O clã dos Day podia ter vivido para sempre
Mas Ben Day não regulava bem da mente
De Satanás cobiçava o negro poder
Por isso matou a família com todo o prazer
A pequena Michelle de noite ele estrangulou
A seguir foi Debby que ele esquartejou
A mãe Patty para o fim ele guardou
Com um tiro de caçadeira a cabeça ele lhe rebentou
Da chacina a bebé Libby escapou
Mas para o resto da vida com sequelas ficou.
— Cantilena entoada no recreio das escolas
por volta de 1985
Tenho uma ruindade dentro de mim, palpável como um órgão. Cortem-me a barriga e
provavelmente ela escorrega cá para fora, escura e carnuda, e cai no chão e alguém a
pisa. É o sangue dos Day. Tem qualquer coisa de errado. Nunca fui uma menina boazinha
e, depois dos crimes, piorei. A orfãzinha Libby cresceu mal-humorada e mole, arrastada de
casa em casa — entregue a um grupo de familiares afastados, primos em segundo grau e
tias-avós e amigos de amigos —, enfiada numa série de rulotes e quintas decrépitas
espalhadas de uma ponta à outra do Kansas. Eu ia para a escola vestida com a roupa que
herdei da minha irmã morta: camisas com as costuras amareladas debaixo dos braços,
calças com os fundilhos demasiado largos, comicamente penduradas da cintura, presas
com um cinto andrajoso repuxado até ao último buraco. Nas fotografias de turma, apareço
sempre com o cabelo em desalinho — ganchos a escorregarem pelas madeixas abaixo,
como se fossem objetos voadores apanhados no cabelo emaranhado — e uns grandes
papos por baixo de olhos de alcoólica. E talvez um ricto rancoroso nos lábios, no sítio onde
devia estar um sorriso. Talvez.
Nunca fui uma criança adorável e transformei-me num adulto detestável. Se fizessem
um desenho da minha alma, seria um rabisco com presas de animal.
Estávamos em março, um mês deprimente e torrencial, e deitei-me na cama a pensar
em matar-me, um dos meus passatempos prediletos. Um devaneio diurno
autocomplacente: uma caçadeira na boca, um disparo e a cabeça a ser impelida para trás,
uma, duas vezes, sangue na parede. Esguichos, salpicos. «Ela queria ser enterrada ou
cremada?», perguntariam as pessoas. «Quem é que deveria vir ao funeral?» E ninguém
saberia dizer. As pessoas, fossem elas quem fossem, limitar-se-iam a olhar para os
sapatos ou para os ombros umas das outras até o silêncio se instalar e, depois, alguém
poria o café ao lume, apressadamente e com considerável estrépito. O café condiz muito
bem com mortes súbitas.
Libertei um pé dos lençóis, mas não consegui levá-lo ao chão. Acho que estou
deprimida. Acho que estou deprimida há cerca de vinte e quatro anos. Sinto que existe
uma versão melhor de mim algures dentro do corpo — escondida por detrás de um fígado
ou agarrada a um pedaço de baço, no interior do meu corpo atrofiado de criança —, uma
Libby que me está a dizer para me levantar, fazer alguma coisa, crescer, andar com a
vida para a frente. Mas, geralmente, a ruindade é que ganha. O meu irmão chacinou a
minha família quando eu tinha sete anos. A minha mãe e duas irmãs, assassinadas: tiro,
machadada, estrangulamento. Depois disso, não precisei de fazer nada, ninguém esperava
que eu fizesse fosse o que fosse.
Herdei 321 374 dólares quando fiz dezoito anos, provenientes de todas aquelas pessoas
bem-intencionadas que tinham lido a minha triste história, benfeitores que me desejavam
o melhor, do fundo do coração. Sempre que ouço essa expressão, e ouço-a com frequência,
imagino desenhos de corações sumarentos, com asinhas e tudo, a esvoaçarem em direção
a um dos muitos lares de merda da minha infância, e eu, miúda, à janela, a acenar e a
apanhar cada coração colorido, dinheiro verde a chover sobre mim, obrigada, mil vezes
obrigada! Quando era pequena, os donativos foram colocados numa conta bancária de
gestão conservadora, que, na época, sofria um acréscimo a cada três ou quatro anos,
sempre que alguma revista ou estação de rádio se lembrava de mim. Um Novo Dia para a
Pequena Libby: A Única Sobrevivente do Massacre na Pradaria Faz uns Amargos 10 Anos.
(Eu, de puxinhos mal-amanhados, no relvado cheio de urina de gambá à porta da rulote da
minha tia Diane. As canelas grossas como troncos da tia Diane, expostas por baixo de
uma saia curta, fincadas na relva amarela atrás de mim.) Os 16 Anos da Corajosa Menina
Day! (Eu, ainda minúscula, com o rosto iluminado pelas velas de aniversário e uma camisa
demasiado apertada no peito, que nesse ano tinha dado um salto para uma copa D, umas
mamas caricaturais para uma estrutura tão pequena como a minha, ridículas, obscenas.)
