativo.
Satisfeita a necessidade de comer, dificilmente consegue imaginar os horrores da
fome; precisa senti-los para compreendê-los. Ao final de um longo jejum, alguns
bocados de biscoito e carne venceram nossos sofrimentos passados. Após a
refeição, cada qual voltou a suas reflexões. Em que pensava Hans, aquele
homem do Extremo Ocidente dominado pela resignação fatalista dos orientais?
Quanto a mim, só pensava nas lembranças que me faziam voltar à superfície
daquele globo que jamais deveria ter abandonado. A casa da Kõnigstrasse,
minha pobre Grauben e a boa Marthe passaram como visões diante de meus
olhos, e acreditava surpreender os ruídos das cidades da Terra nos grunhidos
lúgubres que percorriam o maciço.
Meu tio, sempre em seu posto, tocha na mão, examinava com atenção a natureza
dos terrenos. Tentava reconhecer nossa situação pela observação das camadas
sobrepostas. Esse cálculo, ou melhor, essa estimativa, só podia ser muito
aproximativa. Um cientista, porém, é sempre um cientista quando consegue conservar seu sangue-frio, e, sem dúvida, o professor Lidenbrockpossuía essa
qualidade num grau pouco comum.
Ouvia-o murmurar palavras da ciência geológica; eu era capaz de compreendê-
las, e involuntariamente interessava-me por aquele derradeiro estudo.
- Granito eruptivo - dizia. - Ainda estamos na era primária, mas estamos subindo,
subindo cada vez mais. Quem sabe o que encontraremos?
Quem sabe? Continuava a ter esperanças. Tocava a parede vertical e, poucos
instantes depois, tornava:
- Gnaisses! Micaxistos! Bem, logo chegaremos a terrenos da era de transição e
então...
O que o professor queria dizer? Era capaz de medir a espessura da crosta
terrestre suspensa sobre nossas cabeças? Tinha um meio qualquer de fazer esse
cálculo? Não. Sem o manômetro, qualquer estimativa tornava-se impossível. A
temperatura continuava aumentando, e sentia-me completamente molhado
naquela atmosfera ardente. Só conseguia compará-la ao calor dos fornos de uma
fundição na hora da moldagem. Gradualmente Hans, meu tio e eu tiráramos
nossos paletós e coletes; a menor peça de roupa provocava muito mal-estar e
até sofrimento.
- Estamos subindo em direção a um forno incandescente! - exclamei ao sentir o
calor aumentar.
- Não - respondeu meu tio. - É impossível! É impossível!
- No entanto - eu disse, apalpando a parede -, essa muralha está fervendo!
No momento em que pronunciei essas palavras, minha mão aflorara a água, e
tive de retirá-la o mais depressa possível.
- A água está fervendo! - exclamei.
Dessa vez, a única resposta do professor foi um gesto de cólera. Então um terror
invencível tomou conta de meu cérebro e não o abandonou mais. Sentia a
aproximação de uma catástrofe de tamanhas proporções que nem a imaginação
mais audaciosa seria capaz de concebê-la. Uma idéia, a princípio vaga,
transformou-se em certeza para mim. Não ousava formulá-la. Algumas
observações involuntárias, contudo, confirmavam minha convicção. À luz
duvidosa da tocha, observei alguns movimentos desordenados nas camadas
graníticas. Era evidente que ocorreria algum fenômeno ligado à eletricidade.
Além disso, o calor excessivo, a água fervente!... Quis consultar a bússola. Ela
enlouquecera!

Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário

Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

Total de visualizações

Seguidores

Livros populares

Search