tomando café enquanto esperávamos que os policiais falassem com Lonnie. Amy olhava para nós
de seu pôster na parede. Sua foto parecia preocupada.
— Só não entendo por que ela não diria nada a você, se estava com medo — disse Rand. —
Por que não contaria a você?
Amy fora ao shopping para comprar uma arma logo no Dia dos Namorados, dentre todos os
dias, segundo nosso amigo Lonnie dissera. Ela estava um pouco envergonhada, um pouco
nervosa: Talvez eu esteja sendo boba, mas... realmente acho que preciso de uma arma . Mas
estava sobretudo nervosa. Alguém a estava assustando, ela dissera a Lonnie. Não deu mais
detalhes, mas, quando ele perguntou que tipo de arma queria, disse: Uma que pare alguém
rapidamente. Ele disse a ela para voltar dentro de alguns dias, e ela voltou. Ele não havia
conseguido arranjar uma arma para ela (“Não é muito a minha área, dona”), mas agora gostaria
de ter conseguido. Lembrava-se bem dela; ao longo dos meses, ele se perguntara como ela
estaria, aquela loura gentil com o rosto assustado, tentando conseguir uma arma no Dia dos
Namorados.
— De quem ela estaria com medo? — perguntou Rand.
— Conte novamente sobre Desi, Rand — pedi. — Você o encontrou alguma vez?
— Ele veio à nossa casa algumas vezes — respondeu Rand, franzindo a testa, recordando. —
Era um garoto de boa aparência, muito solícito com Amy, a tratava como uma princesa. Mas
nunca gostei dele. Mesmo quando as coisas iam bem entre eles, amor jovem, o primeiro amor de
Amy, mesmo então, eu desgostava dele. Era muito rude comigo, inexplicavelmente. Muito
possessivo comAmy, os braços ao redor dela o tempo todo. Eu achava estranho, muito estranho,
que não tentasse ser simpático conosco. A maioria dos jovens quer se dar bem com os sogros.
— Eu queria.
— E conseguiu! — Rand sorriu. — Você tinha a dose certa de nervosismo, era muito meigo.
Desi não era nada além de desagradável.
— Ele está a menos de uma hora da cidade.
— Verdade. E Hilary Handy? — perguntou Rand, esfregando os olhos. — Não quero ser
sexista: ela era mais assustadora que Desi. Porque o tal Lonnie do shopping não disse que Amy
estava com medo de um homem.
— Não, só disse que ela estava com medo. Há a tal garota, Noelle Hawthorne, aquela que
mora perto de nós. Ela disse à polícia que era a melhor amiga de Amy, quando eu sei que não
era. Elas não eram sequer amigas. O marido diz que ela está histérica. Que ficou olhando para
fotos de Amy, chorando. Na época, achei que eram fotos da internet, mas... E se eram fotos de
verdade que ela tinha de Amy? E se ela estava obcecada com Amy?
— Ela tentou falar comigo quando eu estava meio ocupado ontem — disse Rand. — Citou
umas coisas de Amy Exemplar. Na verdade, Amy Exemplar e a guerra da melhor amiga.
“Melhores amigos são aqueles que nos conhecem melhor.”
— Isso soa como algo que Hilary diria — completei. — Uma Hilary adulta.
* * *
Encontramos com Boney e Gilpin pouco depois das sete da manhã em uma lanchonete na
rodovia para um confronto. Era ridículo que estivéssemos fazendo o trabalho deles. Era loucura
que nós estivéssemos descobrindo pistas. Era hora de chamar o FBI se a polícia local não
conseguia dar conta.
Uma garçonete roliça de olhos cor de âmbar anotou nossos pedidos, serviu café e, claramente
me reconhecendo, ficou a uma distância em que podia escutar, até Gilpin a dispensar. Mas ela
era como uma mosca doméstica determinada. Entre novas doses de café, distribuição de talheres
e a chegada magicamente rápida de nossa comida, toda nossa discussão saiu em espasmos
entrecortados. Isso é inaceitável... Chega de café, obrigado... É inacreditável que... Ahn, claro,
centeio está bom...
Antes que terminássemos, Boney interrompeu.
— Entendo, rapazes, é natural querer se sentir envolvido. Mas o que vocês fizeram foi
perigoso. Vocês precisam deixar que cuidemos desse tipo de coisa.
— Mas é exatamente isso, vocês não estão cuidando — retruquei. — Vocês nunca teriam
conseguido essa informação sobre a arma se não tivéssemos ido lá ontem à noite. O que Lonnie
disse quando vocês falaram com ele?