Vivi desse dinheiro durante mais de treze anos, mas já se foi quase todo. Tinha uma
reunião nessa tarde para determinar ao certo como é que o tinha gastado. Uma vez por
ano, o indivíduo que geria o dinheiro, um bancário impassível e de faces rosadas, chamado
Jim Jeffreys, fazia questão de me levar a almoçar, para fazermos um «exame de rotina»,
como ele lhe chamava. Comíamos qualquer coisa na gama dos vinte dólares e falávamos
sobre a minha vida; no fim de contas, ele conhecia-me desde que eu tinha treze anos,
hehe. Quanto a mim, não sabia quase nada sobre Jim Jeffreys, e também nunca fiz
perguntas, encarando as reuniões sempre da mesma perspetiva de miúda: sê educada,
mas apenas o suficiente, e despacha o assunto. Respostas monossilábicas, suspiros
cansados. (A única coisa de que eu desconfiava sobre Jim Jeffreys era que devia ser
cristão praticante; tinha a paciência e o otimismo de uma pessoa que achava que Jesus
via tudo.) A próxima reunião deveria ser só daí a oito ou nove meses, mas Jim Jeffreys
mostrara-se insistente, deixando-me mensagens no telefone numa voz séria e abafada, a
dizer que fizera os possíveis para prolongar «a vida do fundo», mas estava na hora de
pensar «nos próximos passos».
E a minha ruindade veio novamente ao de cima: lembrei-me de imediato da outra
menina dos tabloides, uma Jamie qualquer coisa, que perdeu a família no mesmo ano que
eu: 1985. Ela ficou com uma parte do rosto queimada num incêndio que o pai ateou e que
matou todos os membros da família. Sempre que utilizo o Multibanco, lembro-me dessa
Jamie e de como eu teria o dobro do dinheiro se ela não me tivesse roubado as luzes da
ribalta. Essa Jamie não-sei-das-quantas estava algures, num centro comercial qualquer,
com o meu dinheiro, a comprar malas caras e joias e maquilhagem aveludada e fina para
espalhar no rosto reluzente, marcado por cicatrizes. O que era um pensamento horrível,
como é óbvio. Mas pelo menos eu tinha noção disso.
Finalmente, finalmente, finalmente, arranquei-me da cama com um gemido teatral e
dirigi-me para a parte da frente da casa. Vivo numa casinha de tijolos alugada, construída
numa espiral de outras casinhas de tijolos, todas elas instaladas numa enorme colina
íngreme com vista sobre os antigos currais de Kansas City. Kansas City do lado do
Missouri e não Kansas City do lado do Kansas. O que não é a mesma coisa.
O meu bairro nem sequer tem nome, de tal maneira foi votado ao esquecimento.
Chama-se No Meio de Nenhures. Uma zona estranha, de classe baixa, cheia de becos sem
saída e merda de cão. As outras casas estão apinhadas de velhos que aqui vivem desde
que elas foram construídas. Os velhos passam o dia sentados à janela, por detrás das
telas de rede, cinzentos e moles como pudins, a espreitarem a vizinhança a toda a hora.
Às vezes, deslocam-se até aos respetivos carros em cuidadosos bicos de pés idosos que
me fazem sentir culpada, como se devesse ir ajudá-los. Mas eles não gostariam disso.
Não são velhinhos simpáticos; são velhos calados e irritados com a vida, que não
apreciam o facto de eu ser vizinha deles, de terem uma pessoa nova na vizinhança. O
bairro inteiro emana a desaprovação deles. Portanto, há o ruído do desprezo deles e há o
cão fulvo e escanzelado, duas portas abaixo, que ladra todo o dia e uiva toda a noite,
aquele tipo de ruído de fundo constante que uma pessoa só percebe que está a dar com
ela em doida quando para, por uns abençoados instantes, e depois recomeça. O único som
alegre do bairro que geralmente me embala o sono é o arrulhar matinal das crianças. Um
magote de crianças pequeninas, de rostos rechonchudos e enchouriçadas, que vão a pé
para um infantário qualquer escondido nas profundezas do ninho de ratos que são estas
ruas atrás de mim, todas elas agarradas a uma longa corda puxada por um adulto. Todos
os dias de manhã, marcham como pinguins diante da minha casa, mas nunca, nem uma só
vez, as vi regressar. Às tantas, percorrem o mundo inteiro e só regressam a tempo de
passar novamente diante da minha janela, de manhã. Seja qual for a história por detrás
deste mistério, afeiçoei-me a elas. São três meninas e um menino, todos com uma
predileção por casacos vermelho-vivo. E quando não os vejo, quando durmo para lá da hora,
fico triste. Ou mais triste. É a palavra que a minha mãe usaria, em vez de uma coisa
dramática como deprimida. Há vinte a quatro anos que ando triste.
Visto uma blusa e uma saia para a reunião, sentindo-me minorca; as minhas roupas de
adulta, de menina crescida, nunca me assentam bem. Mal chego ao metro e meio de
altura, tenho um metro e quarenta e sete, para ser mais precisa, mas costumo arredondar
— prendam-me. Tenho trinta e um anos, no entanto as pessoas tendem a falar comigo em
vozes cantaroladas, como se me quisessem dar tintas para eu fazer pinturas com os
dedos.
Desci a minha encosta cheia de ervas daninhas, o que fez o cão fulvo dos vizinhos
lançar-se num dos seus ataques frenéticos de latidos. No passeio junto do meu carro
estão os esqueletos esmagados de dois passarinhos bebés e os bicos e as asas
amassados dão-lhes um aspeto reptiliano. Faz um ano que aqui estão. Não resisto a olhar
para eles sempre que entro no carro. Precisamos de uma boa inundação para os levar na
correnteza.
