sábado, 15 de agosto de 2015

AMY ELLIOTT DUNNE 16 DE OUTUBRO DE 2010


ANOTAÇÃO EM DIÁRIO
Parabéns para mim! Um mês inteiro como moradora do Missouri e estou a caminho de me
tornar uma boa habitante do Meio-Oeste. É, eu abandonei completamente todas as coisas Costa
Leste e ganhei minha ficha de trinta dias (aqui, a ficha seria uma batata frita). Estou fazendo
anotações, honrando tradições. Eu sou a Margaret Mead do maldito Mississippi.
Vejamos, quais são as novidades? Nick e eu estamos atualmente envolvidos no que eu passei
a chamar (para mim mesma) de Dilema do Cuco. A querida herança dos meus pais parece
ridícula na casa nova. Mas, bom, todas os nossos móveis de Nova York parecem. Nosso digno e
paquidérmico sofá chesterfield, com seu pequeno divã combinando, fica na sala de estar
parecendo chocado, como se tivesse sido anestesiado com um dardo em seu ambiente natural e
acordasse naquele estranho novo cativeiro, cercado por carpete felpudo falso, madeira sintética e
paredes sem veios. Sinto falta de nossa antiga casa, todos os calombos, desníveis e fissuras
deixados pelas décadas. (Pausa para ajuste de comportamento.) Mas a nova também é legal!
Apenas diferente. O relógio discorda. O cuco também está tendo dificuldade para se ajustar ao
seu novo espaço: o passarinho se lança para fora ebriamente, dez minutos depois da hora;
dezessete minutos antes; quarenta e um depois. Emite um gemido moribundo — cuu-crrruu — que
sempre faz Bleecker sair trotando de algum esconderijo, olhos arregalados, todo profissional, o
rabo como um escovador de garrafas enquanto inclina a cabeça na direção das penas e mia.
“Nossa, seus pais realmente devem me odiar”, diz Nick sempre que estamos ao alcance do
barulho, embora ele seja inteligente o bastante para não recomendar que nos livremos do relógio.
Na verdade, também quero jogar a coisa no lixo. Sou eu (a sem-emprego) que fico em casa o dia
inteiro, apenas esperando por seu guincho, uma cinéfila tensa se preparando para a próxima
explosão do espectador maluco atrás de mim — ambos aliviados (aí está!) e raivosos (aí está!)
toda vez que acontece.
Houve muita comoção com o relógio durante a festa de open house (ah, veja só isso, um
relógio antigo!) que Mama Maureen Dunne insistiu que fizéssemos. Na verdade, não insistiu;
Mama Mo não insiste. Ela simplesmente torna as coisas realidade supondo que assim são: desde
a primeira manhã depois da mudança, quando apareceu em nosso umbral com ovos mexidos de
boas-vindas e um grande pacote de papel higiênico (que não dava uma boa impressão sobre os
ovos mexidos), ela falara sobre o open house como se fosse um fato. Então, quando vocês
querem fazer a festa de open house? Já pensaram em quem devo convidar para o open house?
Querem um open house calmo ou algo mais animado, como um chá de bar? Mas uma festa
tradicional é sempre boa também.
E então de repente havia uma data, e a data era hoje, e a família Dunne e os amigos estavam
sacudindo a garoa de outubro de seus guarda-chuvas e cuidadosamente, conscientemente,
limpando os pés no capacho que Maureen trouxera para nós naquela manhã. O carpete diz: São
amigos todos os que entram aqui. É da loja Costco. Aprendi sobre compras no atacado em
quatro semanas como moradora do rio Mississippi. Os republicanos vão ao Sam’s Club, os
democratas vão à Costco. Mas todos compram no atacado, porque — diferentemente dos
moradores de Manhattan — todos têm espaço para estocar vinte e quatro potes de picles. E —
diferentemente dos moradores de Manhattan — todos têm o que fazer com vinte e quatro potes de
picles. (Nenhuma reunião é completa sem uma travessa cheia de picles e azeitonas espanholas
tiradas diretamente do pote. E feno.)