— O mesmo que você disse que ele falou — respondeu Gilpin. — Amy queria comprar uma
arma, estava assustada.
— Vocês não parecem muito impressionados com essa informação — falei, irritado. —
Acham que ele estava mentindo?
— Não achamos que ele estava mentindo — respondeu Boney. — Não há motivo para o cara
chamar a atenção da polícia para si. Ele pareceu muito impressionado com sua esposa. Muito...
Não sei, abalado que isso tenha acontecido a ela. Ele se lembrava de detalhes específicos. Nick,
ele disse que ela estava usando uma echarpe verde naquele dia. Sabe, não um cachecol de
inverno, mas uma da moda — falou, fazendo movimentos flutuantes com os dedos para mostrar
que achava moda algo infantil, que não merecia sua atenção. — Verde-esmeralda. Isso lhe diz
algo?
Eu confirmei com um aceno de cabeça.
— Ela usa muito com calça jeans.
— E um broche no casaco; um A de ouro em letra cursiva?
— Sim.
Boney deu de ombros: Bem, isso resolve a questão.
— Você não acha que ele pode ter ficado tão impressionado com ela que... a sequestrou? —
perguntei.
— Ele tem um álibi. Sólido — respondeu Boney, me olhando com determinação. — Para
falar a verdade, começamos a procurar... um tipo diferente de motivação.
— Algo mais... pessoal — acrescentou Gilpin. Ele olhou desconfiado para suas panquecas
cobertas com morangos e bolotas de chantili. Começou a raspá-los para o lado do prato.
— Mais pessoal — repeti. — Então isso significa que finalmente vão falar com Desi
Collings ou Hilary Handy? Ou eu preciso fazer isso?
Na verdade, eu prometera a Marybeth que iria hoje.
— Vamos, sim — confirmou Boney. Ela tinha o tom tranquilizador de uma garota prometendo
à mãe chata que iria comer melhor. — Duvidamos que seja uma pista, mas vamos falar com eles.
— Bem, ótimo, obrigado por fazer seu trabalho, mais ou menos — falei. — E quanto a
Noelle Hawthorne? Se vocês querem alguém perto de casa, ela está bem no nosso condomínio, e
parece um pouco obcecada por Amy.
— Eu sei, ela ligou para nós, e está em nossa lista. — Gilpin balançou a cabeça. — Hoje.
— Bom. O que mais estão fazendo?
— Nick, na verdade gostaríamos que você nos desse um pouco do seu tempo, deixasse que
forçássemos seu cérebro um pouco mais — disse Boney. — Os cônjuges com frequência sabem
mais do que imaginam. Gostaríamos que pensasse um pouco mais sobre a discussão, aquela briga
que sua vizinha, a Sra., ahn, Teverer, ouviu você e Amy tendo na noite antes de ela desaparecer.
A cabeça de Rand virou bruscamente na minha direção.
Jan Teverer, a mulher cristã do refogado que não olhava mais nos meus olhos.
— Quer dizer, poderia ter sido porque, e sei que isso é duro de ouvir, Sr. Elliott, porque
Amy estava sob a influência de algo? — perguntou Boney. Olhos inocentes. — Quer dizer, talvez
ela tenha tido contato com figuras menos respeitáveis da cidade. Há muitos outros traficantes de
drogas. Talvez ela tenha perdido o controle, e por isso queria uma arma. Precisa haver uma razão
para ela querer uma arma para se proteger e não contar ao marido. E Nick, gostaríamos que
pensasse novamente em onde esteve durante aquele tempo... entre o momento da discussão, por
volta das onze horas da noite, a última vez em que alguém ouviu a voz de Amy e...
— Além de mim.
— Além de você... E meio-dia, quando chegou ao seu bar. Se você esteve fora, circulando
pela cidade, dirigindo até a praia, passando tempo na área do cais, alguém deve ter visto. Mesmo
que fosse alguém apenas, sabe, passeando com o cachorro. Se puder nos ajudar, acho que isso
seria realmente...
— Útil — concluiu Gilpin. Ele espetou um morango.
Ambos olhavam para mim atentamente, com simpatia.
— Seria muito útil, Nick — repetiu Gilpin de forma ainda mais amigável.
Era a primeira vez que eu ouvia falar sobre a discussão — que eles sabiam sobre ela — e
eles escolhiam me contar na frente de Rand. E escolhiam fingir que não era uma armadilha.
