terça-feira, 28 de abril de 2015

8


EU NÃO CONSEGUIA DORMIR.
Depois da meia-noite, ele chamou meu nome.
Olhei pela janela. Gat estava deitado na passagem de madeira que leva a Windemere. Os
cachorros estavam deitados ao lado dele, todos os cinco: Bosh, Grendel, Poppy, Príncipe
Philip e Fatima. Os rabos balançavam com suavidade.
A luz da lua fazia todos parecerem azuis.
— Desça aqui — ele pediu.
Desci.
A luz do quarto da minha mãe estava apagada. O resto da ilha estava no escuro. Estávamos
sozinhos, exceto pelos cachorros.
— Vai mais para lá — eu disse a ele. A passagem não era larga. Quando deitei ao lado
dele, nossos braços se tocaram, o meu descoberto e o dele vestindo uma jaqueta verde-oliva.
Olhamos para o céu. Tantas estrelas. Parecia uma celebração, uma festa grandiosa e
proibida que a galáxia fazia depois de colocar os humanos para dormir.
Fiquei feliz por Gat não tentar parecer versado em constelações nem dizer coisas idiotas
sobre pedidos para as estrelas. Mas também não sabia o que fazer com seu silêncio.
— Posso segurar sua mão? — ele perguntou.
Dei a mão para ele.
— O universo parece realmente enorme agora — ele me disse. — Preciso me segurar em
algo.
— Estou aqui.
Ele esfregou o polegar no centro da palma da minha mão. Todos os meus nervos se
contraíram, atentos aos movimentos da pele dele junto à minha.
— Não sei se sou uma boa pessoa — ele disse depois de um tempo.
— Também não sei se sou — eu disse. — Estou improvisando.
— É — Gat ficou em silêncio por um instante. — Você acredita em Deus?
— Mais ou menos. — Tentei pensar nisso com seriedade. Sabia que Gat não ficaria
satisfeito com uma resposta irreverente. — Quando as coisas vão mal, eu rezo ou imagino
alguém tomando conta de mim, ouvindo. Por exemplo, nos primeiros dias depois que meu pai
foi embora, pensei em Deus. Em busca de proteção. Mas no resto do tempo só enfrento o dia a
dia. Sem nada de espiritual.
— Eu não acredito mais — Gat disse. — Aquela viagem para a Índia, toda aquela pobreza.
Nenhum Deus que eu possa imaginar deixaria aquilo acontecer. Depois voltei para casa e
comecei a notar o mesmo nas ruas de Nova York. Pessoas doentes e famintas em um dos
países mais ricos do mundo. Eu simplesmente… não consigo acreditar que tem alguém
olhando por aquelas pessoas. O que significa que não tem ninguém olhando por mim também.
— Isso não te transforma em uma pessoa ruim.
— Minha mãe acredita. Ela foi criada no budismo, mas agora frequenta a igreja metodista.
Não está muito satisfeita comigo. — Gat quase nunca falava da mãe.
— Você não pode acreditar em algo só porque ela quer — eu disse.
— Não. A questão é: como posso ser uma boa pessoa se não acredito mais?
Ficamos olhando para o céu. Os cachorros entraram em casa pela abertura na porta.
— Você está gelada — Gat disse. — Fique com a minha jaqueta.
Eu não estava com frio, mas sentei. Ele sentou também. Desabotoou a jaqueta verde-oliva e
a tirou. Entregou-a para mim.
A jaqueta estava com o calor de seu corpo. Ficava larga demais nos ombros. Os braços
dele agora estavam descobertos.
Eu quis beijá-lo ali, usando sua jaqueta. Mas não beijei.
Talvez ele amasse Raquel. Aquelas fotos em seu celular. Aquela rosa seca no envelope
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Bem Vindos ao Livro teen


Então resolvi criar esse blog porque, muita gente não tem dinheiro(tipo eu) ,vou postar livro de qualquer estilo,porque eu qualquer estilos amo ler,quer um livro que eu poste basta pedir na embaixo no meu ask,ok meu nome João Paulo ,comente para eu interagir com vocês.

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