Eis a cena: é um daqueles dias de cheiros fortes, quando as pessoas levam o exterior para
dentro com elas, o cheiro de chuva em suas mangas, seus cabelos. As mulheres mais velhas —
amigas de Maureen — oferecem comidas variadas em recipientes plásticos que podem ser
colocados na lavadora e que elas depois pedirão que eu devolva. E pedirão, e pedirão
novamente. Eu sei, agora, que se espera que eu lave os recipientes e deixe cada um em seu
devido lar — uma entregadora de Ziploc —, mas quando vim para cá eu não conhecia o
protocolo. Mandei devidamente para a reciclagem todos os recipientes plásticos, então tive de
comprar novos para todas. A melhor amiga de Maureen, Vicky, imediatamente notou que seu
recipiente era novo, comprado na loja, um impostor, e quando expliquei minha confusão ela
arregalou os olhos de espanto: Então é assim que eles fazem em Nova York.
Mas sobre o open house: as mulheres mais velhas são amigas de Maureen de antigas reuniões
da associação de pais e mestres, de clubes de leitura, da Shoe-Be-Doo-Be no shopping, onde ela
passava quarenta horas por semana colocando confortáveis sapatos de salto quadrado nos pés de
mulheres de certa idade. (Ela consegue descobrir o tamanho de um pé só de olhar — 37
feminino, estreito! —, é seu truque nas festas.) Todas as amigas de Mo adoram Nick e todas têm
histórias sobre as coisas adoráveis que ele fez para elas ao longo dos anos.
As mulheres mais novas, que representam o conjunto de possíveis-amigas-de-Amy, exibem
todas o mesmo corte curto de cabelos descoloridos, as mesmas babuchas. São filhas das amigas
de Maureen, e todas adoram Nick, e todas têm histórias sobre as coisas adoráveis que ele fez por
elas ao longo dos anos. A maioria está desempregada com os fechamentos no shopping, ou seus
maridos estão desempregados por causa dos fechamentos no shopping, então todas me oferecem
receitas de “comidas baratas e fáceis”, que normalmente envolvem um refogado de sopa
enlatada, manteiga e salgadinhos.
Os homens são simpáticos, silenciosos e se reúnem em círculos, conversando sobre esportes
e sorrindo com benevolência para mim.
Todos são simpáticos. São literalmente o mais simpáticos que podem ser. Maureen, a
paciente de câncer mais durona de três estados, me apresenta a todos os seus amigos da mesma
forma que você mostraria um novo animal de estimação ligeiramente perigoso: “Esta é a esposa
de Nick, Amy, nascida e criada na cidade de Nova York.” E suas amigas, roliças e simpáticas,
imediatamente sofrem de algum estranho surto de síndrome de Tourette: repetem as palavras —
cidade de Nova York! — com as mãos juntas e dizem algo que dispensa resposta: Deve ter sido
maravilhoso. Ou, com vozes roucas, cantam “New York, New York”, dançando de leve de um
lado para outro com mãos espalmadas. A amiga de Maureen da sapataria, Barb, manda um “Nue
York Ceety! Peguem uma corda”, e quando eu olho confusa, ela diz: “Ah, isso é daquele velho
comercial de molho!”, e quando eu continuo sem entender, ela fica vermelha, coloca a mão em
meu braço e diz: “Eu nunca enforcaria você.”
No fim das contas, todas começam a rir e confessam que nunca estiveram em Nova York. Ou
que estiveram — uma vez — e não gostaram muito. Então digo algo como Você iria gostar ou
Decididamente não é para todo mundo ou Hum, porque não tenho mais nada a dizer.
“Seja simpática, Amy”, cospe Nick em meu ouvido quando estamos na cozinha enchendo
novamente os copos (habitantes do Meio-Oeste adoram dois litros de refrigerante, sempre dois
litros, e você os coloca em grandes copos plásticos vermelhos da marca Solo, sempre).