— Certamente — concordei.
— Você se importaria de nos dizer sobre o que foi? — perguntou Boney. — A discussão?
— Sobre o que a Sra. Teverer disse que foi?
— Odeio ficar com a palavra dela quando você está bem aqui. — Ela colocou creme no café.
— Foi uma discussão sobre nada — comecei. — Por isso não cheguei a mencionar. Apenas
ambos irritando um ao outro, como casais às vezes fazem.
Rand olhou para mim como se não tivesse ideia do que eu estava falando: Irritando? O que é
esse irritando de que você fala?
— Foi só... Sobre o jantar — menti. — Sobre o que faríamos para o jantar no nosso
aniversário de casamento. Sabem, Amy é tradicional a respeito dessas coisas...
— A lagosta! — interrompeu Rand. Ele se virou para os policiais. — Amy faz lagosta todo
ano para Nick.
— Certo. Mas não há nenhum lugar onde conseguir lagosta nesta cidade, não viva, do
aquário, então ela estava frustrada. Eu tinha a reserva no Houston’s...
— Achei que você tinha dito que não tinha uma reserva no Houston’s — disse Rand
franzindo a testa.
— Bem, sim, desculpe-me, estou ficando confuso. Apenas tive a ideia da reserva no
Houston’s. Mas eu realmente deveria ter dado um jeito de mandar vir lagosta de avião.
Os policiais, ambos, acidentalmente ergueram uma sobrancelha. Que elegante.
— Não é tão caro de fazer. De qualquer forma, estávamos nesse bate-boca ridículo, e foi uma
daquelas brigas que ficam maiores do que deveriam — falei, comendo um pedaço de panqueca.
Podia sentir o calor subindo por debaixo do meu colarinho. — Estávamos rindo daquilo uma
hora depois.
— Ahn. — Foi tudo o que Boney disse.
— E em que ponto você está da caça ao tesouro? — perguntou Gilpin.
Eu me levantei, coloquei algum dinheiro na mesa, pronto para partir. Não era eu quem devia
estar sendo atacado ali.
— Em ponto nenhum, não no momento; é difícil pensar claramente com tanta coisa
acontecendo.
— Certo — disse Gilpin. — É menos provável que a caça ao tesouro seja uma pista, agora
que sabemos que ela já se sentia ameaçada meses atrás. Mas, ainda assim, me mantenha
informado, está bem?
Todos saímos para o calor. Quando Rand e eu entrávamos no carro, Boney chamou:
— Ei, Amy ainda veste trinta e seis, Nick?
Franzi a testa.
— Tamanho trinta e seis? — repetiu.
— Sim, veste, acho — respondi. — Sim, é isso que ela veste.
Boney fez uma cara que dizia Hummm, e entrou no carro.
— O que você acha que foi isso? — perguntou Rand.
— Com aqueles dois, quem sabe?
Permanecemos em silêncio durante a maior parte do caminho até o hotel, Rand olhando pela
janela para as filas de lanchonetes piscando, eu pensando em minha mentira — minhas mentiras.
Tivemos de dar uma volta no quarteirão para encontrar uma vaga no Days Inn; a reunião dos
contadores aparentemente era um sucesso.
— Sabe, é engraçado como sou provinciano, um nova-iorquino da vida inteira — disse Rand,
os dedos na maçaneta da porta. — Quando Amy falou sobre se mudar para cá, para o velho rio
Mississippi, com você, eu imaginei... Verde, fazendas, macieiras e aqueles celeiros vermelhos
grandes e antigos. Tenho de dizer, na verdade é bastante feio aqui. — Ele riu. — Não consigo
pensar em um único elemento de beleza na cidade inteira. Exceto minha filha.
Ele saiu e caminhou rapidamente na direção do hotel, e eu não tentei acompanhar. Entrei no
quartel-general alguns minutos depois dele, ocupei um assento em uma mesa escondida no fundo
da sala. Precisava concluir a caça ao tesouro antes que as pistas desaparecessem, descobrir para
onde Amy estivera me levando. Após algumas horas de dever cumprido aqui, tenho de cuidar da
terceira pista. Enquanto isso, telefonei.
— Sim — atendeu uma voz impaciente. Um bebê chorava ao fundo. Eu podia ouvir a mulher
soprando cabelo do rosto.
— Oi, quem está falando? É... é Hilary Handy?
Ela desligou. Eu liguei novamente.
— Alô?
— Oi. Acho que a ligação anterior caiu.