Duas velhinhas estavam a conversar nos degraus da entrada de uma casa do outro lado
da rua e senti a recusa delas em olharem para mim. Não conheço ninguém pelo nome. Se
uma destas mulheres morresse, eu nem sequer poderia dizer: «Coitada da senhora
Zalinsky, morreu.» Teria de dizer: «A cabra da velha da casa em frente esticou o pernil.»
Sentindo-me uma criança-fantasma, meti-me no meu carro anónimo, de tamanho
médio, que parece ser feito maioritariamente de plástico. Estou sempre à espera que
alguém do stande apareça para me dizer o óbvio: «Era uma piada. Essa coisa não anda.
Foi uma brincadeira nossa.» Conduzi numa espécie de transe o meu carro a fingir até à
baixa — um trajeto de dez minutos —, para ir ao encontro de Jim Jeffreys, e entrei no
parque de estacionamento vinte minutos depois da hora marcada, sabendo que ele sorriria,
todo simpático, e não diria nada sobre o meu atraso.
O combinado era eu ligar-lhe do telemóvel quando chegasse, para que ele viesse cá
fora buscar-me. O restaurante — um ótimo KC da velha guarda — está rodeado de
edifícios esventrados que o inquietam, como se um bando de violadores estivesse
permanentemente à coca no interior das suas carcaças vazias, à espera da minha
chegada. Jim Jeffreys recusa-se a ser O Homem que Deixou que Acontecesse Alguma
Coisa de Mal a Libby Day. Nada de mal pode acontecer à CORAJOSA BEBÉ DAY, A MENINA
PERDIDA, a trágica menina ruiva de sete anos com uns grandes olhos azuis, a única
sobrevivente do MASSACRE DA PRADARIA, da CARNIFICINA NO KANSAS, do SACRIFÍCIO
SATÂNICO NA QUINTA . A minha mãe e as minhas duas irmãs mais velhas chacinadas
pelo Ben. Fui a única que escapou e acusei-o de ser o assassino. Fui a coisinha fofa que
levou à justiça o irmão adorador do diabo. Fui notícia em toda a imprensa. O Enquirer
publicou a minha fotografia chorosa, na primeira página, com a parangona rosto de anjo.
Espreitei para o espelho retrovisor e consegui ver o meu rosto de quando era bebé. As
sardas esbateram-se, os dentes foram endireitados, mas o nariz continuava ligeiramente
achatado e arrebitado na ponta e os olhos muito redondos como os de um gato. Eu tinha
pintado o cabelo de um louro quase branco, mas já se viam as raízes ruivas. Parecia que
tinha o escalpe a sangrar, sobretudo à luz do final do dia. O efeito era macabro. Acendi
um cigarro. Passava meses sem fumar e de repente lembrava-me: preciso de um cigarro.
Sou assim, nada dura muito comigo.
— Vamos, Bebé Day — disse em voz alta. É assim que chamo a mim própria quando
me sinto odiosa.
Saí do carro e fumei até à porta do restaurante, segurando no cigarro com a mão
direita para não ter de olhar para a esquerda, a mutilada. Era quase noite: nuvens nómadas
flutuavam de uma ponta à outra do céu, como manadas de búfalos, e o sol estava
suficientemente baixo para pintar tudo de rosa. Na direção do rio, por entre as espirais dos
viadutos da autoestrada, erguiam-se as torres obsoletas dos silos, vazias, negras como o
crepúsculo e inúteis.
Atravessei o parque de estacionamento sozinha, por cima de uma constelação de
vidros partidos. Não fui atacada. No fim de contas, passava pouco das cinco da tarde. Jim
Jeffreys jantava cedíssimo e orgulhava-se disso.
Ele estava sentado no bar, quando entrei, a bebericar um refrigerante, e a primeira
coisa que fez foi, como eu já sabia, tirar o telemóvel do bolso do casaco e olhar para ele
como se o tivesse traído.
— Ligaste? — perguntou, de sobrolho franzido.
— Não, esqueci-me — menti.
Ele sorriu.
— Bom, enfim. Enfim, fico contente por te ver, querida. Podemos ir diretos ao assunto?
Pôs dois dólares em cima do balcão e conduziu-me para uma mesa com assentos de
couro vermelho e bocados de estofo amarelo a saírem pelas brechas. Os sítios onde o
couro estava rasgado arranharam-me a parte de trás das pernas, quando me sentei, e os
estofos soltaram um fedor a tabaco.
Jim Jeffreys nunca bebia álcool à minha frente e nunca me perguntava se eu queria
uma bebida, mas, quando o empregado veio à mesa, pedi um copo de vinho tinto e vi-o
esforçar-se por conter a surpresa, ou a desilusão, ou qualquer outro sentimento que não
fosse típico do seu comportamento. Que tipo de tinto?, perguntou o empregado, e eu não
fazia ideia. Nunca me lembrava de marcas de tintos ou brancos, nem de qual a parte do
nome do vinho que se devia dizer, por isso respondi simplesmente: Da casa. Ele pediu um
bife, eu pedi uma batata assada recheada e, depois, o empregado afastou-se e Jim
Jeffreys soltou um longo suspiro de dentista pesaroso e disse:
— Bem, Libby, estamos a entrar numa fase nova, completamente diferente.