“Estou sendo”, reclamo. Fico realmente magoada, porque se perguntassem a qualquer um
naquela sala se estou sendo simpática, sei que todos diriam que sim.
Às vezes tenho a impressão de que Nick se fixou em uma versão de mim que não existe.
Desde que nos mudamos para cá eu saí à noite com outras mulheres e fiz caminhadas
beneficentes, preparei refogados para o pai dele e ajudei a vender bilhetes de rifas. Liberei o
resto do meu dinheiro para dar a Nick e Go para que eles pudessem comprar o bar que sempre
quiseram, e até coloquei o cheque dentro de um cartão em forma de um caneco de cerveja —
Tim-tim para vocês! —, e Nick simplesmente soltou um obrigado seco de má vontade. Não sei o
que fazer. Estou tentando.
Nós distribuímos os refrigerantes, eu sorrindo e rindo ainda mais, uma visão de graça e
alegria, perguntando a todos se posso oferecer algo mais, elogiando as mulheres por suas saladas
de frutas com creme, molhos de caranguejo e fatias de picles com cream cheese enrolados em
salame.
O pai de Nick chega com Go. Eles ficam de pé em silêncio na soleira da porta, gótico do
Meio-Oeste, Bill Dunne rígido e ainda bonito, um pequeno Band-Aid na testa, Go com uma
expressão furiosa, os cabelos com prendedores, os olhos desviados do pai.
“Nick”, diz Bill Dunne, apertando a mão dele, e entra, franzindo a testa para mim. Go o
segue, agarra Nick e o leva para trás da porta, sussurrando. “Não tenho ideia de onde ele está
agora, mentalmente falando. Tipo, se está tendo um dia ruim ou apenas sendo um babaca.
Nenhuma ideia.”
“Certo, certo. Não se preocupe, vou ficar de olho nele.”
Go dá de ombros, irritada.
“Estou falando sério, Go. Pegue uma cerveja e relaxe. Está liberada de cuidados com o papai
pela próxima hora.”
Eu penso: Se fosse eu, ele se queixaria de que estava sendo sensível demais.
As mulheres mais velhas continuam a girar ao meu redor, me contando que Maureen sempre
dissera como Nick e eu éramos um casal maravilhoso, e ela está certa, claramente somos feitos
um para o outro.
Prefiro esses clichês bem-intencionados ao papo que ouvimos antes do casamento.
Casamento significa concessões e trabalho duro, e depois mais trabalho duro e comunicação e
concessões. E depois trabalho. Abandone toda esperança, aquele que aqui entrar.
A festa de noivado em Nova York ficou pior por isso, todos os convidados quentes de vinho
e ressentimento, como se todos os casais tivessem tido uma discussão a caminho do clube. Ou
tivessem se lembrado de alguma discussão. Como Binks. Binks Moriarty, a mãe de oitenta e oito
anos da melhor amiga da minha mãe, me parou no bar — gritou “Amy! Preciso falar com você!”
em tom de emergência médica. Torceu seus preciosos anéis em dedos de nós grossos — torceu,
girou, estalou — e acariciou meu braço (aquele gesto de velho — dedos frios cobiçando sua pele
bonita, macia, quente e novinha), e então Binks me contou como seu falecido marido com quem
fora casada durante sessenta e três anos tivera dificuldade em “segurar o passarinho na gaiola”.
Binks disse isso com um daqueles sorrisos de estou quase morta, posso dizer esse tipo de coisa
e olhos anuviados de catarata. “Ele simplesmente não conseguia mantê-lo dentro das calças”,
disse a velha senhora com urgência, sua mão gelando meu braço em um aperto mortal. “Mas ele
me amava mais do que a qualquer uma delas. Eu sei disso, e você sabe disso.” Com a moral da
história sendo: o Sr. Binks era um traidor cretino, mas, você sabe, casamento implica
concessões.