— Coloque este número em sua lista de não telefonar...
— Hilary, não estou vendendo nada, estou ligando por causa de Amy Dunne... Amy Elliott.
Silêncio. O bebê guinchou novamente, um gemido que oscilava perigosamente entre riso e
chilique.
— O que houve?
— Não sei se você viu isso na TV, mas ela desapareceu. Ela sumiu em cinco de julho, em
circunstâncias potencialmente violentas.
— Ah. Lamento.
— Sou Nick Dunne, marido dela. Estou só ligando para seus antigos amigos.
— Ah, é?
— Queria saber se você teria entrado em contato com ela. Recentemente.
Ela respirou ao telefone, três respirações profundas.
— Isso é por causa daquela, daquela besteira no ensino médio? — Ao fundo, uma criança
gritou com voz irritante: “Ma-mããããe, preciso de vocêêêê.” — Um minuto, Jack — pediu ela
para o vazio atrás de si. Depois voltou a falar comigo com uma voz vermelho-brilhante. — É
isso? É por isso que está ligando para mim? Porque isso foi há malditos vinte anos. Mais, até.
— Eu sei. Eu sei. Olha, eu tenho que perguntar. Eu seria um babaca se não perguntasse.
— Meus Deus, que merda. Sou mãe de três filhos agora. Não falo com Amy desde o ensino
médio. Aprendi minha lição. Se eu a visse na rua, correria na outra direção. — O bebê berrou.
— Tenho que ir.
— É rapidinho, Hilary...
Ela desligou e imediatamente meu descartável vibrou. Eu o ignorei. Eu tinha de achar um
lugar para guardar a maldita coisa.
Eu podia sentir a presença de alguém, uma mulher, perto de mim, mas não ergui os olhos,
esperando que ela fosse embora.
— Não é nem meio-dia e você já parece ter tido um dia inteiro, pobrezinho.
Shawna Kelly. Ela tinha os cabelos presos em um alto rabo de cavalo de adolescente fútil.
Apontou lábios cobertos de gloss para mim em um biquinho solidário.
— Pronto para minha frito pie?
Ela estava segurando um prato logo abaixo dos seios, o filme plástico salpicado de suor. Ela
disse essas palavras como se fosse a estrela de um vídeo de hair rock dos anos oitenta: quer um
pouco da minha torta?
— Comi muito no café da manhã. Mas obrigado. Muito gentil de sua parte.
Em vez de ir embora, ela se sentou. Sob uma saia de tênis turquesa, suas pernas estavam tão
hidratadas que reluziam. Ela me chutou de leve com a ponta de um Tretorn imaculado.
— Você tem dormido, querido?
— Estou aguentando o tranco.
— Você tem que dormir, Nick. Não vai conseguir ajudar em nada se estiver exausto.
— Talvez eu dê uma fugidinha daqui a pouco, para ver se consigo cochilar algumas horas.
— Acho que você deveria. Acho mesmo.
Senti uma súbita e ávida gratidão a ela. Era minha postura filhinho da mamãe brotando.
Perigoso. Pare com isso, Nick.
Esperei que ela fosse embora. Ela tinha de ir embora — as pessoas estavam começando a nos
observar.
— Se quiser, posso levar você para casa agora — disse ela. — Um cochilo pode ser a
melhor coisa para você.
Ela estendeu a mão para tocar meu joelho, e senti um surto de fúria por ela não se dar conta
de que tinha de ir embora. Deixe a maldita comida, sua vagabunda grudenta, e suma. A postura
filhinho do papai brotando. Igualmente ruim.
— Por que você não vai falar com Marybeth? — disse eu bruscamente, apontando para minha
sogra junto à máquina de xerox, fazendo infinitas cópias da foto de Amy.
— Está bem.
Ela continuou ali, então comecei a ignorá-la abertamente.
— Vou deixar você quieto, então. Espero que goste da torta.
Deu para ver que minha rejeição a magoara, porque ela não fez contato visual ao sair, apenas
se virou e saiu rebolando. Eu me senti mal, pensei em me desculpar, me redimir. Não vá atrás
daquela mulher, ordenei a mim mesmo.
— Alguma novidade?
Era Noelle Hawthorne, entrando no mesmo espaço que Shawna acabara de desocupar. Ela
era mais jovem que Shawna, mas parecia mais velha — um corpo roliço com seios que pareciam
dois montes rígidos e separados. O rosto fechado.
— Por enquanto, não.