— Quanto é que resta? — perguntei, pensando dizdezmildizdezmil.
— Mas tu lês os relatórios que eu te envio?
— Às vezes — menti outra vez. Eu gostava de receber correspondência, mas não de a
ler; os relatórios deviam estar numa pilha qualquer, algures em minha casa.
— E ouviste as minhas mensagens?
— Acho que o seu telemóvel está estragado. Ouve-se tudo entrecortado. — Eu só tinha
ouvido o suficiente das mensagens para perceber que estava em sarilhos. Geralmente,
deixava de prestar atenção depois da primeira frase de Jim Jeffreys, que começava
sempre: Fala o teu amigo Jim Jeffreys, Libby...
Jim Jeffreys uniu as pontas dos dedos esticados e espetou o lábio inferior para fora.
— Restam 982 dólares e 12 cêntimos no fundo. Como já disse antes, se tivesses feito
reforços regulares, teríamos conseguido manter as coisas sob controlo, mas... — abriu as
mãos e crispou o rosto — ... infelizmente, não foi isso que aconteceu.
— Então e o livro, o livro não...?
— Lamento, Libby, mas não. Todos os anos te digo a mesma coisa. Não tens culpa,
mas o livro... não. Nada.
Há anos, para tirar proveito do meu vigésimo quinto aniversário, um editor de livros de
autoajuda convidou-me para escrever sobre a maneira como superei «os fantasmas do
meu passado». Eu não tinha superado nada, mas aceitei a encomenda e falei por telefone
com uma mulher de Nova Jérsia, que se encarregou da escrita em si. O livro saiu no Natal
de 2002, com uma fotografia minha na capa com um penteado infeliz, de cabelo
desgrenhado. Chamava-se Vida Nova! Não se Limite a Sobreviver a um Trauma de
Infância: Supere-o! e incluía umas quantas fotografias da minha infância e da minha
família morta, encaixadas no meio de duzentas páginas de conversa da treta sobre
pensamento positivo. Pagaram-me oito mil dólares e um punhado de grupos de
sobreviventes convidou-me para participar numas tertúlias. Apanhei um avião para Toledo,
para um encontro com homens que tinham ficado órfãos quando eram pequenos; para
Tulsa, para um encontro especial de adolescentes cujas mães tinham sido assassinadas
pelos maridos. Autografei livros para miúdos ofegantes, que me fizeram perguntas duras e
inesperadas, como, por exemplo, se a minha mãe fazia tartes. Autografei livros para
homens grisalhos e carentes, que me fitavam por detrás de óculos bifocais, com um hálito
explosivo a café queimado e bílis. «Comece um novo dia!», escrevia eu, ou «Tem um
novo dia pela frente!». Era uma sorte ter um apelido que dava para fazer trocadilhos. As
pessoas que me vinham ver tinham sempre um ar exausto e desesperado, e rodeavamme,
inseguras, em grupos esparsos. Os grupos eram sempre pequenos. Quando percebi
que ninguém me pagava para fazer aquilo, recusei-me a ir onde quer que fosse. De
qualquer forma, o livro já tinha entrado em declínio.
— Continuo a achar que o livro devia ter vendido mais — murmurei. Eu queria mesmo
que o livro vendesse muito bem, desejava-o de uma maneira obsessiva e infantil: aquela
sensação de que, se desejasse uma coisa com muita força, ela tinha obrigação de
acontecer. Tinha obrigação.
— Eu sei — concordou Jim Jeffreys, tendo esgotado o assunto passados seis anos.
Observou-me, enquanto eu bebia o meu copo de vinho em silêncio. — Mas de certa
maneira, Libby, esta situação coloca-te perante uma nova fase da tua vida que pode ser
muito interessante. O que é que queres ser quando fores grande?
Percebi que a intenção dele era ser simpático, mas suscitou em mim um ataque de
raiva. Eu não queria ser nada, era precisamente essa a porra da questão.
— Não sobrou nada?
Jim Jeffreys abanou a cabeça, pesaroso, e começou a pôr sal no bife que acabara de
vir para a mesa numa poça de sangue vivo como mercurocromo.
— E que tal novos donativos? Aproxima-se o vigésimo quinto aniversário do massacre.
— Senti mais uma onda de raiva por ele me levar a dizer isto em voz alta. Ben começou a
sua chacina por volta das duas da manhã do dia 3 de janeiro de 1985. A data e hora do
massacre da minha família, e ali estava eu a desejar que chegasse o dia. Quem é que
dizia coisas daquelas? Porque é que não sobravam sequer cinco mil dólares?
Ele abanou novamente a cabeça.
— Não sobrou nada, Libby. Já tens, o quê, trinta anos? És uma mulher. As pessoas
deixaram essa história para trás. Querem ajudar outras meninas pequenas e não...
— E não eu.
— Infelizmente, não.
— As pessoas deixaram essa história para trás? A sério? — Senti uma pontada de
abandono, como acontecia sempre em miúda, quando uma tia ou uma prima me deixava
em casa de outra tia ou de outra prima: Para mim, chega, agora fica tu com ela durante
uns tempos. E a nova tia ou prima era muito simpática durante cerca de uma semana,
esforçava-se muito para lidar com a minha personalidadezinha amarga, e depois... verdade
seja dita, geralmente a culpa era minha. Era mesmo, não estou aqui com paleio de vítima.