Eu me retirei rapidamente e comecei a circular em meio à multidão, sorrindo para uma série
de rostos enrugados, com aquele olhar flácido, exausto, desapontado que as pessoas ganham na
meia-idade, e todos os rostos eram assim. A maioria deles também estava bêbada, fazendo
passos de dança de sua juventude — se remexendo ao som de funk de country club —, e aquilo
parecia ainda pior. Eu estava indo na direção da janela para respirar um pouco, quando uma mão
apertou meu braço. A mãe de Nick, Mama Maureen, com seus grandes olhos negros de laser, seu
rosto ansioso de cão pug. Enfiando um pedaço de queijo de cabra e biscoitos na boca, Maureen
conseguiu dizer: “Não é fácil se juntar a alguém para sempre. É uma coisa admirável, e estou
contente que estejam fazendo isso, mas, ah, crianças, haverá dias em que desejarão nunca ter feito
isso. E esses serão os momentos bons, quando forem apenas dias de arrependimento, e não
meses.” Devo ter parecido chocada — definitivamente estava chocada —, porque ela disse
rapidamente: “Mas então vocês também terão momentos bons. Sei que terão. Os dois. Muitos
momentos bons. Então apenas... Perdoe-me, querida, pelo que disse antes. Estou apenas sendo
uma velha divorciada e tola. Ah, nossa senhora dos bêbados, acho que bebi vinho demais.” E deu
um aceno de despedida para mim e saiu correndo alegremente em meio a todos os outros casais
desapontados.
* * *
“Você não deveria estar aqui”, Bill Dunne está dizendo de repente, e estava dizendo isso a
mim. “Por que está aqui? Você não pode entrar aqui.”
“Sou Amy”, digo, tocando seu braço como se isso fosse acordá-lo. Bill sempre gostou de
mim; mesmo que não conseguisse pensar em nada para me dizer, eu sabia que ele gostava de
mim, pelo modo como me olhava, como se eu fosse um pássaro raro. Agora ele está franzindo a
testa, empurrando o peito na minha direção, uma caricatura de um jovem marinheiro prestes a se
meter em uma briga. A alguns passos de distância, Go pousa sua comida e se prepara para vir em
nossa direção, silenciosamente, como se tentasse apanhar uma mosca.
“Por que está em nossa casa?”, pergunta Bill Dunne, sua boca fazendo uma careta. “Que
ousadia, senhora.”
“Nick?”, chama Go virada para trás, não alto, mas com urgência.
“Pode deixar”, diz Nick, aparecendo. “Oi, pai, essa é minha esposa, Amy. Lembra-se de
Amy? Nós nos mudamos para cá para podermos ver mais você. Esta é nossa nova casa.”
Nick crava os olhos em mim: fui eu quem insistiu em convidar o pai dele.
“Só estou dizendo, Nick”, diz Bill Dunne, apontando, agora sacudindo um indicador na
direção do meu rosto, a festa ficando silenciosa, vários homens se deslocando lentamente, com
cautela, vindos da outra sala, as mãos coçando, prontos para se mover, “que este não é o lugar
dela. A piranhazinha acha que pode fazer tudo o que quer.”
Mama Mo então se adianta, o braço ao redor do ex-marido, sempre, sempre à altura da
ocasião. “Claro que é o lugar dela, Bill. É a casa dela. É a esposa do seu filho. Lembra?”
“Eu a quero fora daqui, está me entendendo, Maureen?” Ele se livra dela e começa a ir na
minha direção novamente. “Piranha burra. Piranha burra.”
Não está claro se ele se refere a mim ou a Maureen, mas então ele olha para mim e aperta os
lábios. “Este não é o lugar dela.”
“Vou sair daqui”, digo, e dou as costas, passo pela porta, vou para debaixo da chuva. Ele tem
Alzheimer, penso, tentando relevar. Dou uma grande volta pelo bairro, esperando que Nick
apareça e me leve de volta para nossa casa. A chuva cai sobre mim gentilmente, me encharcando.
Acredito de verdade que Nick virá atrás de mim. Eu me viro na direção da casa e vejo apenas
uma porta fechada.
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Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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