— Você certamente parece estar levando tudo numa boa.
Virei a cabeça na direção dela, sem saber o que dizer.
— Você ao menos sabe quem eu sou? — perguntou.
— Claro. Você é Noelle Hawthorne.
— Sou a melhor amiga de Amy aqui.
Eu tinha de lembrar à polícia: só havia duas possibilidades com Noelle. Ou ela era uma
mentirosa que queria atenção da mídia — gostava da distinção de ser ligada a uma mulher
desaparecida — ou era maluca. Uma mulher obcecada, determinada a fazer amizade comAmy, e
quando Amy a rejeitou...
— Você tem alguma informação sobre Amy, Noelle? — perguntei.
— Claro que tenho, Nick. Ela era minha melhor amiga.
Ficamos olhando um para o outro por alguns segundos.
— E você vai dividir essa informação? — perguntei.
— A polícia sabe onde me encontrar. Se eles um dia tiverem tempo.
— Isso ajuda muito, Noelle. Vou garantir que falem com você.
As bochechas dela ficaram vermelhas, duas manchas expressionistas de cor.
Ela foi embora. Eu tive o pensamento grosseiro, um daqueles que fermentavam fora do meu
controle. Pensei: As mulheres são malucas, porra. Sem classificação. Não algumas mulheres,
não muitas mulheres. As mulheres são malucas.
* * *
Quando a noite caiu totalmente, dirigi até a casa vazia do meu pai, a pista de Amy no banco
ao meu lado.
Talvez você se sinta culpado por ter me trazido a este lugar
Devo admitir que pareceu um pouco difícil de aceitar
Mas não é como se tivéssemos muita opção
Fazer deste o nosso lugar era uma decisão.
Vamos levar nosso amor para esta casinha marrom
Me dê um pouco de boa vontade, marido gostoso, meu bombom!
Aquela era mais críptica que as outras, mas eu estava certo de que entendera. Amy estava
aceitando Carthage, finalmente me perdoando por termos nos mudado para cá. Talvez, por ter me
trazido aqui, você se sinta culpado... [mas] fazer deste o nosso lugar era uma decisão. A
casinha marrom era a casa de meu pai, que na verdade era azul, mas Amy estava fazendo outra
piada interna. Sempre gostei muito de nossas piadas internas — faziam com que me sentisse mais
ligado a Amy do que qualquer quantidade de confissões, de sexo apaixonado ou de conversas até
o amanhecer. A história da “casinha marrom” era sobre meu pai, e Amy é a única pessoa a quem
contei: depois do divórcio, eu o via tão pouco que decidi pensar nele como um personagem de
um livro. Ele não era meu pai de verdade — que teria me amado e passado tempo comigo —,
mas uma figura benevolente e vagamente importante chamada Sr. Brown, que estava muito
ocupado fazendo coisas muito importantes para os Estados Unidos e que (muito) ocasionalmente
me usava como disfarce para circular mais facilmente pela cidade. Amy ficou com lágrimas nos
olhos quando contei isso, o que não era minha intenção, eu contara como uma história do tipo
crianças são engraçadas. Ela me disse que era minha família agora, que me amava o bastante
para compensar dez pais de merda e que nós éramos os Dunne, agora, nós dois. E então sussurrou
em meu ouvido: “Tenho uma missão para a qual você pode ser bom...”
Quanto ao pouco de boa vontade, essa era outra conciliação. Depois que meu pai foi
totalmente tomado pelo Alzheimer, nós decidimos vender a casa dele, então Amy e eu
vasculhamos o lugar, enchendo caixas para o bazar. Ela, claro, foi um dervixe rodopiante do
fazer — embalar, estocar, jogar fora —, enquanto eu selecionava em câmera lenta as coisas do
meu pai. Para mim, tudo era uma pista. Uma caneca com manchas de café mais fortes que as
outras devia ser a preferida dele. Teria sido um presente? Quem lhe dera aquilo? Ou ele mesmo
comprara? Imaginava que meu pai considerava o simples ato de fazer compras uma emasculação.
No entanto, uma inspeção em seu closet revelou cinco pares de sapatos, novos em folha, ainda
nas caixas. Será que ele comprara aqueles pessoalmente, imaginando um Bill Dunne diferente,
mais sociável do que aquele que se desenrolava lentamente como um carretel solitário? Será que
ele fora à Shoe-Be-Doo-Be, fizera com que minha mãe o ajudasse, apenas um acréscimo na lista
de gentilezas corriqueiras dela? Claro que não partilhei nenhum desses pensamentos com Amy,
de modo que pareci o inútil que frequentemente sou.