Borrifei a sala de uma prima com laca do cabelo e peguei-lhe fogo. A minha tia Diane, a
minha tutora, irmã da minha mãe, a minha amada, acolheu-me — e mandou-me embora —
meia dúzia de vezes até finalmente me pôr fora de casa de vez. Fiz coisas terríveis à
coitada da mulher.
— Infelizmente, há sempre um novo assassínio, Libby — comentou Jim Jeffreys, numa
voz monocórdica. — As pessoas têm a memória curta. Vê só como anda tudo em
polvorosa por causa de Lisette Stephens.
Lisette Stephens era uma bonita morena de vinte e cinco anos que desapareceu no
caminho para casa, depois de um jantar em família no dia de Ação de Graças. Toda a
Kansas City se empenhou nas buscas, era impossível ligar a televisão nas notícias e não
ver a fotografia dela a sorrir no ecrã. No início de fevereiro, já a história alastrara pelo
país inteiro. Durante um mês, não aconteceu nada. Lisette Stephens estava morta e, por
essa altura, toda a gente sabia isso, mas ninguém queria ser o primeiro a abandonar o
barco.
— Mas — continuou Jim Jeffreys — acho que toda a gente gostaria de saber que estás
bem.
— Espetacular.
— E que tal tirares um curso universitário? — sugeriu, mastigando um pedaço de
carne.
— Não.
— E se te arranjássemos emprego num escritório, a arquivar documentos e coisas
desse género?
— Não. — Encolhi-me, ignorando o prato, taciturna. Essa era outra das palavras que a
minha mãe usava: taciturno. Significava estar triste de uma maneira que irritava as outras
pessoas. Estar triste de uma maneira agressiva.
— Bom, porque é que não tiras uma semana e pensas no assunto? — Ele estava a
devorar o bife, o garfo subia e descia em movimentos rápidos. Jim Jeffreys estava
desejoso de se ir embora. Jim Jeffreys não tinha mais nada para fazer ali.
Deixou-me com três cartas e um sorriso que pretendia ser otimista. Três cartas, todas
com ar de correspondência indesejada. Jim Jeffreys costumava entregar-me caixas de
sapatos a abarrotar de correspondência, na sua maioria cartas com cheques no interior. Eu
punha o cheque no nome dele e, depois, o doador recebia uma carta-tipo escrita na minha
letra de imprensa. «Obrigada pelo seu donativo. São pessoas como o senhor que me
permitem encarar o futuro com esperança. Os meus mais sinceros comprimentos, Libby
Day.» Escrevia mesmo «comprimentos», um erro que Jim Jeffreys pensava que as
pessoas achariam comovente.
Mas as caixas de sapatos com donativos tinham acabado e a única coisa que me
sobrava eram três míseras cartas e o resto da noite para ocupar. Voltei para casa, com
vários carros a fazerem-me sinais de luzes até eu perceber que me tinha esquecido de
acender os faróis. A linha do horizonte de Kansas City brilhava a leste, uma extensão
modesta e mal semeada de edifícios medianos, com algumas torres de rádio espetadas
aqui e ali. Tentei imaginar coisas que poderia fazer para ganhar dinheiro. Coisas que os
adultos faziam. Imaginei-me de farda de enfermeira a segurar num termómetro; depois,
de farda azul justa de polícia a ajudar uma criança a atravessar a estrada; a seguir, com
uma fiada de pérolas e um avental florido a preparar o jantar para o meu maridinho. Tens
a cabeça mesmo lixada, pensei. A tua noção do que é um adulto continua a ser a dos
livros de histórias. E, enquanto pensava nisto, vi-me a mim própria a escrever o
abecedário num quadro à frente de miúdos do primeiro ano com olhos interessados.
Tentei pensar em empregos realistas: qualquer coisa relacionada com computadores.
Inserir informações numa base de dados, isso não era um emprego? Serviço de apoio ao
cliente? Uma vez, vi um filme em que uma mulher passeava cães para ganhar a vida,
vestida com um macacão e uma camisola de malha e sempre com ramos de flores na
mão, os cães babosos e afeiçoados a ela. Mas eu não gostava de cães, tinha medo deles.
Por fim, lembrei-me de trabalhar numa quinta, claro. A minha família trabalhava na
agricultura há cem anos e a minha mãe seguira a tradição, até Ben a matar. Nessa altura,
a quinta foi vendida.
Seja como for, eu não entendia nada de agricultura. Tenho algumas recordações da
quinta: Ben a brincar na lama da primavera fria, a afugentar vitelas do caminho; as mãos
ásperas da minha mãe a enterrarem-se em bolinhas cor de cereja que se transformariam
em sorgo; os guinchos de Michelle e de Debby aos pulos em cima de fardos de feno no
celeiro. «Faz comichão!», queixava-se sempre Debby e depois desatava outra vez aos
pulos. Nunca consigo entregar-me muito tempo a estes pensamentos. Rotulei as
recordações como se fossem uma região particularmente perigosa: Lugar Escuro. Se me
demorasse demasiado tempo numa imagem da minha mãe a tentar arranjar pela
quinquagésima vez a maldita cafeteira ou de Michelle a dançar às voltas na sua camisa de
noite de lã, com as meias puxadas até aos joelhos, a minha mente saltava para o Lugar
Escuro. Borrões obsessivos de ruído vermelho-vivo a meio da noite. O machado rítmico e
implacável a mover-se mecanicamente como se estivesse a cortar lenha. Tiros de
caçadeira na pequena entrada. Os gritos de gaio-azul da minha mãe, ainda a tentar salvar
as filhas, apesar de já não ter metade da cabeça.
O que é que fará um assistente de administração?, perguntei-me.
Estacionei diante da minha casa e pus o pé numa laje do passeio onde alguém riscara
«Jimmy ama Tina» no cimento, há décadas. Às vezes, eu tinha vislumbres do que
acontecera ao casal: ele era um jogador de basebol de segunda divisão/ela era dona de
casa em Pittsburgh, a braços com um cancro. Ele era um bombeiro divorciado/ela era uma
advogada que se afogou ao largo da Costa do Golfo no ano passado. Ela era professora/ele
morreu com vinte anos, fulminado por um aneurisma. Era um bom jogo mental, ainda que
macabro. Tinha por hábito matar pelo menos um deles.
Levantei os olhos para a minha casa alugada e perguntei-me se o telhado não estaria
torto. Se o telhado abatesse, eu não perderia grande coisa. Não possuía nada de valor, a
não ser um gato muito velho chamado Buck, que me tolerava. Quando cheguei aos degraus
encharcados e abaulados, o miado rancoroso de Buck chegou-me aos ouvidos e apercebime
de que me tinha esquecido de lhe dar de comer nesse dia. Abri a porta e o gato
vetusto avançou em direção a mim, lento e tolhido, como uma carriola com uma roda
partida. A comida de gato tinha acabado — fazia parte da minha lista de coisas para fazer
há uma semana —, por isso fui ao frigorífico, tirei umas fatias de queijo suíço duro e deilhas.
Depois, sentei-me para abrir os meus três envelopes, com os dedos a cheirarem a
leite azedo.
Fiquei-me pela primeira carta.
Cara Libby Day,
Espero que esta carta lhe chegue às mãos, uma vez que, segundo parece, não tem
um site na Internet. Li uma notícia sobre si e tenho seguido a sua história de perto, ao
longo dos anos, e gostava muito de saber o que é feito de si. Costuma fazer
apresentações públicas? Pertenço a um grupo que está disposto a pagar-lhe quinhentos
dólares só para que apareça numa sessão. Contacte-me, por favor, e dar-lhe-ei mais
informações.
Os meus sinceros cumprimentos,
Lyle Wirth
P.S. Esta é uma proposta de trabalho séria.
Uma sessão de strip? Um filme porno? Quando o livro saiu, com o seu capítulo de
fotografias da Bebé Day Crescida, a que mais se destacava era uma de mim aos
dezassete anos, com os seios bamboleantes a quererem rebentar pelas costuras de uma
camisola de alças ordinária. Consequentemente, recebi várias propostas de revistas porno
marginais, mas nenhuma delas oferecia dinheiro suficiente para que eu pensasse em
aceitar. Mesmo hoje, quinhentos dólares não chegavam; se estes tipos queriam que me
despisse, teriam de pagar mais. Mas talvez — pensamento positivo, Bebé Day! —, talvez
fosse mesmo uma proposta séria, mais um daqueles grupos de pessoas enlutadas, a
precisarem que eu aparecesse para terem um pretexto para falarem sobre si próprias.
Quinhentos dólares por umas horas de empatia era uma troca exequível.
A carta era datilografada, à exceção de um número de telefone que fora escrito à mão
no fundo da página, numa caligrafia firme. Liguei, na esperança de ir parar às mensagens
de voz. Em vez disso, ouvi um silêncio cavernoso na linha, o ruído do auscultador a ser
levantado, mas nenhuma voz respondeu. Senti-me constrangida, como se tivesse
telefonado para uma pessoa a meio de uma festa da qual eu não devia ter conhecimento.
Passados três segundos, uma voz masculina disse:
— Estou?
— Boa tarde. Fala Lyle Wirth? — Buck roçou-se nas minhas pernas, ansioso para que
eu lhe desse mais comida.
— Quem fala? — Por trás, o mesmo ruidoso nada. Como se ele estivesse no fundo de
um poço.
— Fala Libby Day. Recebi uma carta sua.
— Ahhhhh, fogo! A sério? Libby Day. Hum, onde é que está? Está cá?
— Cá onde?
O homem — ou rapaz, parecia jovem — gritou qualquer coisa para alguém que estava
atrás dele e que incluiu a frase: «Já tratei disso» e depois gemeu no meu ouvido.
— Está em Kansas City? Vive em Kansas City, certo? Libby?
Eu estava prestes a desligar, mas o tipo começou a gritar está-ááá? Está-ááá? ao
telefone, como se eu fosse uma miúda maluca que estava distraída na aula, por isso
disse-lhe que de facto vivia em Kansas City e perguntei o que queria. Ele soltou uma
daquelas gargalhadas heheheh, daquelas que querem dizer não vai acreditar nisto, mas.
— Bom, tal como eu disse, queria falar consigo sobre a hipótese de participar numa
sessão. Eventualmente.
— Para fazer o quê?
— Bom, eu pertenço a um clube especial... há uma sessão especial do clube na
próxima semana e...
— Que tipo de clube?
— Bom, é um clube diferente. É uma espécie de coisa clandestina...