“Aqui. Uma caixa. Para o bazar. Da boa vontade”, disse ela, me pegando no chão, apoiado
em uma parede, olhando fixamente para um sapato. “Você coloca os sapatos na caixa. Está bem?”
Eu estava envergonhado, rosnei para ela, ela se irritou comigo e... o de sempre.
Eu deveria acrescentar, em defesa de Amy, que ela me perguntara duas vezes se eu queria
conversar, se tinha certeza de que queria fazer aquilo. Eu às vezes deixo de fora detalhes como
esse. É mais conveniente para mim. Na verdade, queria que ela lesse minha mente para eu não ter
de me rebaixar à arte feminina da articulação. Eu algumas vezes era tão culpado de jogar o
“adivinha quem eu sou” quanto Amy. Também deixei essa informação de fora.
Eu sou um grande fã da mentira por omissão.
Estacionei na frente da casa de meu pai pouco depois das dez da noite. Era um lugarzinho
jeitoso, uma boa casa para começar (ou para terminar) a vida. Dois quartos, dois banheiros, sala
de jantar, uma cozinha datada, mas decente. Uma placa de vende-se enferrujava no jardim da
frente. Um ano e nada.
Entrei na casa abafada, o calor passando sobre mim. O sistema de alarme barato que
instalamos depois da terceira invasão começou a apitar, como a contagem regressiva de uma
bomba. Digitei a senha, aquela que deixava Amy louca porque ia contra todas as regras sobre
senhas. Minha data de nascimento: 15877.
Senha rejeitada. Tentei novamente. Senha rejeitada. Uma gota de suor escorreu pelas minhas
costas. Amy sempre ameaçara mudar a senha. Dizia que não fazia sentido ter uma que fosse tão
facilmente descoberta, mas eu sabia a verdadeira razão. Ela se ressentia de ser meu aniversário,
não nosso aniversário de casamento. Mais uma vez eu escolhera eu em vez de nós. Minha
saudade quase doce de Amy desapareceu. Soquei os números com o dedo novamente, cada vez
mais em pânico enquanto o alarme tocava e tocava e tocava sua contagem regressiva — até entrar
em modo de aviso de invasão.
Uóóóóóó-uóóóóóó-uóóóóó!
Meu celular deveria tocar para que eu pudesse dar o aviso de tudo bem: sou só eu, o idiota.
Mas não tocou. Esperei um minuto, o alarme me lembrando de um filme de submarino que acaba
de ser atingido por um torpedo. O calor enlatado da casa em pleno mês de julho vibrava sobre
mim. As costas da minha camisa já estavam encharcadas. Puta merda, Amy. Examinei o alarme
em busca do número de telefone da empresa e não achei nada. Peguei uma cadeira e comecei a
puxar o alarme; eu o arrancara da parede, deixando-o pendurado pelos fios, quando meu telefone
finalmente tocou. Uma voz irritada do outro lado exigiu o nome do primeiro animal de estimação
de Amy.
Uóóóóóó-uóóóóóó-uóóóóó!
Era exatamente o tom errado — presunçoso, petulante, absolutamente indiferente — e
exatamente a pergunta errada, pois eu não sabia a resposta, o que me enfureceu. Não importava
quantas pistas eu descobrisse, iria me deparar com alguma pergunta de conhecimentos gerais
sobre Amy para me emascular.
— Olha, aqui é Nick Dunne, esta é a casa do meu pai, esta conta foi aberta por mim — falei.
— Então realmente não tem nenhuma importância qual era o nome do primeiro animal de
estimação de minha esposa, porra.
Uóóóóóó-uóóóóóó-uóóóóó!
— Por favor, não use esse tom comigo, senhor.
— Olha, só entrei para pegar uma coisa na casa do meu pai, e agora estou indo embora, está
bem?
— Tenho de informar a polícia imediatamente.
— Você pode apenas desligar o maldito alarme para que eu consiga pensar?
Uóóóóóó-uóóóóóó-uóóóóó!
— O alarme está desligado.
— O alarme não está desligado.
— Senhor, eu avisei uma vez, não use esse tom comigo.
Sua piranha desgraçada.
— Quer saber? Foda-se, foda-se, foda-se.
Desliguei no instante em que lembrei do nome do gato de Amy, o primeiro: Stuart.