Fiquei calada, ele que se desenvencilhasse. Passado o momento inicial de exibicionismo,
senti-o ficar constrangido. Ótimo.
— Oh, bolas, não dá para explicar por telefone. Posso oferecer-lhe um café?
— É demasiado tarde para tomar café — respondi e, depois, percebi que provavelmente
ele não estava a sugerir um café nessa noite, provavelmente queria dizer durante a
semana e, em seguida, perguntei-me outra vez o que é que havia de fazer para ocupar as
próximas quatro ou cinco horas.
— Uma cerveja? Um copo de vinho? — perguntou ele.
— Quando?
Pausa.
— Hoje?
Pausa.
— Pode ser.
Lyle Wirth parecia um assassino em série. O que significava que provavelmente não o
era. Uma pessoa que andasse a esquartejar prostitutas ou a comer foragidos tentaria
parecer normal. Ele estava sentado a uma gordurosa mesa de cartas no meio do TimClark’s
Grille, um antro húmido ao lado de uma feira da ladra. O Tim-Clark’s ganhara fama
pelos seus pratos no churrasco e começava agora a aburguesar-se, apresentando uma
desconfortável mistura de velhos clientes grisalhos e rapazes de melena comprida e
skinny jeans. Lyle não era nem uma coisa, nem outra: devia ter uns vinte e poucos anos,
com um cabelo ondulado muito fininho, que tentava domar pondo demasiado gel nos sítios
errados, de modo que metade era uma penugem baça e a outra metade, umas pontas
espetadas e brilhantes. Usava óculos sem aros, um impermeável da Members Only e jeans
muito justos, mas não com estilo como os skinny, pareciam simplesmente apertados.
Tinha feições demasiado finas para que pudessem ser consideradas atraentes num
homem. Os homens não devem ter lábios em forma de coração.
Olhou para mim quando me dirigi para ele. Não me reconheceu a princípio, estava só a
tirar-me as medidas, a mim, a desconhecida. Quando já estava quase junto da mesa dele,
fez-se luz: as sardas, a estrutura magra de passarinho, o nariz ligeiramente achatado, que
se tornava ainda mais achatado quando alguém me fitava longamente.
— Libby! — começou, mas depois percebeu que era uma forma de tratamento
demasiado íntima e acrescentou: — Day! — Levantando-se, puxou de uma cadeira de
armar, pareceu arrepender-se do gesto cavalheiro e voltou a sentar-se. — Pintou o cabelo
de louro.
— Pois pintei — respondi. Detesto pessoas que começam uma conversa com
constatações; o que é que esperam que uma pessoa faça perante isso? Está mesmo calor
hoje. Pois está. Olhei à minha volta para pedir uma bebida. Uma empregada de minissaia e
uma voluptuosa cabeleira preta estava de costas para nós, com o seu bonito traseiro em
destaque. Bati com os dedos na mesa até ela se virar, mostrando-me um rosto que tinha
no mínimo uns setenta anos, com uma grossa camada de maquilhagem empastada nas
pregas das bochechas e veias roxas a raiarem-lhe as mãos. Uma parte qualquer dela
rangeu quando se dobrou para assentar o meu pedido, franzindo o nariz porque pedi uma
simples cerveja.
— O peito de vaca é uma das especialidades da casa — disse Lyle, mas ele também
não ia comer nada, limitou-se a bebericar os restos de uma bebida qualquer leitosa.
Eu não costumo comer carne, não desde que vi a minha família cortada aos bocados.
Ainda estava a tentar apagar da cabeça a imagem de Jim Jeffreys e do seu bife cheio de
nervos. Encolhi os ombros em sinal de negação e esperei pela minha cerveja, olhando em
redor como um turista. As unhas de Lyle estavam sujas, foi a primeira coisa em que
reparei. A peruca da empregada velha estava torta: viam-se madeixas de cabelo branco
transpirado coladas ao pescoço. Ela enfiou umas quantas para baixo da peruca, enquanto
pegava num pacote de batatas fritas que crepitava debaixo da luz infravermelha. Um
homem gordo estava sozinho na mesa ao lado, a comer entrecosto e a inspecionar a
compra que fizera na feira da ladra: uma jarra velha e kitsch, com uma sereia. Os dedos
dele deixaram marcas de gordura nas mamas da sereia.
A empregada pousou a cerveja com firmeza à minha frente, sem dizer nada, e depois
ronronou para o homem gordo, tratando-o por «querido».
— Então, que clube é esse? — disse eu, dando a deixa a Lyle.
Ele ficou vermelho, com os joelhos nervosos debaixo da mesa.
— Bom, está a ver aqueles tipos que jogam Futebol Fantasia ou colecionam cartas de
jogadores de basebol? — Fiz que sim com a cabeça. Ele soltou uma estranha gargalhada e
continuou: — E aquelas mulheres que leem revistas cor-de-rosa e sabem tudo sobre um
ator qualquer, como é que se chama o filho que acabou de nascer e em que cidade o ator
cresceu e essas coisas todas?
Inclinei a cabeça com uma expressão desconfiada, como que a dizer-lhe para ter
cuidado.
— Bom, isto é mais ou menos a mesma coisa, só que, bom, só que lhe chamamos um
Kill Club. — Bebi um gole de cerveja, sentindo gotas de suor despontarem-me no nariz. —
Não é tão estranho quanto parece pelo nome.
— Pois a mim parece sinistro.