Liguei de volta, falei com uma atendente diferente, uma atendente razoável, que desligou o
alarme e, Deus a abençoe, cancelou a polícia. Eu realmente não estava a fim de me explicar.
Sentei no carpete fino e barato e me obriguei a respirar, o coração martelando. Após um
minuto, depois que meus ombros relaxaram e meu maxilar se soltou, que minhas mãos se abriram
e que meu coração voltou ao normal, levantei-me e por um momento pensei em simplesmente ir
embora, como se isso fosse ensinar uma lição a Amy. Mas quando me levantei vi um envelope
azul no balcão da cozinha como um bilhete de adeus.
Respirei fundo, soltei o ar — novo comportamento — e abri o envelope, tirando a carta
marcada com um coração.
Oi, querido,
Então, ambos temos questões nas quais queremos trabalhar. Para mim, seria meu perfeccionismo, meu ocasional
(pensamento positivo?) moralismo. Para você? Sei que você se preocupa por ser algumas vezes distante demais, afastado
demais, incapaz de ser terno ou carinhoso. Bem, quero lhe dizer — aqui na casa de seu pai — que não é verdade. Você não
é seu pai. Você precisa saber que é um homem bom, um homem doce, gentil. Algumas vezes puni você por não ser capaz
de ler minha mente, por não ser capaz de agir exatamente da forma como eu queria que agisse naquele exato momento. Eu
o puni por ser um homem real, que respira. Fiquei lhe dando ordens em vez de confiar que você encontraria seu caminho.
Não lhe dei o benefício da dúvida: não importa quanto você e eu erremos, você sempre irá me amar e querer que eu seja
feliz. E isso deveria ser o bastante para qualquer garota, certo? Temo ter dito coisas sobre você que não são realmente
verdade, e que você tenha passado a acreditar nelas. Então agora estou aqui para dizer: você é CALOROSO. Você é meu sol.
Se Amy estivesse ali comigo, como planejara estar, teria me dado um cheiro como costumava
fazer, seu rosto no meu pescoço, e teria me beijado, sorrido e dito: Você é mesmo, sabe. Meu
sol. Com um nó na garganta, dei uma última olhada na casa de meu pai e saí, fechando a porta ao
calor. No carro, abri desajeitadamente o envelope em que estava escrito QUARTA PISTA . Tínhamos
de estar perto do fim.
Senti um nó no estômago. Eu não sabia o que aquela pista significava. Reli. Não conseguia
nem imaginar. Amy parara de pegar leve comigo. Eu não iria terminar a caça ao tesouro depois
de tudo.
Senti uma onda de ansiedade. Que merda de dia. Boney estava me atacando, Noelle estava
insana, Shawna, furiosa, Hilary, ressentida, a mulher da empresa de segurança era uma piranha e
minha esposa finalmente me pegara. Era hora de encerrar esse maldito dia. Só havia uma mulher
que eu suportaria ter por perto agora.
* * *
Go deu uma olhada em mim — agitado, os lábios contraídos e exausto do calor da casa de
meu pai — e me colocou no sofá, anunciando que prepararia um jantar tardio. Cinco minutos
depois, vinha com cuidado na minha direção, equilibrando minha refeição em uma velha mesinha
portátil. Um clássico Dunne: queijo-quente e batatas sabor churrasco, um copo descartável com...
— Não é Kool-Aid — explicou Go. — É cerveja. Kool-Aid me pareceu um pouco
regressivo demais.
— Isso é muito maternal e estranho da sua parte, Go.
— Você vai cozinhar amanhã.
— Espero que goste de sopa enlatada.
Ela se sentou ao meu lado no sofá, roubou uma batata do meu prato e perguntou,
tranquilamente demais:
— Alguma ideia de por que a polícia iria perguntar a mim se Amy ainda vestia manequim
trinta e seis?
— Deus do céu, eles não param com isso, porra! — exclamei.
— Isso não assusta você? Tipo, eles encontraram as roupas dela ou algo assim?
— Eles teriam pedido que eu as identificasse. Certo?
Ela pensou nisso por um segundo, o rosto contraído.
— Faz sentido — disse. O rosto continuou contraído até ela me flagrar olhando, então sorriu.
— Gravei o jogo, quer ver? Você está bem?
— Estou bem.
Eu me sentia péssimo, meu estômago revirando, minha psique estalando. Talvez fosse a pista
que não conseguia decifrar, mas de repente tive a sensação de ter deixado algo passar. De que
tinha cometido algum erro enorme, e que meu lapso seria desastroso. Talvez fosse minha
consciência, tentando voltar de sua masmorra secreta à superfície.