— Está a ver aquelas pessoas que gostam de mistérios? Ou que adoram blogues sobre
crimes reais? Então, este clube é formado por um grupo de pessoas dessas. Toda a gente
está obcecada por um crime: Laci Peterson, Jeffrey MacDonald, Lizzie Borden...
1
você e a
sua família. Você e a sua família são uma das obsessões do clube. Uma obsessão das
grandes. Maior do que o JonBenét
2
. — Ele viu o meu rosto crispar-se e acrescentou: —
Uma tragédia, o que aconteceu. E o seu irmão está preso há... quê... vinte e cinco anos?
— Não tenha pena do Ben. Ele matou a minha família.
— Pois. Sim, claro. — Chupou um cubo de gelo leitoso. — Costuma falar com ele sobre
o que aconteceu?
Senti as minhas defesas porem-se em riste. Há pessoas que juram que Ben está
inocente. Enviam-me recortes de jornal sobre Ben e eu nunca os leio, deito-os fora assim
que vejo a fotografia dele: o cabelo ruivo pelos ombros, num corte à Jesus Cristo a
condizer com o seu rosto iluminado e cheio de paz. Quase com quarenta anos. Nunca fui
visitar o meu irmão à cadeia nestes anos todos. A prisão onde ele está detido agora fica,
convenientemente, nos arredores da nossa cidade natal — Kinnakee, Kansas — onde ele
cometeu os crimes. Mas não sou dada a nostalgias.
A maior parte dos devotos de Ben são mulheres. De orelhas espetadas e dentes
compridos, com permanentes e fatos de calça e casaco, de lábios crispados e
martirizadas. Aparecem-me à porta de casa de vez em quando, com os olhos demasiado
brilhantes. Dizem que o meu testemunho estava errado. Que eu estava confusa, que fui
coagida, que contei uma mentira quando jurei, com sete anos de idade, que o meu irmão
era o assassino. Muitas vezes berram comigo e têm sempre muita saliva. Várias até já
me bateram, o que as torna ainda menos convincentes: é muito fácil menosprezar uma
mulher corada e histérica, e eu ando sempre à procura de uma razão para as
menosprezar.
Se fossem mais simpáticas para mim, talvez me tivessem apanhado.
— Não, eu não falo com o Ben. Se é disso que se trata, não estou interessada.
— Não, não, não, não é. A Libby limitava-se a comparecer, é quase uma espécie de
colóquio, e deixava-nos fazer-lhe perguntas. Não costuma pensar naquela noite?
Lugar Escuro.
— Não, não costumo.
— Talvez descobrisse alguma coisa interessante. Há alguns fãs... especialistas, que
sabem mais do que os polícias que investigaram o caso. Não que isso seja difícil.
— Estamos a falar, portanto, de um grupo de pessoas que me quer convencer de que o
Ben é inocente?
— Bom... talvez. Talvez a Libby os convença do contrário. — Senti uma pontinha de
condescendência. Ele estava inclinado para a frente, com os ombros contraídos, excitado.
— Quero mil dólares.
— Posso oferecer-lhe setecentos.
Olhei novamente à minha volta, sem me comprometer. Estava disposta a aceitar o que
quer que fosse que Lyle Wirth me oferecesse, caso contrário teria de arranjar um emprego
de verdade e rapidamente, e não estava pronta para isso. Não sou uma pessoa com quem
se possa contar cinco dias por semana. Segunda terça quarta quinta sexta? Nem sequer
saio da cama cinco dias de seguida. Muitas vezes, nem me lembro de comer cinco dias de
seguida. Apresentar-me num local de trabalho, onde teria de permanecer oito horas — oito
longas horas fora de casa — era inexequível.
— Setecentos, então — respondi.
— Ótimo. E vão lá estar muitos colecionadores, por isso leve souvenirs, quero dizer,
quaisquer objetos da sua infância que queira vender. Pode fazer facilmente uns dois mil
dólares. Sobretudo se tiver cartas. Quanto mais pessoais, melhor, como é óbvio. Qualquer
uma que tenha uma data próxima do dia do crime: 3 de janeiro de 1985. — Recitou a data
como se estivesse habituado a fazê-lo. — Qualquer coisa da sua mãe. As pessoas estão
completamente... fascinadas pela sua mãe.
Sempre estiveram. Sempre quiseram saber: que tipo de mulher é chacinada pelo
próprio filho?
1 Laci Peterson desapareceu em 2002, quando estava grávida de sete meses, e depois de
um processo extremamente mediático o marido foi considerado culpado e condenado à
morte. Jeffrey MacDonald foi condenado em 1979 por ter assassinado a mulher, que estava
grávida, e as duas filhas, em 1970; encontra-se a cumprir pena, tendo já recorrido várias
vezes da sentença, alegando que é inocente e que os crimes foram cometidos por uma
seita de hippies do tipo da de Charles Manson. Lizzie Borden (1860-1927) foi acusada, em
1892, de ter assassinado o pai e a madrasta à machadada; foi absolvida dos crimes, mas
nenhum outro suspeito foi levado à justiça, pelo que o mistério perdura até hoje. (N. da T.)
2 JonBenét Patricia Ramsey (1990-1996) apareceu morta na cave da casa dos pais,
estrangulada; a família foi ilibada através de testes de ADN e o caso permanece em
aberto. (N. da T.)

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