Go colocou o jogo, e pelos dez minutos seguintes comentou apenas a partida, e só entre goles
de cerveja. Go não gostava de queijo-quente; estava tirando manteiga de amendoim do pote com
uma colher e passando-a em torradinhas. Quando houve um comercial, ela deu pausa e disse:
— Se eu tivesse um pau iria meter nesta manteiga de amendoim — falou, deliberadamente
soprando pedaços de biscoito na minha direção.
— Acho que se você tivesse um pau, todo tipo de coisa ruim aconteceria.
Ela avançou durante um inning em que não aconteceu nada. Os Cardinals cinco pontos atrás.
Quando chegou a hora do outro intervalo, Go deu pausa e comentou:
— Então, liguei para mudar o plano do meu celular e a música de espera era Lionel Ritchie;
você escuta Lionel Ritchie de vez em quando? Eu gosto de “Penny Lover”, a música não era
“Penny Lover”, mas enfim, uma mulher atendeu e disse que os funcionários de atendimento ao
consumidor são baseados em Baton Rouge, o que era estranho, porque ela não tinha sotaque, mas
disse que havia sido criada em Nova Orleans, e pouca gente sabe que... Como você chama
alguém de Nova Orleans? Neo-orleansiano?... Enfim, que eles quase não têm sotaque. Então ela
disse que pelo meu pacote, pacote A...
Go e eu tínhamos uma brincadeira inspirada em nossa mãe, que costumava contar umas
histórias escandalosamente banais e intermináveis, e Go tinha certeza de que ela estava nos
sacaneando em segredo. Durante uns dez anos, sempre que Go e eu chegávamos a um silêncio na
conversa, um de nós começava com uma história sobre conserto de equipamentos ou
preenchimento de cupons. Mas Go tinha mais disposição do que eu. Suas histórias podiam se
arrastar, sem nenhum esforço, para sempre — duravam tanto que se tornavam genuinamente
irritantes, e então davam a volta e ficavam hilárias outra vez.
Go estava passando para uma história sobre a luz da sua geladeira e não dava sinal de
tropeçar. Tomado por uma súbita e densa gratidão, eu me inclinei para a frente no sofá e lhe dei
um beijo na bochecha.
— Por que isso?
— Só um obrigado.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Virei o rosto por um segundo para piscar e me
livrar delas, e Go disse:
— Então eu precisava de uma pilha palito, que, descobri, é diferente de uma bateria, então
tive que encontrar o recibo para devolver a bateria...
Terminamos de ver o jogo. Os Cardinals perderam. Quando terminou, Go tirou o som da TV.
— Você quer conversar ou quer mais distração? Qualquer coisa de que você precisar.
— Vá para a cama, Go. Vou dar uma zapeada. Provavelmente dormir. Preciso dormir.
— Você quer um Ambien?
Minha gêmea acreditava piamente na forma mais fácil. Nada de fitas de relaxamento ou sons
de baleias para ela; tome um comprimido, fique inconsciente.
— Não.
— Estão no armário de remédios, caso mude de ideia. Se algum dia houve um bom momento
para sono assistido...
Ela pairou acima de mim durante mais alguns segundos, depois, do jeito Go, seguiu pelo
corredor, claramente sem sono, e fechou a porta, sabendo que a coisa mais gentil a fazer era me
deixar sozinho.
Muitas pessoas carecem deste dom: saber quando se mandar. As pessoas adoram falar, e eu
nunca fui um grande falador. Tenho um monólogo interno, mas as palavras com frequência não
chegam aos meus lábios. Ela está bonita hoje, penso, mas por alguma razão não me ocorre dizer
isso em voz alta. Minha mãe falava, minha irmã falava. Fui criado para escutar. Então, ficar
sentado no sofá sozinho, sem falar, parecia decadente. Folheei uma das revistas de Go, fiquei
passeando pelos canais de TV, finalmente parando em um velho programa em preto e branco,
homens de chapéus de feltro fazendo anotações enquanto uma dona de casa bonita explicava que
o marido estava em Fresno, o que fez com que os dois policiais trocassem olhares significativos,
acenando com a cabeça. Pensei em Gilpin e Boney e meu estômago deu um nó.
No meu bolso, meu celular descartável fez um som de caça-níqueis que significava que eu
tinha uma mensagem de texto:
estou do lado de fora abra a porta

0 comentários:
Postar um comentário